Google+ Followers

sábado, 7 de maio de 2011

Amor em movimento *


Eu não me lembro do dia em que nos conhecemos. Ela me conta que foi numa quarta-feira chuvosa de abril e que eu cheguei algumas semanas antes do previsto. Ainda tinha muita coisa para ser resolvida ou planejada para minha estadia permanente em sua vida. Mas, o que percebo, desde então, é que ela já nasceu com o dom de me fazer sentir que sou sempre bem-vinda, mesmo com o início meio atropelado por uma bolsa estourada no meio de uma fila de banco.



Contrariando as regras da evolução, eu costumo dizer que mamãe é que é o melhor de mim. Claro que faz tempo que nos desvencilhamos daqueles laços de dependência física ou que precisava dela para apontar o lápis e me ajudar na lição de casa. Faz tempo que tomo decisões sem a obrigação de consulta-la ou de ter sua permissão.



Mas não há um só dia em que eu olhe para ela e não sinta uma forte onda de emoção. Às vezes é admiração por alguma coisa que ela diz ou faz e que, mais de três décadas depois, ainda me surpreende pelo frescor e pela notável tolerância ao novo, ao desconhecido, ao diferente que seus 67 anos só lhes têm aprimorado. Noutras vezes, a emoção vem com a agudeza do medo pela consciência da finitude. Já é saudade de coisas que ainda nem aconteceram e que eu espero que demorem muito para ocorrer. Talvez por isso eu não queira me acostumar nunca totalmente com seus gestos ou o som de sua voz afinada e limpa; de compreender a fundo o brilho dos seus olhos tristonhos que me afligem; parar de me irritar quando ela não ouve absolutamente nada do que eu falo, ou quando ela insiste para eu colocar batom ou quer que eu coma "mais um pouquinho" umas 20 vezes. Meu amor por ela não é estático ou definido. Ele está em constante movimento e a caminho de novas descobertas de como ser filha de Dulce.



Portanto, faltando cinco dias para que a imensa maioria dos filhos comemorem com suas mães o dia delas, falo aqui um pouco da minha, sendo assim a forma mais legítima de falar sobre maternidade. Porque minha biografia começou no seu ventre. E, mesmo quando quero me despir de suas palavras são seus ensinamentos que me vestem. Eu vivo às margens das lágrimas da minha mãe. Se ela chora, eu choro junto, nem preciso saber o porquê. Suas mãos são mágicas: já me curaram de dores de barriga; acalentaram-me de amores insolúveis; aliviaram-me de decepções, crises de identidade, vontades inúteis, desejos inconstantes. Minha mãe faz minha casa ter café, almoço e jantar.

* Publicado no Novo Jornal em 3 de maio de 2011.

Um comentário:

Carito disse...

Mais uma linda homenagem! Na verdade, essa veio primeiro... É que fui lendo de cima pra baixo... Tudo tão lindo e doce por aqui... Viva a poesia da vida!