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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Cumpleaños feliz! (metade "diário" metade crônica)







Domingo passado a primeira coisa que minha amiga fez quando chegamos à livraria para um inocente café com bolo foi apontar o livro na estante: Borges uma vida, biografia de um dos meus escritores preferidos, Jorge Luis Borges, escrita pelo autor Edwin Williamson.



Tomamos café, conversamos, encontramos outra amiga, sorrimos, nos distraímos e eu lá, pensando no livro. Absorta na ideia fixa de coloca-lo na prateleira dedicada ao autor. Foi né? Estou lendo em doses homeopáticas. Junto com Fazes-me Falta, de Inez Pedroza.




O doido é que eu não lembrava que HOJE é data de aniversário de Borges. Ele nasceu em 24 de agosto de 1899. E é muito mágico isso porque minha ignorância foi trabalhando e evocando Borges por esses dias em vários momentos. Primeiro foi na crônica que fiz para o Novo Jornal sobre a cegueira e encontros e, lá estava Borges. Depois a referência direta que todos meus amigos íntimos fazem a mim quando veem a literatura de Borges, como foi o caso de domingo passado na livraria. E eis que de repente, dando uma espiadinha agora à noite no Substantivo Plural do Tácito Costa, entendo claramente os caminhos do acaso.






* Luz que me alumia


Tive a chance de conhecer, recentemente, as “Ceguinhas de Campina Grande”. Elas ficaram famosas depois que viraram personagem principal do documentário “A Pessoa é para o que nasce”, dirigido por Roberto Berliner, e lançado em 2004. Elas vieram a Natal dentro do Programa Agosto da Alegria e se apresentaram no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel, numa terça-feira chuvosa.



Disse “a chance” porque embora pareça um super clichê, estar diante delas, ouvir suas cantorias e histórias, me deram a clara percepção de que a vida vale muito à pena. E que todos os problemas que se nos apresentam têm a dimensão do tamanho do nosso olhar. Regina (Poroca), Maria (Maroca) e Conceição (Indaiá) são donas daquela sinceridade desconcertante que deixa o interlocutor sem palavras e só com sede de ouvir. Talvez porque sejam desprovidas de rebuscamentos e ricas em simplicidade, tornam tão substantivas suas histórias. Cegas de nascença, me contaram – sem qualquer resquício de autopiedade – que os pais as levavam pelas feiras-livres, para que elas cantassem e, assim, garantissem o sustento da família composta por oito pessoas. Não foi uma vida fácil na infância. Todas agora sexagenárias, ainda não têm uma vida fácil. Mas e daí? Quando pergunto o inevitável, a resposta é rápida: A vida é boa.



Apesar de todas as dificuldades que ouvi, em nenhum momento, senti escuridão nelas. Talvez a escuridão habite muito mais nas pessoas que as enxergam, do que o que elas “enxergam” no mundo e em nosotros.



Falando em portenho, um dos meus escritores preferidos, Jorge Luis Borges, no livro Sete Noites, na conferência sobre “A Cegueira”, aquela que o acometia, em certo trecho confessa: “O mundo dos cegos não é a noite que as pessoas supõem. Em todo o caso, estou falando em meu nome e em nome de meu pai e de minha avó, que morreram cegos; cegos, sorridentes e corajosos, como eu também espero morrer. Herdam-se muitas coisas (a cegueira por exemplo), mas não se herda a coragem. Sei que eles foram valentes”.



Poderia ter sido escrito para elas. E também para minha avó, Eutaciana de Azevedo Cruz que, durante parte da minha infância desconhecia meu rosto, pela visão acortinada por uma catarata precoce. Nunca fomos tão próximas uma da outra como naquela época. Ela estava sempre cantando, me balançando na rede, contando-me histórias e me beijando como se, com os lábios, pudesse sentir o meu sorriso sempre escancarado para ela. Nesse mundo de tantos outros tipos de cegueira lembrar e estar diante dessas pessoas foi realmente iluminador.

* Crônica publicada ontem no Novo Jornal




2 comentários:

Anônimo disse...

ótimo texto.
texto profundo e verdadeiro.

bj.

Luciano Góis.

Carito disse...

Salve Jorge! Salve Sheyla!