Google+ Followers

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma epifania de Natal *




Nem me lembro quando começou esse sentimento penoso que me toma no período natalino. Talvez bem cedo, quando ainda era miúda e meus sonhos eram azuis. Moram nessas lembranças algumas imagens como um desenho animado feito para a televisão, do Maurício de Souza, que eu assistia. Sentia vontade de chorar, me envergonhava e disfarçava os pedacinhos cristalizados da minha tristeza deslizando pelo rosto, enquanto meus amiguinhos tinham outras preocupações na vida, como se ocupar com as coisas do infinito. E antes que alguém pense que eu fui uma criança depressiva – e estava longe disso - moram nessa confissão abismos que eu só vim escalar na vida adulta. Bem depois de descobrir que apontar estrelas no céu não dava verrugas nos dedos.

Continuo me entristecendo e nunca sei o que me espera na manhã do dia 25. Teve uma dessas manhãs em que Papai Noel pisou no chão de cimento queimado lá da minha infância e me deixou um presente debaixo da cama. Nem na minha mais doce imaginação poderia experimentar chocolates tão saborosos como aqueles. Dividi a caixa com toda família, inclusive com minha tia que, coincidentemente, deve ter vindo de carona no trenó do Papai Noel e nos visitava naquela época.



Dei uma trégua à melancolia natalina, mas certa de que ocorrera um mal-entendido, ou uma troca de cartas, já que meu pedido era, na verdade, uma bicicleta. Ela só chegou anos depois, de segunda mão, e com os pneus furados, quando meu pai ganhou numa rifa. As câmaras de ar nunca foram substituídas e a bicicleta envelheceu num canto do quintal. Só não envelheço as ocasiões em que posso correr e deixar o vento embaraçar meus cabelos, seja de bicicleta, de carona ou simplesmente vislumbrando a distância entre o possível e o esperado.



Dia desses, quando voltava para casa, no meio de um engarrafamento babélico que os natalenses estão se acostumando a viver, vi uma mulher e dois filhos no meio-fio da avenida movimentada. O pequeno se escondia num emaranhado de panos, aconchegado ao peito da mãe. O segundo, caminhava logo atrás dela, segurando o cajado e o peso do primogênito, mirando através das costas da mulher a responsabilidade de ser inteiro, enquanto catava pedaços que os outros desprezavam ao longo da rua. O menino me olhou de relance e, naquele momento, me ocorreu uma “sinapse”, ou quem sabe, uma epifania sobre o sentimento de Natal: de que outras pessoas têm muito mais motivos para estarem tristes.


* texto publicado na minha coluna semanal do Novo Jornal na terça, 20 de dezembro.


(essa foto não tem nada a ver com o texto, mas só aparentemente, porque minha tristeza intrínseca do Natal esse ano terá um motivo concreto. há uma semana meu Otto teve de partir. estava muito doente e foi inevitável a despedida. sinto muita saudade dele. enquanto estivemos juntos, aprendi bastante com ele. era doce, educado, cheio de dignidade muito resiliente. um animalzinho muito especial)



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Os 10 filmes que me fizeram chorar




Domingo desses aceitei o convite do Marcos Sá de Paula e fiz os 10+ da Coluna dele no Novo Jornal sobre os filmes que me fizeram chorar... Não sou cinéfila, nem crítica, muito menos quero a pecha de me tornar referência para qualquer tipo de lista. Mas, vá lá, os filmes que eu matutei e escolhi são bem legais e até valem algumas lagriminhas: Ei-los:

A Felicidade não se compra
(It's a Wonderful Life - 1946)
Direção: Frank Capra

É um belo “conto de Natal”, inclusive recomendo para essa época do ano. Nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos e a reverberação delas na vida de outras pessoas. É um filme que trata da dicotomia dificuldades e esperança. Atuação impecável de James Stewart, no papel do protagonista, George Bailey.

Amores Brutos
(Amores Perros - 2000)
Direção: Alejandro González-Iñárritu

Escolhi esse filme pela força da atuação dos atores e de momentos marcantes em algumas cenas que eu não recomendo para quem tem problemas cardíacos. São três histórias independentes que têm num acidente automobilístico o ponto de intersecção. Gael García Bernal faz um adolescente que se apaixona pela mulher do irmão e usa seu cão “Cofi” para conseguir fugir com ela. E Goya Toledo faz uma modelo voluntariosa que, de repente, vê seu mundo virado do avesso e precisa se reinventar.

Casa de Areira (2005)
Direção: Andrucha Waddington

É uma história sobre a força feminina. Os homens são meros coadjuvantes nessa saga de três gerações de mulheres interpretadas por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, que intercalam vários personagens e lutam para sobreviver numa terra árida e sem perspectivas. O mito da terra prometida se funde com o pesadelo dos sonhos frustrados. Saí do cinema num estado visível de perturbação pois o filme me levou à percepção de que apesar dos conflitos, das dificuldades e de desentendimentos entre as pessoas, principalmente em relações de parentesco, quando há amor, sempre é possível a reconciliação e o respeito sobre quem somos e de onde viemos.

Magnolia (1999)
Direção: Paul Thomas Anderson

Assisti Magnólia sem nenhuma referência anterior ou recomendação de amigos. É no estilo várias tramas que se entrelaçam, cujo fio condutor é um programa de televisão ao vivo chamado “O Que as Crianças Sabem". À medida em que a complexidade dos personagens vai se descortinando, algumas atitudes aparentemente sem sentido vão se justificando. Para mim é a melhor atuação de Tom Cruise. E Philip Seymour Hoffman dá um show como sempre. Mas, o motivo que me fez chorar, foi bem específico: a grande metáfora do filme, que vem através de uma chuva absurda e inusitada. E eu não vou revelar que chuva é essa. Tem de assistir ao filme.

Encantadora de Baleias
(Whale Rider - 2003)
Direção: Niki Caro

Um filme sobre o esforço de ser quem é e encarar o peso dessa responsabilidade com muita determinação. A história fala da perda de tradição e das crenças da tribo Maori, do leste da Nova Zelândia, que acredita que seu ascendente e líder espiritual, “Paikea”, era domador de baleias. Só que o único e possível líder quebra a tradição porque é uma menina. Portanto, “Pai” (Keisha Castle-Hughes) tem que provar para seu avô – e para os demais - que é tão capaz quanto os líderes anteriores. Um filme que retrata também muita perseverança. A diretora trabalhou com nativos e descendentes da própria tribo e a garotinha protagonista é tão danada que foi, merecidamente, indicada ao Oscar de melhor atriz.

Mar Adentro (2004)

Direção: Alejandro Amenábar

Na minha opinião, uma grande atuação do espanhol Javier Bardem, fazendo Ramón Sampedro, um homem que luta pelo direito de decidir os rumos de sua vida, após sofrer um trágico acidente e ficar tetraplégico, preso a uma cama por 28 anos, dependendo dos outros. Extremamente inteligente, ele luta na Justiça, com argumentos lúcidos e profundos, pelo direito de não mais viver. Minha leitura é de que é uma película sobre respeito.

Meninos não choram
(Boys Don't Cry - 1999)

Direção: Kimberly Peirce

Se engana quem acha que a atriz Hillary Swank foi sucesso de crítica e ganhadora de prêmios somente pelo filme “Menina de Ouro”, dirigido por Clint Eastwood. Nesse filme, Swank faz uma homossexual que se transforma de Teena Brandon para Brandon Teena e se esforça para construir uma identidade masculina, numa cidade do interior do EUA, cheia de preconceito. E se alguém pensar que o preconceito e a intolerância à orientação sexual dos outros vai levar a uma violência de tirar o fôlego, acertou.

O homem elefante
(The Elephant Man - 1980)

Direção: David Lynch

Só o olhar do ator Anthony Hopkins em determinada cena desse filme já merece cântaros de lágrimas. Mas a história de John Merrick (interpretado por John Hurt) é daqueles momentos em que a gente percebe o quanto o ser humano pode ser cruel e asqueroso. Merrick nasceu com cerca de 90% do corpo comprometido por neurofibromatose. Por isso, é criado como um bicho, denominado o “homem elefante” e exibido em circos como se fora um monstro ou uma aberração, na Inglaterra Vitoriana. É como se a doença deformadora desse jovem inglês legitimasse as maiores atrocidades cometidas contra ele. Por outro lado, o rapaz que não conseguia mirar a própria face, vítima de tantos maustratos, é um ser humano grato, sensível e inteligente. Nesse filme, a gente pensa que a maior doença está nos olhos de quem vê.

O Palhaço Direção: Selton Mello

O palhaço Benjamim (Selton Mello) é triste e cansado. Filho do dono do Circo Esperança (interpretado por Paulo José), ele vive um conflito sobre quem é e o que quer fazer da vida. A película é repleta de simbologias, mas é preciso estar atento. O roteiro é leve e dá para adulto e criança se divertir. Mas, quem foi ao cinema e saiu com a cara amassada como eu, é porque de certa maneira se identifica com alguns conflitos e escolhas tratadas na trama. É um filme também muito nostálgico para mim, porque me lembrou os velhos circos que passavam pela minha cidade, quando eu era criança.


Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera...

(Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom, 2003)

Direção: Ki-duk Kim

Já assisti algumas vezes esse filme e sempre há um elemento novo a ser notado. Conta a relação entre um mestre que vive em um templo flutuante, no meio de um lago, e um jovem aprendiz, criado por ele desde a tenra infância. As estações do ano simbolizam também as estações na vida do pupilo. Quando ele se torna jovem surge uma vontade urgente de viver o “verão” dos seus dias e sentimentos como paixão, ciúme e ira vão aparecendo e levando-os a caminhos distantes daqueles ensinados pelo mestre. É um filme sobre honra e a secular lei do retorno.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um livro que atravessa histórias



Coletânea com vários nomes compõe o livro “Travessa da Alfândega” que será lançado sábado que vem.


Como um bom pescador que se põe entre a atenção e a paciência, o editor José Correia Torres Neto, lança no próximo sábado, 17 de dezembro, a coletânea de crônicas, Travessa da Alfândega (Caravela Selo Cultural), no Nalva Melo Café Salão, a partir das 20h. Nesse título ele conseguiu arregimentar textos dos mais diversos nomes de artistas, escritores, poetas, pessoas ligadas a cinema, pesquisas, arquitetura, produção cultural e jornalistas da cidade, tais como: Adriano de Sousa, Alexis Peixoto, Alex Nascimento, Ana Cristina Tinoco, Eliade Pimentel, Franklin Jorge, Lívio Oliveira, Michelle Ferret, Petit das Virgens, Rostand Medeiros, dentre muitos outros. O lançamento vai contar com show do Catita Choro & Gafieira.


Segundo apresentação do livro, Travessa da Alfândega apresenta ao leitor textos distintos entre si, mas que guardam em sua essência, reflexões sensíveis que transitam na literatura, na crítica e na experiência artística e profissional de cada um dos convidados. “Para compor o livro, foram convidadas pessoas de diversos segmentos: escritores, artistas plásticos, jornalistas, fotógrafos, cordelistas, arquitetos, produtores culturais, cineastas e intelectuais. Cada um utilizou de sua liberdade artística para compor uma crônica – ou algo além – que demonstrasse o que lhe sensibiliza, apraz ou até mesmo aquilo que pode deixar um amargor diferente no paladar”, explica o organizador.


A escolha do título do livro guarda certas particularidades que valem ser expressadas. Talvez muita gente não saiba que “Travessa da Alfândega” foi o nome de uma das mais movimentadas e famosas ruas da Ribeira, a “Rua Chile”. Nos idos de 1888 que a Câmara Municipal de Natal publicou resolução que dava novas denominações às ruas da velha Ribeira e, de acordo com o pesquisador Itamar Souza (Nova História de Natal – 2008) a Rua da Alfândega, passara a ser chamada de Travessa da Alfândega. E, em 1902, uma nova resolução dava a denominação preservada até os tempos atuais. “Afeição exagerada ou resgate memorialista” são algumas das razões explicadas por José Correia que o levaram à escolha desse nome. “E todas essas pessoas (os colaboradores) são pedras, são trilhos, são portas e janelas arqueadas como se compusessem a rua de todas as moradas”, arrisca.


Sendo assim, Travessa da Alfândega é mais uma tentativa de dar voz, corpo e sentido às palavras. Aquelas que habitam o universo de quem lê e de quem escreve. Passando pelo meio, atravessando, como o próprio nome sugere, um dos gêneros “mais brasileiros” de que se tem notícia – a crônica – cujo surgimento, alguns arriscam dizer que foi no século XIX, nas páginas dos jornais. E que chega no século XXI com frescor ou fúria de um gênero que cada vez mais se firma e galga as escadarias da literatura.



Travessa da Alfândega - Lançamento
Dia: 17/12
Hora: 20h
Local: Nalva Melo Café Salão, Ribeira
Preço: R$ 30,00