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terça-feira, 17 de maio de 2011

Querem alunos "ingnorantes"






A primeira vez que fiz a leitura de um texto de página inteira foi uma festa em casa. Parecia que tinha ganho medalha de ouro em olimpíada escolar. Meus pais já me estimulavam a ler desde muito antes da alfabetização formal. Compravam revistinhas em quadrinhos quando eu ainda sequer conhecia o alfabeto inteiro e, muitas vezes, recorria à imaginação e à leitura dos desenhos, porque as palavras ainda me eram um mistério. Empolgada com tanta animação, li e reli para minha professora, meus pais, tias, vizinhos, coleguinhas, o gato, o cachorro até que meu pai - percebendo que a repetição praticamente me fizera decorar as palavras que contavam a história do menino Fábio e sua ida à escola - me levou ao passo adiante: “Agora é para fazer a próxima leitura do livro. Essa você já sabe”.



Está rolando uma discussão recente sobre a adoção de um livro pelo MEC, "Por uma Vida Melhor", da Coleção Viver e Aprender, da editora Global que dispensa a conjugação de verbos e suas concordâncias textuais e contem frases como "nós pega o peixe". Em nota, o principal argumento do Ministério é de aquela obra reconhece e valoriza a linguagem dos diversos grupos sociais e variedades da língua portuguesa. E que o objetivo seria o de “combater o preconceito lingüístico”. Pois eu confesso agora publicamente meu preconceito com a palavra falada ou escrita de maneira errada. É de dar arrepios.


Um dos maiores patrimônios de um povo é sua língua. Quanto mais domínio se tem sobre o que se fala e como se fala, mais o sujeito é senhor de si, e mais possibilidades ele tem de desenvolver um pensamento crítico. Sair das estreitezas gramaticais e semânticas que podem limitar ou encerrar a comunicação deve ser condição precípua dentro da escola e fora dela. Eu posso até aceitar o argumento dos autores de que o livro defende a “forma popular” de se falar e, talvez, isso crie uma certa identidade ou familiaridade com os alunos. Mas isso não pode legitimar o erro e o descuido com a língua. Escola é lugar para se aprender. Logo, imagina-se que o aprendizado vai levar à evolução.



Falar e escrever errado são algo muito feio, limitador, complacente, equivocado e comodista. A língua formal – ou culta - não pode ser vista como um bicho papão ou como um algoz para as relações entre as pessoas e suas interlocuções.



Meu pai estava certo. Além do mistério, as palavras reservam surpresas, combinações de sons e sentidos, e uma dança inesgotável de movimentos que jamais cessam de nos estimular. Nunca mais fui a mesma após aquela primeira experiência. E jamais serei só uma, depois das leituras – espero que formais e respeitando a norma culta - que me acompanharão pelo resto da vida.






Texto publicado na coluna de hoje, no Novo Jornal.

Um comentário:

Danclads Lins de Andrade disse...

É lamentável Sheila, o descuido do governo com a educação.

Um livro que induz ao erro, nem deveria passar perto do Ministério da Educação, muito menos ser adotado nas escolas.

Já dizia Ruy Barbosa (esta frase virou quase lugar-comum) "Um país se faz com homens e livros". Ora, que homens e mulheres teremos com livros desse naipe?

Preocupante.

Parabéns pela postagem e... Também confesso: tenho preconceito pelo português errado, notadamente se sai da boca de quem tem acesso à língua pátria culta.