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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Delicado gesto

Foto: Demis Roussos





A vida é toda desenhada de cheiros, gestos, sons e lembranças. Peço licença ao vácuo da hibernação imposta pelo inverno das horas ocupadas para contar um episódio que me ocorreu ontem pela manhã. Estava diante de um homem velho e sábio, erudito e popular, sério e engraçado, loquaz e silencioso. Um homem que revelou ter dentro de si duas personagens: "Tem dentro de mim eu mesmo e um velho cabuloso chamado Ariano Suassuna".



Um velho que carrega a leveza do saber em cada lento movimento do corpo em contraposição à agilidade da alma espirituosa e sabida que abre caminhos quando fala das coisas apreendidas ao longo de 84 anos. Um velho com cara de velho. Um homem que sabe manusear bem as cordas das palavras e enlaçar gente, cotovia, pirilampo.
Um velho que, alguns dizem "chato", que adora rir-se de si mesmo e desdenhar das vaidades que lhes são dadas como dádiva ou dívida. Um velho que só quer ter mais tempo para ler e escrever. E que "namora" a mulher há 64 anos. A voz mansa e rala não faz questão de ser ouvida. As mãos encenam as histórias no ar com a mesma destreza da boca certeira a cada sílaba.



Assim é esse homem a quem tive a honra de abordar e ter dele um fino gesto de delicadeza: beijar-me a mão. Um gesto, aparentemente, tão simples e que vem se esvaindo a cada década vivida. Um gesto que enlaçou minhas horas exaustivas de trabalho em alguns segundos de puro encantamento. De saudades de uma época que eu nunca vivi. De vontade de delírio. De encantamento pelos caminhos percorridos em outras épocas e em outros tempos.



O meu tempo é curto. O tempo dos outros também. Não se para mais para beijar a mão de ninguém. E essa é uma triste rima que eu nem pensei que poderia surgir por aqui.
Não lamento pelo tempo vivido dos outros. Só tenho inclinações para abrir caixinhas de músicas que não se ouve na rádio; sentir cheiro de papel amarelado dos livros; me encantar por um gesto delicado e simples no dorso da minha mão e me lembrar disso pelo resto da minha existência.

Um comentário:

Débora Oliveira disse...

Que maravilha! Lamento muito ter perdido a fala dele aqui em Natal mês passado. =/

Bjoks