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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Revista Preá # 24 será lançada hoje, na FJA, a partir das 19h








* Além das Sombras

Regina, 68. Maria, 67. Conceição, 60. Três irmãs e uma história de vida desenhada nas sombras – da privação, da dor, do sofrimento. Cegas de nascença, desde pequenas levadas pelo pai, Manoel de Souza, cidade acima, cidade abaixo, cruzando os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco e Alagoas, para cantar nas feiras e conseguir as esmolas que garantiriam o sustento de toda a família, formada por mais três irmãos, que não nasceram sob a condição de não reconhecer a própria sombra.

Regina, 68. Maria, 67. Conceição, 60. Três irmãs e uma história de vida desenhada nas sombras – da sinceridade, da ingenuidade, da alegria. Já nos primeiros segundos de contato com essas três senhoras, a limitação física imposta pelas origens congênitas se descortina em um novo mundo, paradoxalmente iluminado – e mais próximo ao universo das crianças – e recriado por elas nos mais simples gestos. Recentemente elas estiveram em Natal, onde se apresentaram dentro do Programa Agosto da Alegria, na mostra Cultura Popular no Cinema, no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel.

“Maroca” (Maria), “Poroca” (Regina) e “Indaiá” (Conceição) tornaram-se conhecidas pelo Brasil, como “as ceguinhas de Campina Grande”, quando o diretor Roberto Berliner lançou em 2004 o documentário A pessoa é para o que nasce. O título vem de uma frase de Maroca – espécie de portavoz das irmãs, um pouco mais tímidas para falar – e que ela explica de outra maneira quando provocada: “Cada pessoa nasce com um destino. A gente não vê mas passa a mão”, diz, emendando com uma boa risada sem dentes, seguida pelas outras irmãs, num mimetismo de cumplicidade constante entre elas.

“A vida é boa”. “A pior vida do mundo é melhor do que morrer”. “É!”. As frases são ditas em cadência, praticamente ao mesmo tempo, primeiro por Poroca, depois por Maroca e por fim, Indaiá, concisa. São as respostas à pergunta se elas são felizes.

São. Apesar das sombras. Por conta das sombras. “Nosso pai era agricultor. Mas não plantava muito porque a gente vivia viajando pra cantar nas feiras. E ele não se aprumava nunca porque bebia muito. Nossa mãe [Maria Oliveira] era boa e não era. A gente já sofreu muito, Afe Maria, tinha muita gente ruim pelas feiras, botava papel e pedras na nossa bacia [o recipiente para recolher as esmolas], pisava na gente”, diz Maroca, novamente reiterada por Indaiá: “É!”.

A pessoa é para o que nasce inicialmente seria um curta de seis minutos, para uma série de TV chamada “Som da Rua”, feito em 1997. Berliner ficou tão impressionado com o que viu e ouviu que decidiu fazer o filme com elas, estreando como diretor de longa metragem. No documentário, as ceguinhas de Campina Grande cantam com Gilberto Gil, num Festival de Música em Salvador – Poroca: “O povo diz que ele é um dos maiores cantores do Brasil e que ele sabe das coisas.” Naquele período, os convites para festivais e programas de TV lhes rendeu cerca de R$ 40 mil. Com esse dinheiro, a moça que as acompanhava e que aparece no filme, Valneide, comprou uma casa para o filho dela. Regina, Maria e Conceição vivem até hoje de aluguel e moram na casa da única filha de Maria, que se chama Maria Dalva, no bairro Jardim Paulistano, em Campina Grande (PB). “Hem Heim... a Justiça que eu quero é a de Deus. Depois que a gente ganhou o dinheiro e ela comprou a casa para o filho, ela vivia aborrecida com a gente, sem paciência. Morreu de câncer de mama. E a gente também não tem como tomar a casa do menino dela, ele é de menor”, resigna-se Maroca.

Depois do filme, elas contam que passaram três meses “só andando”, tocando seus ganzás e cantando as emboladas de coco Brasil afora. Depois, os convites rarearam mais. E não negam a satisfação de sair de casa para se apresentar, quando convidadas. “Aqui foi bom demais. Tudo é bom. As pessoas são boas. O hotel era bom. Os cantos que a gente vai é melhor do que em casa, que tem muito barulho de menino”, diz Maroca.

Sempre unidas, as irmãs vez ou outra se procuram para trocar carinhos durante a entrevista. Estão novamente juntas há um ano, pois estiveram separadas nos últimos cinco anos, entre 2005 e 2010. Maroca foi morar com a filha, por conta de um acidente vascular cerebral. Quando relembram a separação, as três choram, sem reservas. “A gente não arenga não. Negócio de arengar presta não”, diz Indaiá, num raro momento de intervenção na conversa.Maroca foi a única que se casou das três: “O primeiro marido era muito ciumento, morreu de uma carne de porco que comeu. O segundo era bom, mas foi assassinado pelo meu irmão. Uma briga besta por conta de um sofá. Não tenho coragem de perdoar meu irmão. Eu amava demais o segundo.” Ele também era cego e foi assassinado pelas costas.

“Matar um cego é o mesmo que tirar a vida de uma criança”, sentencia Indaiá, continuando, mais desenvolta enquanto as outras ouvem atentamente: “Sou adulta, mas me acho uma criança.”

A mais velha, Poroca, é a única que vai sozinha ao banheiro. E Maroca diz que antes do AVC que lhe roubou alguns movimentos de perna e braço, lavava pratos e cuidava dos netos. Gostam de ouvir as novelas. “Uma novela boa é essa Cordel Encantado. Uma boa fofoca também é bom”, brinca Poroca, botando a mão na boca, numa autoreprimenda.

A conversa já está muito boa e todas se sentem à vontade. Maroca provoca a repórter a questionar Poroca sobre o que é “tetramizó”. E Indaiá se mete na conversa: “Você morre danada, e o tetramizó fica”. Poroca bota a mão na boca mais uma vez e desata a gargalhar. Unidas na escuridão, no ganzá e nas cantorias elas têm uma espécie de código para falar umas com as outras – conseguimos desvendar alguns: Vinte é “homem branco”; Treze é “carinho em mulher morena”; fun é “gente branca”, Zinho é “dinheiro” e Tetramizó é “bebida alcoólica”.Já está na hora de partir para Campina Grande. Antes, porém, Valquíria, a moça que agora toma conta delas, recomenda que todas devem ir ao banheiro. Cada uma tem de ser conduzida pela mão até o lugar. Indaiá é a primeira a entrar. Enquanto a repórter e Poroca ficam sozinhas no corredor, esta cochicha: “Eu gosto de um tetramizozinho [cerveja], mas só tomo dois copos. Porque elas não gostam que eu beba. Mas não tenho uma dor numa unha. Só tomo remédio para dor de cabeça, mas é muito difícil.”Na despedida, a repórter pede licença para dar um cheiro em cada uma. O consentimento e a retribuição vêm em forma de dois carinhos muito comuns entre elas: pegar na minha “caixa de fósforo” [orelha] e fazer o “treze” [aparar o meu queixo com a palma das mãos].

* Esse texto faz parte da publicação da Revista Preá # 24, que será lançada hoje na FJA, a partir das 19h, durante o projeto Privado é Público. A distribuição é gratuita. E, sim, o texto é meu. E a foto é do meu celular...)


3 comentários:

nivaldete ferreira disse...

mais que três mulheres, são três graças, amém.

ah, sim: estou volt(e)ando...

um beijo.

Débora Oliveira disse...

Muito bonita a história delas. Adorei o documen tário, um averdadeira obra de arte!
Aqui, como faço pra adquirir a revista?

Mme. S. disse...

Nivaldete, sê benvida a esse espaço que também é teu!

Doce Débora, você consegue a revista Preá lá na FJA. O ideal é procurar a direção mesmo, falar com Ana Neuma pois, ela é a responsável pela distribuição da revista. Mas, pode me procurar também que eu terei o maior prazer em te ajudar. Um cheiro, S.