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terça-feira, 24 de maio de 2011

Felicidade




Ela pode durar apenas um minuto do dia. Mas todos a querem por uma ciranda infinita dos ponteiros. Há quem pense que ela é contrária à dor da desilusão. Eu penso que ela é contrária ao esquecimento. Para ser feliz é preciso estar suficientemente distraído, mas nunca indiferente. A felicidade é amiga do tempo, irmã da esperança, mãe da alegria.


O Globo Repórter da semana passada deu mapa e endereço: a felicidade fica num pequeno lugar encravado entre a Índia e a China: o Butão. A revista Trip já tinha dado essa notícia em 2008, quando publicou que o então rei do Butão, Jigme Singye Wangchuck, nos idos de 1972, criou o indicador FIB (Felicidade Interna Bruta), em contraposição ao PIB, que só se preocupa com a questão econômica e acúmulo de riquezas. De lá para cá o país virou referência e notícia no mundo inteiro. Para jornalista, a felicidade pode até não ter seus caminhos trilhados no Butão, mas dar "furo" (notícia em primeira mão) sim.


Com a permissão do trocadilho, felicidade para o botão é a casa. E para o pé, o sapato; o pneu menos buracos. Para sertanejo, felicidade é tempos de chuva. Depois colheita. Para folião é carnaval. Para os amantes clandestinos, felicidade é dia de semana. Para político é ficha limpa. Ou melhor, ficha limpa é bom mesmo para eleitor, contribuinte, cidadão. Torcedor é goleada, ou em tempos de lanterninha, é escapar do rebaixamento. Para mulata felicidade é roda de samba. Para o artista é atenção. Para capitalista é acumular e comunista é dividir. Para Aristóteles, ser feliz ou ter felicidade era usar a razão de tal modo que se transformasse numa virtude. Mas de filosofia eu não entendo muito. De dádiva, só tenho as dúvidas.


Quando a gente é criança, felicidade é mais simples: um gibi, um cachorro-quente, bala de goma, sorvete de chiclete, uma bicicleta, um vídeo game novo. Férias na casa dos tios. Pai e mãe, barriga cheia. Carinho de avó e avô. Quando a gente é criança, felicidade nem é mais importante que tirar nota 10 na prova de matemática na recuperação. E, quando a gente é criança, pai e mãe ficam felizes se a gente não ficar em recuperação.


Mas depois que a gente cresce, felicidade vira um negócio complexo e relativo. Às vezes muito distante, sem pontes para o que se quer e o que se tem. Ou vice versa.


Felicidade pode ser também algo que não tem nada a ver com o que se tem. Um estado de espírito que renuncia prazeres e paixões efêmeros, necessidades criadas. Um encanto pela vida que se refugia em coisas simples: uma praça bem cuidada; da natureza que habita em nós e convive bem com os outros seres; a descoberta da poesia.




* Crônica publicada hoje no Novo Jornal

Um comentário:

Danclads Lins de Andrade disse...

E esta felicidade achamos, geralmente, que a tivemos no passado e nem notamos que podemos ter o presente do presente que é a felicidade e no futuro ficarmos saudosistas da felicidade que passou, mas que atualmente é hoje. E a felicidade realmente está no simples. E quem sabe magistralmente sentir isto - ainda que sem se dar conta - é a criança. Felicidade é tudo isto sim.

Obs: O Butão inspirou o Brasil, pois existe tramitando no Congresso Nacional uma Emenda Constitucional que poderá alterar o art.6 da Constituição e colocar a felicidade entre os direitos sociais.