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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Multiplicação do delírio necessário para ver a vida como ela não é

Foto/delírio: Tuca



O menino foi catar pensamentos no fundo do seu quintal e deu de cara com um pé de Lua trocando uma prosa com um besouro sedutor, se equilibrando nos galhos da moitinha. Aí o menino resolveu me mandar de presente o pé de Lua e eu adorei. E como o presente é meu, o divido com vocês.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Chama Deus!*

A máxima “só Deus salva” foi o que o ex-jogador da paixão brasileira e agora deputado federal, Romário, quis dizer quando soltou a seguinte pérola: “os evangélicos acreditam que Jesus vai voltar. Só ele para fazer com que o Brasil faça a melhor Copa. Se ele descer nos próximos três anos, aí será possível”. A advertência contida nessa locução é bastante legítima. No Brasil todo paira a tensão sobre se o maior espetáculo da terra realmente encherá os olhos do mundo, sendo ele encenado aqui.


Não sou muito entendida do traçado futebolístico mas, de fato, a televisão tem transformado o futebol nos últimos 30 anos num negócio que encanta e arrebata corações, com suas supercâmeras, tomadas cheias de detalhes, takes em slow motion, tira-teima e outras parafernálias ultramodernas que fazem desses campeonatos feriados nacionais que esvaziam as ruas das grandes metrópoles, e aí inclua-se Natal.


A questão toda é se ficaremos “bem na fita” e se teremos toda a infra-estrutura necessária montada em tempo hábil para exibir ao mundo inteiro esse orgulho nacional. Pela televisão tudo parece bem mais fácil. E se os anseios dos cristãos se concretizarem e, digamos, que as necessidades exigidas pela Copa apressem a pretensa volta de Nosso Senhor Jesus Cristo à Terra? E, se em sua infinita bondade Ele resolver se hospedar justamente no Brasil? O santo homem bem que poderia dar uma forcinha para outras dificuldades que a humanidade brasileira vem enfrentando embaixo do Sol. Por exemplo, em se tratando especificamente do Rio Grande do Norte, ao invés dos deputados estaduais, ele mesmo intermediaria a negociação entre grevistas dos diversos setores e Governo. Assim, quem sabe, nossos estudantes das escolas estaduais – sem aulas desde abril - pudessem recuperar o tempo perdido e, através de milagre, assimilar o conteúdo programático do ano letivo, passar de ano e quiçá no vestibular, para uma universidade pública.


Deus também poderia virar uma espécie de ombudsman dos programas produzidos em Seu Nome e dar uns conselhos sobre ética e informação, uso de imagem, espetacularização da desgraça alheia, responsabilidade da influência sob os mais carentes, o verdadeiro sentido do dízimo, dentre outros detalhes que eu acho que até Ele mesmo desconhece. Por outro lado, se Deus estiver muito ocupado com coisas mais importantes para fazer e não tiver pretensões momentâneas de voltar, o que nos salvará então? Não tenho as respostas prontas, sinto informar. Mas arrisco um conselho, vamos continuar acreditando que Deus existe e que é brasileiro.


Esse texto foi publicado no Novo Jornal, hoje.

sábado, 25 de junho de 2011

A boa morte *






Para se ter uma boa morte é preciso, sobretudo, se viver uma boa vida. Recomeçar nem que seja nos sonhos. Perdoar é uma das lições que a vida nos ensina cedo ou tarde. Quem sabe, até mesmo esquecer? O perdão pode preservar algumas manchas no lençol das lembranças. O esquecimento alveja as mágoas. Para se viver uma boa vida é preciso mudar o foco, o olho. Mudar a rima.



Para se ter uma boa morte é bom que ela só chegue lá pelos 80, 90, que é para dar tempo ao tempo que se tem para viver. Nesse intervalo entre nascer e morrer, descobrir as estranhezas do mundo sem nunca perder o espanto e, sempre que der, soltar boas gargalhadas. Morrer é viver todos os dias sem dar ênfase à morte. Acreditar que o caminho não nos levará ao fim, mesmo que ele nos espreite nas esquinas, no trânsito, no cano quente da arma, nos noticiários, nos pesadelos, dentro do corpo – onde a morte mora -, nas saudades de quem já deixou de existir na carne, nas ruínas que a natureza emprega mundo afora.



Quando somos tenros na existência, a morte pode ser só a imagem de um enterro de alguém da rua onde você mora. Um pé com meia, um corpo coberto de flores e o medo de assombração quando a noite chega. Depois, mais tarde, a morte do lado de fora se instala nos olhos dos nossos entes mais velhos e empurra a vida para o medo de perder.
Um dos maiores medos que o homem alimenta da sombra da morte é a perda do tato. Nunca mais tocar alguém que se admira, que se ama é ceder à eternidade – essa senhora inútil - a consistência do ser.



Há um tempo atrás conheci um homem simples. De muita estrada e palavras acolhedoras. Guardava nas fendas das rugas o amor pelos bichos. Tinha cachorro, gato, papagaio. Tinha muitos amigos também, que recebia regularmente na calçada de sua casa, num banquinho de praça propositalmente instalado para aquele intento. Contava muitas histórias. A maioria vivida por ele próprio. Não nascera para os livros. Conjugava verbos com a força dos braços e pernas. Viveu substantivos em cada lugar desse Brasil afora por onde levou seu caminhão. Eu gostava de sentar e conversar com ele, mesmo que fosse para ouvir as mesmas histórias, porque não tinham ranço de passado, nem a nostalgia dos frustrados. Ele preservava um frescor sobretudo na capacidade de sonhar. E nem era só sonhos particulares. Preferia imaginar que a felicidade só se consumava caso fosse compartilhada com os seus. E assim se foi. Quase inocente como criança, seguiu sonhando com uma boa vida até o derradeiro adeus.



Texto publicado no Novo Jornal, no dia 14 de junho.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pontes para atravessar os outros

mariaeugeniailustrations.com






No fim do dia descanso os pés e as pálpebras por sobre a linha do tempo. Esqueço a dureza do que já foi e penso na leveza do que será amanhã, que ainda está só no pensamento. Antes de começar tudo de novo e de arranhar os pés no asfalto.


Agora meus cabelos estão soltos e desavergonhados. Conversam com a brisa invisível que vem dançando pelas brechas da casa. Meus dedos só querem brincar com as palavras que insistem em sapatear nos teclados. O vestido surrado e longo tem desenhos de rosas e cheira a pano lavado. Simples como deveriam ser os pincéis de Van Gogh. Não sei por que Van Gogh me veio à cabeça. Talvez porque ao redor dela vivam duas orelhas.


Lembro que comi um sanduíche na hora do almoço, enquanto observava três mulheres bonitas e maduras sorrindo e falando suas vidas, suas coisas, suas asas e suas armaduras. No meio da tarde tive vontade de escrever uma carta tão antiga quanto o tempo. Escrever para o silêncio. Ouvir as tristezas decantadas nos olhos dos transeuntes através dos seus passos rápidos pelas ruas. Às vezes, é tanta pressa que quase não dá tempo de viver. De contar histórias e virar personagens e criar pontes para atravessar outros alguéns.


Um velho conversava sozinho dentro do ônibus. Estava tão compenetrado que não permitia qualquer interferência. Era a demora do trânsito, as buzinas, o empurra-empurra que ele assistia e reclamava com seus botões, apertados nas casas da camisa. Tentei olhar para o olho dele, mas ele não deixava. Não queria interlocução. Para ele não havia distância segura entre suas palavras e a minha dedicação em ouvir. Melhor desistir e contar os postes, fazer respiração compassada, comprimir e relaxar os músculos, mudar a bolsa de braço, o braço pra cima, o braço pra baixo.


O dia já é noite faz tempo. Devo confessar que o que mais quero agora é adentrar pelos caminhos dos meus labirintos. Isto é, dormir e embaralhar os sonhos nos fios dos meus pensamentos.

domingo, 19 de junho de 2011

Só um sonho




Nunca estive em um farol. Ontem sonhei que amava um antigo amor da adolescência. Ele não preservava a barriguinha que agora eu vejo nas suas fotos exibidas nos sites de relacionamento, nem o cabelo levemente ondulado na altura dos ombros, bem diferente da imagem de agora de cabelo cortado a máquina um. Ou seja, no sonho, eu amava o passado. E quando os dias próximos adentram a caverna das lembranças até as desilusões perdem a cor da desventura. E se nos revelam doces lembranças.


Nesse sonho não existiam esquinas, janelas, ruas, rios ou pedras. E quase podia tocar um cheiro leve e misturado de carinho e desejo que penetravam as paredes e os olhares acolhedores dos nossos amigos em comum que torciam para nosso enlace. Havia muita cumplicidade no sonho. E também desencontros. Quando ele queria, eu estava distraída. Quando eu o procurava, era hora do jantar e ele tomava, sem fome, uma sopa.


Olhei. Olhei muito para ele um número secreto de vezes. Sonhei dentro do sonho que me amasse também. Nas singraduras do meu inconsciente ele era mais engraçado, menos cínico. Mais ouvinte, menos verboso. Mais homem dentro do menino. Às vezes, ficava um pouco distante de mim e podia ouvir os passarinhos e até minha respiração. Quase tinha certeza de que aquilo era matéria diáfana de um sonho qualquer, no deserto das horas que me separavam do despertar. Minha estadia nesse sonho demorou mais algumas horas ou talvez mais alguns segundos, se contados no tempo do lado de fora da gente.


Às vezes, um amor é capaz de renascer nos sonhos. Um amor que nem mesmo nascera nas palavras e nos gestos. Um amor que traz uma nostalgia secreta, como essa que sinto pelos farois.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Lições do meu gato

Meu gato siamês
Não sabe que um dia vai
Morrer
Por isso, todas as manhãs
Parece que é a primeira vez
Que ele
Acorda para a eternidade

São João (poeminha bobo)




A canjica é amarela

A pamonha também

O Santo dorme num lençol branco

Incólume até o próximo

Estampido

Vermelho dos fogos

Que eram azuis no ventre

Da pólvora

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Adele - Rolling In The Deep



Adele. Vozeirão. Dois grammys no primeiro disco, aos 19 anos. Na falta de qualquer coisa que valha à pena para escrever, melhor dar ouvidos a quem realmente tem o que dizer. Tem vezes que me dá uma preguiça extrema da inutilidade que as pessoas praticam na grande rede. Taí um bom vídeo para se ver no You Tube.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Eduardo e Mônica - O filme




Caraca! Que legal! Virou filmeeeee! Hahahahahahah! Adorava essa história de amor em forma de música.

Toda forma de amor



A imagem de um casal de mãos dadas, se beijando ou trocando afetos é sempre inspiradora. Afinal, na cena em si, vislumbra-se que o amor é bom, é importante e faz bem a quem o exercita. Romantismos à parte, penso que é uma visão que traz esperança. Demonstração de afeto nunca faz mal a ninguém.


Mas não é assim com todos os casais. Desde que o mundo é mundo, ou como diziam os mais antigos, desde o tempo de Roma, existem as relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo. Entretanto, ainda hoje essas pessoas, de alguma maneira, seja por vergonha, por moralismos, por repressão ou até medo de possíveis agressões verbais e físicas, não têm o mesmo dispor de demonstrarem seus afetos em público.


Sei que essa rejeição de uma sociedade que ainda é incapaz de respeitar o que é diferente daquilo que ela considera “modelo”, “natural” ou até mesmo “religioso” não consegue impedir que os homossexuais se relacionem. Mas muitos ainda vivem numa espécie de clandestinidade; ou de “autocaricaturização”, para se tornarem engraçadinhos e divertidos e, assim, conseguirem aceitação.


Vivemos num país onde os direitos são privilégios. Estudar numa boa escola, ter assistência médica, segurança, ir ao teatro, cinema, no pagode, no barzinho, ler um livro, passear no parque no domingo não são condições fundamentais para qualquer pessoa. E o direito de amar a quem quiser - e como quiser - parece que é privilégio só dos heterossexuais.


Fico preocupada quando eu ouço um “defensor da moral e dos bons costumes” dizer que um kit anti-homofobia distribuído nas escolas vai ameaçar as famílias ou influenciar a “opção sexual” dos jovens estudantes. Primeiro, vamos deixar algo bem claro: ninguém “opta” por uma sexualidade que vai lhe permitir ser discriminado nos lugares, ser alvo de piadinhas infames, de não ter a mesma liberdade de viver seus sentimentos sem que ele seja tachado como algo sujo, impróprio e obsceno. Logo, ser homossexual não é uma opção. É uma orientação e se nasce com ela. E, de modo geral, as pessoas que se atraem pelo mesmo gênero sofrem um bocado com a intolerância. Se fosse uma opção, certamente, nesse mundo cheio de preconceitos, já existiriam milhares de ex-gays e ex-lésbicas.

Segundo, a orientação sexual de quem quer que seja é capaz de ameaçar a família heterossexual. A menos que ela seja uma mentira. Nenhum machão vai deixar de ser pegador se aprender a conviver com o que é diferente. Conviver não é o mesmo que converter. O fato é que se o amor traz esperança de que podemos viver num mundo melhor, então toda forma de amor vale a pena.


Texto publicado no Novo Jornal no dia 7 de junho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Leitura labial



visualise us


A fome me abraça quase terna
Ignora o divórcio de minhas mãos em sua cintura

Discreta, porém, resoluta
Oculto me mim mesma o barulho que irrompe
Da boca do estômago

Abro a carta sem pressa
E sinto o gosto do vento, vindo da janela
Falta pouco, falta bem pouco
Para que minha língua toque o doce do teu silêncio

domingo, 5 de junho de 2011

Não Gosto dos Meninos - COMPLETO HD




Dezoito minutos de histórias de vida.
Vale a pena ver. Meu amigo Fred Luna tinha me mandando por e-mail, mas eu não consegui assistir. Daí, hoje assisti pelo You Tube e também quero dividir com meus amigos visitantes do Bicho. Embora ainda não tivesse assistido, esse filme tem muito a ver com o texto "Toda forma de amor", que eu escrevi para o Novo Jornal e que publico aqui quando sair lá, na terça-feira.
Bom domingo para todos nós!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vontade de mar






Um barquinho à deriva no meio da rua. Sequer uma gota de chuva para consolar. Fiquei com pena do barquinho. Ali sozinho, sem canto de sereia para se encantar. Tive vontade de dizer que a cidade é uma selva. E que ele tivesso cuidado com os carros, os pés e o vento sem norte. De repente, não sei, fiquei com vontade de mar.