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sábado, 7 de maio de 2011

Duas homenagens à dona Dulce






Teve aquela vez que eu fui para casa num final de semana e coloquei um CD de poemas do Antônio Cícero para ouvir e, sem saber se você ía curtir, coloquei baixinho a terceira faixa. Uns quatro versos depois ouvi você da cozinha dizer: Porra! E vir correndo para a sala com o pano de prato, perguntando de quem era e já sentando no sofá para ouvir melhor.



Você fez a mesma coisa agora há pouco. Malu Magalhães cantando uma música linda e você como quem acaba de nascer e não sabe de nada, pergunta de quem é e exclama: "que música boa!", deixando o pano de prato de lado e a louça lá na pia.



Você não sabe que às vezes eu fico triste e profunda quando você me olha com seu olhar de silêncio de retrato em preto e branco e eu não tenho nada mais a fazer senão te olhar sem querer te atravessar. E ficamos assim por alguns segundos. Até alguém desistir de ver tanto e sem molduras.



Eu costumo dizer muito não para você. Mas é um não com ardor e cuidados, você precisa entender. Eu não devia fazer, mas às vezes é mais forte que eu. Então, quando eu abro uma barrinha de cereal sem que seja diet e você pergunta se é diet e eu digo um não maiúsculo e enfático com outras negativas internas e proibitivas na minha voz, é porque você não deve comer doces, não fique triste. E eu prometo que não vou comer muitos doces. Nem perto, nem longe de você. Nem fazer bolo de café. E vou achar algum tipo de sorvete diet o mais rápido possível para ver aquele seu jeitinho de felicidade.

Você é meu passaporte para nunca deixar de acreditar que o amor tem várias formas e cores. Foi através de você que aprendi a gostar de sopa, de detestar jerimum com todas as forças do meu coração e de compreender que gente não rima com perfeição. E tem também seu amor pelos gatos que eu só conheci quando a gente criou o Kiko e ele ficou doente e nunca mais miou e a gente morria de rir quando ela abria a boca e não saía som algum e você tentava advinhar o que ele queria. E, geralmente, acertava. O Kiko morreu velhinho com saudade de nuvem, meio pato, meio peixe, meio cego, surdo e já mudo faz tempo, lembra? Depois foi que eu vi que você tem mó jeito de gato: tem olho diáfano, caminha devagar, gosta de se enroscar e a mão é quente.

Eu já cresci mais que você e tem horas que não te alcanço. Eu já corri, caminhei, cai, rasguei, vi escombros, construi e destrocei sonhos, vi a lua desovar alegrias e tristezas, e, no entanto, a esperança não é só minha. Ela vem essencialmente de ti.

6 comentários:

Carito disse...

Linda homenagem!

Beijos!

E parabéns a sua mãe!

m disse...

Lindo tudo aqui! :)

3 obrigadas e uma beijoca!

Feliz dia das mães para ambas (você e a sua)!

Pedra do Sertão disse...

Que belo texto encontrei na dica de Cefas! Que poéticas imagens realistas de uma mãe ou seria que realista imagem poética de uma mãe?! Sei não, mas gostei...bota um gadget para seguidor...Prazer...Abraço

Danclads Lins de Andrade disse...

O realismo ganhando nuances de poesia... Poesia em prosa... Maravilha de homenagem Sheyla. Meus aplausos de pé!

Débora Oliveira disse...

Que lindo, deu vontade de fazer um pra minha mãe também. Vamos ver no que isso vai dar...
Beijos

Mme. S. disse...

Carito, Marcinha, Araceli, Danclads, Débora, obrigada pela visita e por compartilharem comigo esse eterno aprendizado de ser filho de alguém.
sintam-se abraçados. S.