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terça-feira, 12 de julho de 2011

Pessoas são mais importantes





Teve uma vez que eu estava indo fazer uma matéria na Comunidade do Salgado, lá no Km 6. No caminho, no cruzamento da Olinto Meira com a Alexandrino de Alencar, paramos no sinal vermelho e, tudo aconteceu muito rápido. Ouvimos um estrondo muito forte que vinha do posto de combustíveis da esquina. A primeira coisa que pensei era de que o posto estava indo pelos ares. E nós, a fotógrafa, o motorista do jornal e eu estávamos a menos de três metros do lugar. Não pensei duas vezes, abri a porta do carro e gritei para que todos corrêssemos na direção contrária do fogo. Eu não queria morrer.

Naquelas pequenas frações de tempo em que o pensamento corre mil léguas à frente dos passos, eu imaginava que, se estivesse fazendo a cobertura de uma guerra não tinha como evitar a queda de uma bomba em cima da minha cabeça. Naquele momento, eu tinha essa escolha. Queria me salvar e salvar meus companheiros de trabalho. Passado o primeiro impacto da explosão ensurdecedora, antes mesmo de chegar do outro lado da esquina, olhei para trás e tentei compreender o que se passava porque eu já não tinha tanta certeza de que o posto todo estava explodindo. Na verdade, o que explodiu foi um botijão de gás dentro da lanchonete do local. Por sorte, destino ou acaso, um dos frentistas havia acabado de desligar a bomba que abastecia um carro. O impacto fora tão forte que o carro mudou de posição com o motorista dentro, estatelado de medo.

Na iminência da morte, medo e coragem se confundem. A fotógrafa, Ana Amaral, mais destemida, foi a primeira a se aproximar. Parte do teto do posto desabou. Vidros dos carros, do outro lado da rua, quebraram com o impacto. Pessoas gritavam desesperadas. Duas delas ficaram gravemente feridas. Uma morreu dias depois no hospital. A terceira, que trabalhava no local, se safou porque tinha ido ao supermercado comprar um frango. Foi uma reportagem e tanto aquela. Saíra da condição de ouvinte - e de só chegar depois - para ser parte do fato. Lutei para produzir a notícia sem cabotinagem. Página inteira. Mas o chefe queria que eu relatasse minha experiência. Achei que era pertinente.

No relato em primeira pessoa fui fiel aos meus medos. Às minhas limitações. Revelei o impulso inicial de fugir da explosão. Tempos depois, descobri que alguns colegas de um outro jornal zombaram da minha sinceridade. Confesso que até hoje não entendo o motivo da graça. Naquele dia, como em nenhum outro, pulsava dentro de mim a certeza de que a vida das pessoas é mais importantes do que as matérias.


Esse texto foi publicado hoje, no Novo Jornal.

3 comentários:

Ada Lima disse...

Taí mais um motivo pra eu te admirar, minha crêidija.
tô azulverdelilás de saudade!

Mme. S. disse...

E eu to um arco-íris de saudades de tu, cráudja! (Legal vc aparecer por aqui, pq eu pensei quissó em vc dia desses). Abraço apertado viu?

Anônimo disse...

sheylinha,nem li seu texto ainda,pirei geral quando te achei,precisava falar que ainda te amo,como naquele tempo,que não passou dentro de mim.Todos os elogios que te fizerem,nunca revelaram quem vc é de verdade.te admiro demais.linda minha LUA.

rejane.