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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma carta que nunca será entregue

Caro F, tenho pensado em você mais vezes que o previsível. Lembrado de algumas coisas essenciais no nosso convívio como comer cenoura crua, limpar o molho do macarrão no prato com pão e ouvir o som da minha voz cantarolando alguma coisa só porque você pedia.



É fato que já faz algum tempo que ultrapassei a ponte da saudade e mergulhei no rio das memórias. Todas tão doces e com a cor dos teus olhos. Tem vezes que até nem sei se o que estou lembrando, como o calor das tuas mãos amalgamadas nas minhas enquanto caminhávamos pela praia, tuas brincadeiras com os cachorros, os livros de poema na cabeceira da mesa e a luz do banheiro acesa na madrgada porque você não gostava de dormir no escuro, são memórias reais ou evocações da minha imaginação.



Tem gente que escreve porque quer descobrir o fim. Eu te escrevo porque quero descobrir meu meio. Ou talvez encontrar as margens de um rio esquecido, mas que ainda abre córregos no meu espírito. Tem vezes que o amor abre fendas que não precisam ser fechadas. Elas convivem serenamente com nossas cicatrizes, nossas novas descobertas e o misterioso porvir.




Portanto meu querido e inesquecível F, enquanto penso em você, sigo compondo esse enredo das horas com alegria, um pouco de devaneio e alguns cristais de melancolia no canto dos olhos porque não guardo vocações eternas - e nem acredito - na supremacia da felicidade. Sublime é viver e não precisar esquecer.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O silêncio de Juliana







- A Juliana está?



- Não. Não mora ninguém aqui com este nome viu? Desculpe. - Assim mesmo. A senhora atende ao telefone e, ao perceber que é engano, pede desculpas por não poder ajudar.
No dia seguinte, o telefone toca.


- A Juliana está? - A mesma voz com a fingida displicência de quem mantém esperanças de a própria Juliana atender.


- Não meu filho. Não mora nenhuma Juliana aqui, meu amor! - Fala, trocando o pedido de desculpas por um carinho inacreditável para qualquer pessoa que recebe insistentemente uma ligação do outro lado da linha.


A cena se repete por vários dias. Sempre a mesma voz masculina. Depois de alguns dias solitário, ele arrumou companhia na busca pela moça e passou a alternar com uma voz feminina, a infindável esperança de encontrar Juliana. A senhora continua simpática ao dizer que "não, nesta casa não mora nenhuma Juliana. Quem dera morasse, e eu acabasse com sua busca ageográfica".


Será que Juliana deu o número errado? Será que ele ouviu o número errado? Será que, ao pedir a amiga para ligar, ele não pensa driblar uma "mãe possessiva" que não quer que a filha tenha encontros amorosos? Será que, de tanto ligar para o número daquela casa, Juliana não se materializará e, qualquer dia em qualquer hora dessas, ele não ouvirá a sua voz do outro lado da linha? Talvez ele nunca mais veja Juliana. Talvez tenha sido só uma confusão imaginativa do desejo profundo que nasceu dentro do peito de reencontrar uma moça que só mora por trás dos muros dos seus sonhos.


Bernardo. É preciso dar um nome ao rapaz que insiste em encontrar Juliana. Aquela moça gentil que fixou-se nos seus quereres como flor nove horas que brota no canto da calçada. Bernardo sente saudades. Toma sopa de feijão à noite e espera o dia seguinte chegar até discar de novo aquele número e ouvir a voz da doce e paciente senhora que nega como quem promete algo melhor. Que não dá palpites contrários à sua vontade e ouve a pergunta como se fora a primeira vez, como fazem os gatos cheirando e observando os mesmos cantos do jardim. Bernardo quer dar uma rosa para Juliana. Quer tornar-se o homem romântico como não se aprende nas novelas. Quer até aprender a fazer versos de amor. Bernardo quer um retrato de Juliana e seus olhos de santaputa. Quem sabe, olhando para aqueles olhos, não se contentaria com tanto silêncio de Juliana.



quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pausa na letargia




Meses e meses esperando a letargia passar. Aguardando placidamente o barco das boas novas arribar às margens da minha face perdida, meu coração em flor, a alma mole em revés ao corpo de pedra. O paraíso e inferno no silêncio dos meus dedos. Mas ela ainda não foi embora. Habita meus membros e insiste no amarelo de sentimentos arranhados.


Nessa brecha em que me escondo, antes dos dedos retornarem a me falar coisas e sonhos que possa compartilhar, um passarinho morreu na minha mão. A perplexidade de sua morte, o corpo pequeno e inerte ainda quente, fez meu tato pulsar. Nenhuma tentativa era possível. Só o guardei na caverna das minhas mãos para ter um pouco mais de tempo para lamentar a fatalidade e selvageria dos dias. Lembrei daquela outra história do passarinho morto e o milagre do palestino. Mas era sábado e talvez fosse sua hora de descanso. O passarinho foi um presente que eu não desejei ganhar. Há presentes com essa natureza.


Ontem sonhei com emissários. Eles trazem girassois, pergaminhos e bem-te-vis. Talvez um pouco de esperança porque não me acordaram bruscamente do sono. Sonho também com longas cartas, parentes distantes e um homem sem rosto, ao mesmo tempo tão familiar e acolhedor. Decerto seja um barqueiro, que trará o azul e a brancura de volta.


O que eu poderia dizer? Se não há espaços para mentiras, também não há espaço para o clandestino e o supérfluo. Mergulho nas minhas águas profundas, revolvo a terra que decanta os dias, o trabalho, as outras pessoas, os sentimentos, os rumores, as palavras e também a escuridão.


O manancial a que me entrego é libertador.


Mafalda...



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Músicas que não saem da cabeça









Magamalabares


Acqua Marã

Um barquinho oxaiê
Quem esteve aqui

Viu barquinho de gazeta

Ancorar no mistério
Notas musicais

Dentre bolas de sabão

que de nossas serenatas vieram




Nascente



Clareia manhã

O sol vai esconder a clara estrela

Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos

A luz do dia a contemplar teu corpo

Sedento, louco de prazer e desejos

Ardentes






Clara e Ana


Um coração

De mel, de melão

De sim e de não

É feito um bichinho
No Sol de manhã

Novelo de lã

No ventre da mãe

Bate um coração
De Clara, Ana

E quem mais chegar

Água, terra, fogo e ar