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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Lições de vida *

Otto, "beu pintinho abarelinho"



Fellini, o "Tatu Bola"






Dollores, a "Tartaruga Ninja"






Sempre tive muita atração por bichos. Pouco medo também. Às vezes até penso que deveria ter sido veterinária. Em reportagens que tive a oportunidade de fazer já peguei em cobra, jacaré, filhotes de leão e onça. Bom, mas eu quero mesmo é falar da experiência gratificante de preservar essa amizade e de criar vínculos com os outros seres que não sejam humanos.


Desde sempre cultivamos o convívio com animais domésticos em casa. A primeira foi uma cadelinha SRD+pequinês cor de tijolo chamada "Xuxa" (ok, ok, confesso que um dia eu quis ser paquita). Ela morreu velhinha. E, um mês depois, seu "companheiro" Kiko, um gato bochechudo (ok, ok, mais uma influência midiática, dessa vez vinda do seriado mexicano "Chaves"), que já tinha 12 anos de convivência pacífica com ela, morreu de saudades. Depois deles, sendo um de cada vez, passaram por casa, Mingo; Nina Lucy Fredericka e a Mel. Todos eles morreram de morte trágica, alguns vítimas da maldade humana.


Quando a Mel morreu percebi que mamãe estava muito carente e de vez em quando batendo uns papos com as samambaias e até com a geladeira. Ela resistia à idéia de ter novamente bichos em casa. Mas insisti e minha amiga Waleska disse que ía providenciar "uma gatinha" para a gente, que viria de uma ninhada de siameses. Não fazemos restrição de sexo, não temos preferência por machos ou fêmeas, não implicamos com cor ou raça e também sob hipótese alguma compramos animais. Dois dias depois chegou o Fellini (sim, um gato, até hoje não entendi esse mistério, nem questionamos nada com ela) em nosso lar. Cerca de dois meses, meio assustadinho e muito educado. A primeira coisa que fez foi fazer as necessidades fisiológicas na bacia higiênica que já havíamos preparado para ele. Ganhou mamãe na hora! Fellini é um dos animais mais inteligentes que já convivi. Aprende fácil as coisas, tem uma capacidade incrível de se comunicar, e se adaptou bem ao banho, a passear com guia, é manso, muito contemplativo, não dá trabalho para tomar remédio, o comportamento pacato conquistou o veterinário (que admitiu que preferia cachorros) e seus esportes prediletos são, nessa ordem, dormir, brincar de esconde-esconde, dar lambidas na gente e fazer dois passeios diários por dia. E ninguém estranho ao nosso lar jamais vai poder presenciar as coisas incríveis que ele faz, como tentar abrir a porta puxando o trinco, rolar no tapete e dar cambalhotas no ar com mosquitos imaginários. Porque ele é o gato mais matuto e recluso do mundo e, basta ouvir a voz ou sentir o cheiro de alguém estranho, que se esconde debaixo da cama ou em cima do guarda-roupa. Eu podia fazer mil parágrafos sobre as coisas que aprendo com Fellini, sobre o prazer que é ter um serzinho tão amoroso na minha vida. Mas tenho outras histórias para contar.

Dollores apareceu da noite para o dia perto de casa. Estava tão maltratada, tão cheia de sarna e feridas que causava repugnância em alguns e, muita angústia em mim. Precisávamos matar um pouco de sua fome desesperada. Mas era pouco. Passei uma noite pensando que precisava fazer alguma coisa. No dia seguinte, Dollores tomava seu primeiro banho. Deu um pití ameaçador para tentar me intimidar a não passar o sarnicida, mas não funcionou. Com o tratamento contínuo e diário, em uma semana as feridas já tinham sarado e ela parava gradativamente de se coçar. Os pelos começaram a crescer e ganhou peso. Fiz uma foto dela, botei num cartaz, levei para o trabalho e fiz uma campanha para arrecadar uma grana para a cirurgia de castração. Algumas pessoas torciam o nariz, outras riam de mim, outras ajudaram. Consegui a metade da grana e bancamos o resto. Foi um presente que me dei poucos dias antes do meu aniversário no ano passado. O veterinário disse que ela deveria ter uns seis meses mas, estava tão desnutrida e debilitada que ainda não tinha chegado à maturação para entrar no cio. Depois disso pedi ajuda ao Marcelo para a gente conseguir um lar definitivo para ela aqui no bichinhos precisam de lar, mas ninguém apareceu. Teve até uma amiga que desistiu na última hora de leva-la para casa, porque no meio do caminho, quando vinha buscá-la encontrou uma gatinha filhote atropelada. Não dava para competir né?


Desisti de dá-la para adoção. Começava o processo de adaptação com o Fellini que, nessa altura do campeonato, estava arredio, ciumento, agressivo e irredutível com a presença de um novo ente na família. O processo foi longo. Primeiro arrumei um "barraco" para ela na varanda, onde ela dormia e comia. Sem contato físico com ele. Mas isso a deixava exposta e me incomodava. Até que um dia chovia muito e ela saiu da varanda e foi bater na janela do meu quarto. Botei-a para dentro e assumi as consequências da ciumeira do primeiro. Posso dizer que até hoje ainda rolam umas rusgas entre os dois que ora parece briga, ora parece brincadeira. Eles não se bicam muito bem. Mas Dollores está definitivamente na minha casa e no meu coração. Depois que ela se recuperou dos maus tratos e das enfermidades se transformou num belo animal. Onde lhe faltavam pelos hoje tem em excesso. Ela é muito bonita mesmo, não é exagero de protetora. Eu sou absolutamente apaixonada por ela. Embora ela me esnobe e reclame das minhas abordagens digamos, exageradas, de dar cheiro e botar no braço. Dollores tem personalidade forte, não gosta de ser contrariada e é muito independente. Tem dificuldades em lidar com contato físico. Acho que apanhou muito e foi maltratada porque às vezes, do nada, ela se esquiva quando nos aproximamos como se estivesse se defendendo. Mas, no geral ela é relaxada e despachada e já mudou bastante. E dá umas cabeçadas na gente como demonstração de afeto e reverência. A última vez que a pesamos estava com 4,5 kg. Ela é a prova viva de que com amor, paciência e cuidados a gente pode reverter um quadro de dor e abandono.


Também falaria muito mais sobre ela, mas, ainda tem o Otto. Ele perambulava pelas redondezas desde que chegamos no nosso lar atual. É um gato de porte grande, castrado, parecia que tinha dono. Mas não tinha. Passamos a alimentá-lo (ração e água) escondidos das pessoas que tinham muito preconceito com ele. Ele era muito sujinho e maltratado e, infelizmente, nem todo mundo se sente responsável por esse tipo de crueldade e abandono que fazem com os animais, especialmente os gatos. Mas foi ele quem foi me conquistando. Como eu não o repelia, ele passou a me seguir para onde ia e me dava umas arranhadas nos pés, como se tivesse querendo chamar a minha atenção. Passei a acariciá-lo, conversar um pouco com ele e ganhando confiança. Aos poucos fui trazendo ele para comer dentro de casa porque as vasilhinhas que eu espalhava pelo condomínio para alimentá-lo desapareciam praticamente todos os dias, por algum vizinho incomodado. O primeiro banho que eu dei nele foi incrível. Otto demonstrou muita tolerância àquele estresse e mudança de sua rotina, ganhou uma cor laranja viva e brilhante e dormiu por cerca de umas oito horas seguidas, como se estivesse aliviado. Mas continuava dormindo fora. Daí, no Natal do ano passado, minha mãe arrefeceu e aumentamos a família e o número de vasilhas fixas de gatos espalhadas pela cozinha da casa. Ele está velhinho. Dorme e ronca muito. Tem mania de ficar em cima da minha escrivaninha. Se não tomar banho com uma certa periodicidade fica fedorento pra caramba, por conta dos dentes estragados, e ainda por cima é babão, e ainda não aprendeu a fazer as necessidades na bacia higiênica e faz no ralo do banheiro. E eu o amo e tento compensar todos os anos que ele passou sem um lar e sem carinho. E quando ele me olha, eu sinto que ele entende que agora não está mais sozinho. É o mais obediente da casa.


Daí, todos os dias de manhã cedo eu saio para passear com o Fellini, na guia porque é condicionado desde pequeno, e o Otto e a Dollores saem juntos. Embora eles não estejam presos a mim por uma coleira, nenhum deles sai de perto. E, quando eu volto para casa, todos eles vêm atrás, sabendo que ali é o seu lar, que ali ninguém vai bater neles, que eles têm cama mesa, banho e um sono tranquilo longe dos carros, da chuva, do sol quente e de gente que não tem vergonha de ignorar ou maltratar os animais. E eu, quando me apercebo que tenho em casa uma "ruma" de gato, penso no quanto eu sou feliz nesse exercício cotidiano de sair da zona de conforto; de aprender com eles a exercitar amor, cuidado e preocupação. Meus gatos me melhoram. Quero finalizar falando uma frase da Clarice Lispector que nos faz lembrar da nossa "selvageria" intrínseca: "Não ter nascido bicho parece ser uma de minhas secretas nostalgias".


* Publiquei esse texto no Bichinhos Precisam de Lar, em 26 de maio deste ano e replico hoje.

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