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terça-feira, 9 de agosto de 2011

O fantástico mundo do consumo *





Li o texto do psicanalista, Contardo Calligaris, na coluna da Folha de São Paulo, sobre sua experiência, dentro de casa, com o impacto que a morte da cantora Amy Winehouse causou na enteada de 11 anos e do quanto ela ficou impressionada com a morte precoce de uma cantora que na opinião de muita gente, parecia promissora pela força da voz e talento nas composições.


Relatando o fato de que a garota acordou no meio da noite e precisou ser consolada para compreender aquilo que ocorria, como todo bom psicanalista, Calligaris fez uma associação sutil, porém relevante, do sentimento de consternação que tomou conta de muita gente com a morte da Amy ao consumo exacerbado de produtos e imagens inalcançáveis de beleza, riqueza e felicidade que a mídia de modo geral nos enfia goela abaixo. Transformando-nos numa massa amorfa de desejos fúteis, inúteis e irrealizáveis. E quando falo em mídia, peço licença para explicar que não se tratam somente dos meios formais e tradicionais de comunicação como jornais impressos, televisivos e rádio, como muita gente resume. Mídia é toda a complexa rede de informações e formas de comunicar, contar histórias e "vender" ideias, conceitos e produtos, passando pelos livros, revistas, cinema, novelas, difusão de música e, nos últimos 15, 10 anos, conta com a grande rede mundial de computadores que, se por um lado deu um salto na chamada convergência de mídias e na disseminação e acesso às informações, por outro permite com igual espaço e com o salvo conduto da democratização e direito à informação toda sorte de futilidades, apelo ao consumo, desserviços e histerias que levam ao consumismo e aos vazios existenciais de crianças, adolescentes e adultos.


Calligaris lança mão de um questionamento a partir do que ele chama do "paradoxo de Amy" e faz a provocação: "o que você prefere, uma filha que se perca tragicamente nos excessos do desejo ou uma filha que chegue à vida adulta sem ter conhecido outros desejos do que os que surgem nas conversas sobre marcas de mochilas e sapatos?".


Se é que se pode encontrar ironia na tragicidade precoce da morte de alguém, especificamente dessa moça aparentemente tão promissora na arte musical, o irônico é que ela parecia a antítese da sua imagem vendida pela mídia. Nem fama, nem riqueza, nem tornar-se ícone da moda com o cabelo em formato de bolo de noiva, as sapatilhas de bailarina e o inconfundível delineador nos olhos, foram capazes de preencher seus vazios que, pelo visto, nada tinham a ver com a imagem da perfeição que alguns insistem em querer nos ludibriar.



* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.



Um comentário:

Débora Oliveira disse...

É por isso que eu defendo que dentro de todo homem existe um vazio do tamanho de Deus. Fama, sucesso, dinheiro e etc, etc, não tem a capacidade de trazer felicidade. Enquanto isso, jovens morrem precocemente...
Bjos