Google+ Followers

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Esse cara (não) sou eu *



Eu acho que o Rei de todos os tempos da música popular brasileira não anda bem da cachola. Prova disso é a mais recente faixa de sucesso que está bombando em todas as paradas "Esse cara sou eu". Tudo bem que ele é um romântico "incurável", capaz de fazer suspirar todas as mulheres, das magras às gordinhas, das amadas amantes às mulheres de caminhoneiros. Porém, convenhamos, se ele fosse se inspirar na rapaziada solteira que habita Natal, ele estava ferrado! Vamos a alguns trechos da propalada canção: "O cara que pensa em você toda hora/ Que conta os segundos se você demora/ Que está todo o tempo querendo te ver/ Porque já não sabe ficar sem você/ O cara que sempre te espera sorrindo/ Que abre a porta do carro quando você vem vindo/ Esse cara sou eu”.

A mulherada sabe do que estou falando. Em se tratando do tratamento usual masculino de boa parte dos “cuecas”, a letra é praticamente surreal. Nesse quesito a mulherada tem se guiado por parâmetros cada vez mais desanimadores. Não raro, o mancebo que você está paquerando troca a conversa, sem o menor pudor ou disfarce, para olhar para a bunda de outra menina que passa. E, eu sei que as mulheres estão cada vez mais emancipadas, donas dos seus narizes e de todas as outras partes do corpo, mas pelas caridades, se fazer de doido na hora de dividir a conta e ficar com a menor parte do pagamento é vergonhoso. Avareza não combina com paquera.

Pelas minhas andanças em Brasília esse ano, senti o gostinho de um bom tratamento. Acompanhava meu chefe, numa sala apinhada de gente, muitos políticos e jornalistas e fotógrafos juntos. Minha caneta caiu ao chão. Três rapazes se dispuseram a dar cabeçadas um no outro só para o simples gesto de me poupar me abaixar. Quando um deles percebeu que estava sentado e eu de pé, fez a mais absoluta questão que eu ocupasse a cadeira. Trivial né? Cena rara de se ver por essas bandas. Quase canto para ele: “não faz assim que posso até me apaixonar”.

Comum também eles agirem como se estivessem praticando um favor ou o que é pior uma caridade quando te chamam para sair. Em Natal, eles quase andam com uma placa informativa do IBGE com a pesquisa de que há mais mulheres no Estado e, portanto, temos de levantar as mãos para os céus caso algum deles esteja nos dando atenção. Uma pena. Com esse comportamento perdem completamente a noção de esforço, de escolha  e do mínimo de gentileza e respeito. Tratar bem as pessoas faz parte do processo natural da evolução. Do jeito que a coisa anda e depois da música do Rei, é bem possível que a gente comece a trocar o tratamento infame pelos postes da cidade.

* Texto publicado no Novo Jornal -





domingo, 23 de dezembro de 2012

Carta para F.




Hoje acordei com uma vontade de estar com você. Daquelas vontades que quase se materializam quando você repara que está falando em pensamentos, o tempo todo, com o outro. Acordei, fiz as coisas que tinha de fazer com um elaborado zelo, como se você estivesse me observando o tempo inteiro e, em sendo isso possível, era necessário que do pequeno toque dos meus dedos na superfície das coisas até o remover de terra dos meus pés na areia, tudo tivesse um lindo e novo significado.

Eu sei, meu querido, que conseguir enxergar a alma dos outros, às vezes, é um defeito. Quase uma deformação. Lembra quando nos deparamos com aquela situação e eu comentei algo contigo, como se estivesse triste, chocada, ou quem sabe os dois? E da estranha nostalgia e complexo de solidariedade que sinto quando constato que o amor entre duas pessoas acabou? E você achou melhor não dizer nada e eu, na minha deformação, concluí que para alguma coisa nascer, às vezes é necessário que outra morra. Você lembra?

Eu acho que estava falando de mim mesma. Eu acho que estou falando o tempo inteiro dessa partitura que me compõe. Desse encontro de vozes e ferramentas que às vezes ecoam tão alto em mim que me são capazes de emudecer a fala e fazer meu coração estremecer e só me resta abaixar um pouco a cabeça assim de lado e semicerrar os olhos. "Tremo de medo e de admiração pela vida". Essa frase é atribuída à Clarice Lispector. Se ela assim a fez foi para todos nós, não acha?

Eu estou lhe fazendo perguntas agora, porque não queria te assustar com o encardido das minhas dúvidas, dos meus anseios, dos meus sonhos e dos meus desejos pela vida. Mas, antes que você as responda, ou pense que não sabe como fazer, queria que soubesse que eu tenho certa admiração pela vulnerabilidade, pelos erros, pelas verdades ditas por entre os cílios de quem está quase dormindo. Queria que soubesse também que eu não tenho medo do seu medo. Eu não tenho medo do passado de ninguém, nem temo o futuro. Eu sempre continuo, eu sempre sobrevivo, eu sempre estarei comigo e para mim. Sem nunca me esquecer que é melhor mesmo estar junto, compartilhar, extrair e doar. Hoje eu simplesmente acordei, como todos os outros dias da minha vida. Mas era diferente. Eu despertei.


Foo Fighters - Walking After You



Antiguinho e retrô. Sabe aqueles clipes que vezencuando habitam sua mente?
Apois!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Verbo achar




Às vezes a compreensão vem depois. Durante o durante pode ser tudo meio confuso, estranho, perturbador, surpreendente, cheio, vazio, duplo, solitário. Busco uma canção e ela ainda não foi feita. Cato um poema nas prateleiras do meu passado e ele já está dedicado a alguém. Invisto meus olhos na escuridão da espera e consigo divisar o brilho do achado. Achar é uma coisa que vem de sorte. Achar é melhor que procurar. Achar é estender a mão para o inesperado e não desperdiçar um grão sequer. Achar é quase como quando nos deparamos com o amanhecer ou o entardecer. É sempre único e intransferível. Nunca o mesmo homem, a mesma mulher, nem o mesmo rio.

Aprendo sem apreender. Quero sem precisar ter. Tenho sem precisar pedir. Ouço, vejo, cheiro, sinto, toco essas coisas todas que não são científicas. E às vezes nem são. Eu me entrego sem me perder. E se me perco, é porque havia de ser: uma coisa assim, de se achar pelo avesso.

Meu coração também é um samba-canção



Benzadeus! Como ela era firulenta! Mas como ela era boa!

Meu coração está em samba




As Rosas Não Falam
Composição: Cartola

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Abstrações

Monet



Eu não sei bem o que está acontecendo comigo. Às vezes, me sinto como se fosse um balão em pleno ar, noutras horas tenho os poros como se fossem raízes fincadas ao chão. Tudo e todos podem me atingir como uma lança aguda e, ao mesmo tempo, me são indiferentes.

vou dar alguns exemplos prosaicos: o cheiro de jasmim me eleva. Tem uma árvore também que às vezes zomba com as memórias da infância e penso que é jasmim, mas se trata de nin. Uma planta que se chama "nin", ou algo assim (essa rima está me deixando nervosa), só pode ser uma  planta muito generosa. Ontem à noite, uma garotinha que brincava no pátio, carregando sua boneca, num carrinho de bonecas, me olhou e disse: "Oi de novo!". É que a gente já tinha se falado oi antes. E "Oi de novo" é algo que sela os tantos encontros que ainda teremos pelo pátio, sela o nosso olhar e a obrigação que temos com a simpatia que nasceu no nosso primeiro oi. Tenho ouvido uma única música o tempo inteiro! E, quando desligo o dispositivo sonoro, ela continua solfejando na minha cabeça. E não estou irritada ou cansada dessa música. Estamos nos fixando uma na outra. A música tem dessas coisas definitivas com a gente. Tem frases que nós falamos que imediatamente nos rementem a uma música, já perceberam? Eu vivo fazendo isso. "Como vai você"?, num simples encontro no meio da rua e já me vem a frase "Eu preciso saber da sua vida".

Também sinto vontade de sorrir. Daí, para não parecer uma boba sorrindo ao vento, eu penso em coisas engraçadas, em coisas bonitas, em piadas, em conversas anteriores com os amigos, e continuo a sorrir, tendo a exata justificativa para, afinal de contas, sorrir à toa, sorrir ao vento.

E tem horas que eu choro. Chorei porque estão falando muito no Luís Gonzaga e porque eu nasci ouvindo e cantando suas músicas. E lá de onde eu vim tinha uns forrós pé-de-serra que meus pais me levavam no São João, onde se ouvia a sanfona o zabumba e o triângulo, e porque eu penso em tudo isso e sinto saudades da poeira da minha infância e eu sinto saudades daquela sonoridade do chiado da chinela no salão de cimento queimado e sinto saudades daquilo tudo que há em mim.

Uma mulher com voz de velhinha falava hoje incessantemente sobre seu papagaio. Ela também tinha calopsitas. Várias. Tive vontade de me virar para ela e dizer, "mas passarinho não pode ficar preso em gaiola, minha senhora!". Mas, não tive coragem. E fiquei quieta, botei para funcionar dentro da cachola a música que estou ouvindo o tempo inteiro - agora mesmo, ela está aqui - e abstraí.

Escolho meus amigos não pela pele - Oscar Wilde



Sobre amizade. Num momento em que penso sobre os que ficarão para sempre...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vestido de Mulher (originalmente escrito para o Novo Jornal)




Já vi por aí alguns homens que ultrapassaram a barreira da camisa polo ou de botão e se arriscam num decote "V", sem com isso, colocar sua masculinidade em prova. Vi também homens que encaram com naturalidade e até mesmo bastante desenvoltura um velho recinto antes comandando só por nós mulheres: a cozinha. Já cheguei a trocar até mesmo algumas receitas com alguns deles e todas ficaram boas. Falando em trocar, os pais de hoje não são como os de antanho. Mais leves, se arriscam a sorrir, conversar, brincar, participar e até mesmo trocar as fraldas dos filhos. Se são de uma geração mais para meados do século passado, estão exercitando essas práticas agora com seus netos. Afinal, a máxima não basta ser pai, tem que participar, parece que foi absorvida de vez pelos cuecas.

Tem acontecido um outro fenômeno entre os homens: quando dói, quando o filme é emocionante, quando a separação é inevitável, quando morre alguém que se amava tanto, quando o filho vai fazer intercâmbio, quando o time vence o campeonato, quando o cateterismo não é opção e sim condição para seguir em frente, são vivências nas quais alguns homens já se permitem chorar. E, cá para nós, homem chorando é bonito. Dá vontade de chorar junto. Tão bonito quanto homem dormindo. Aquele jeito desprotegido, humano, desarmado, quase inocente.

Mesmo que de uma maneira alegórica, os homens têm se vestido cada vez mais de mulher. E não estou falando das fantasias de carnaval, quando eles soltam a franga e pegam emprestado o vestido de suas companheiras e saem cometendo histrionices, numa tentativa caricata de atingir nosso rico e complexo universo feminino.  Sem a desculpa do carnaval, o vestido é a própria pele. Aos poucos, alguns têm se apercebido de que sentimentos, medos, dúvidas, apreensões, emoções e alumbramentos não são matérias exclusivas de quem produz luteína. Homem também é gente.

E é ai onde reside um paradoxo para nós mulheres. Algumas ainda resistem a esse novo modelo de homem que chora e que não segue o script dos cowboys empoeirados, dos velhos filmes de Western. (Até Clint Eastwood já chorou por ai em alguns de seus filmes). Portanto, se o cara não cair logo matando e se não for tão óbvio nas investidas, não vá jogando rótulos de que ele é gay ou pior, que você é desinteressante. Dê uma segunda chance. Tome a iniciativa. Convide-o para um café, um cinema. Ofereça-o um pouco dos seus receios e das suas dúvidas, sem as cobranças usuais. Use seu melhor vestido: aquele mesmo que eles têm pedido emprestado da gente para encarar essa ciranda louca e maravilhosa que é a vida. E, se mesmo assim, ele não ligar de volta é porque não tinha de ser. Nem sempre são perfeitas as medidas das roupas.





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Se a moda pega (artigo do Novo Jornal)



São “retardados” ou “idiotas” as pessoas que, nos sábados à tarde, preferem assistir ao desenho animado do Pica-Pau exibido na TV Record, ao programa TV Xuxa, da rede Globo, encabeçado pela eterna adolescente, enXuta, Xuxa Meneghel, que há anos engorda seus bolsos vendendo fantasias de consumo na forma de CD´s, diversos produtos que vão de roupas a comida e, mais recentemente, DVD´s infantis que ajudam a “distrair” a criançada. A pecha de retardados e idiotas aos telespectadores rebeldes que se recusam a assistir a “Rainha dos Baixinhos” foi dada pelo diretor do seu programa, Mário Meirelles, no twitter; provavelmente motivado pelos baixos índices de audiência que a loira tem atraído para seu programa, em detrimento ao concorrente.

Como sempre, após declarações bombásticas e que ganham a atenção dos internautas, gerando grande repercussão no ambiente dos 140 caracteres, o diretor resolveu pedir desculpas, mas a emenda saiu pior que o soneto. Ele argumentou que o programa da Xuxa incentivava a cultura. Pois bem, fiquei escarafunchando meus botões e, relembrei que desde a época em que assistia ao “Xou da Xuxa”, até os tempos atuais, meus ganhos culturais com a Xuxa foram sonhar em ser Paquita; desejar ter uma bota branca; usar roupas com aqueles enchimentos ridículos nos ombros, que me faziam parecer ter os ombros do He-Man; falar “o cara lá de cima”, ao invés de Deus, Javé ou o Todo Poderoso e ouvir desmesuradamente canções como “Turma da Xuxa ahhhh!” e “Meu cãozinho Xuxo”. De lá para cá, penso que os legados culturais da Rainha dos Baixinhos para as próximas gerações que foram embaladas pelos seus programas de auditório, não fugiram muito às regras das que eu vivenciei. É verdade que fui mais fã do desenho “Caverna do Dragão”, exibido na Xuxa, do que o desenho do Pica-Pau, criado nos EUA, nos anos 1940 do século passado. Mas, sem dúvida, este segundo preserva um certo cinismo, no sentido filosófico da palavra, muito mais inteligente e interessante para qualquer geração.

Já pensou se a moda pega? E todo mundo resolve dizer que o que é exibido na TV ou circula pela simpatia do senso comum é cultura? Será que alguns de nós saudosos e órfãos, por exemplo, dos grandes festivais musicais, ou telespectadores de programas como o “Entrelivros”, “De lá para cá” e “Café Filosófico”, vamos ter que nos contentar com as contribuições culturais de programas como os que  exibem os preparativos e aquecem os fãs do Carnatal? Medo! 

Todo mundo tem direito a entretenimento e a, inclusive, escolher o que melhor lhe aprouver. Mas, não confundamos entretenimento, lavagem cerebral, ode ao consumo, incentivo exacerbado ao uso do álcool e assassinato aos tímpanos com um conceito tão amplo e complexo quanto é o de cultura.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Faço a minha parte (artigo hoje do Novo Jornal)



Se tem uma coisa de que eu gosto muito de dar e receber, são os cumprimentos básicos da boa convivência e educação: "bom dia!", "boa tarde", "boa noite". Penso que são as chaves mais preciosas para abrir portas e até mesmo almas desatentas. Muitas vezes, um simples bom dia pode ser o início de uma boa conversa com um estranho. É algo tão forte em mim que, se por alguma desatenção, deixo de cumprimentar alguém, sinto como se tivesse cometido falha grave e me envergonho. Tenho vontade de voltar no tempo e recomeçar. 

É por isso que fico encafifada quando encontro alguém nos corredores ou na área comum do meu prédio, e a pessoa passa por mim e não retribui o cumprimento. É bem mais fácil seguir adiante quando é alguém que você imagina que não vai ver nunca mais. Teve uma vez que encontrei o que me parecia a chance ideal para reverter um desses quadros de silêncio e, digamos, "timidez" do que deveria ser meu interlocutor. Estava no jardim quando percebi que o homem de meia idade havia deixado ligadas as luzes do carro. Não sou expert no assunto, mas sei que isso pode afetar a bateria do carro. Aproveitei a deixa e interfonei para o apartamento. Os dois toques que antecederam o "alô" me pareciam escadas para o início de um feliz reencontro com aquele vizinho silencioso e inerte. "Boa noite", disse eu. Mudez do outro lado. Mas não me dei por vencida. "Desculpe incomodar, mas é que passei pelo jardim e vi que as luzes do seu carro estavam acesas. Então achei melhor avisar". Espero alguma resposta e ela vem acética: "Tá, eu vou verificar". E antes que eu pudesse vislumbrar um singelo - mas não menos importante - "muito obrigado", o sujeito desliga o interfone na minha cara.

Nessas horas sinto uma inveja danada do desapego das crianças bem pequenas. Elas ainda não estão acostumadas ou treinadas o suficiente para as mínimas etiquetas sociais, e me parecem bem mais livres e felizes que os adultos. Acho que elas prescindem disso porque têm uma linguagem corporal que vale por um milhão de cumprimentos. Elas detêm a linguagem do tato, do olhar e do sorriso. Coisa que, infelizmente, muitos de nós vamos perdendo com o tempo e em contato com a nossa humanidade.

Tenho certeza que meu problema em não receber um cumprimento básico de edu-cação, após uma tentativa infrutífera, é infinitamente menor que o problema daquele que não consegue sequer cumprimentar um vizinho. Quem me falava muito isso era o fotógrafo Marco Polo, que trabalhou muitos anos comigo no Diário de Natal. Ele dizia, “Sheylinha, se você cumprimentar alguém e ela não responder, o problema é dela! Só continue fazendo a sua parte”. Sigo tentando, amigo. Sigo tentando.


domingo, 25 de novembro de 2012

Diário de uma viajante



Voltar para casa, às vezes, é o melhor da viagem.

sábado, 17 de novembro de 2012

Adivinhações na ponta dos dedos





Durante a madrugada parei para observar uma lágrima solitária que foi se formando do canto do olho esquerdo, deslizou lavando todo o globo, espalhando o sal naquele salão já tantas vezes molhado pelo tempo, até tomar a forma original no outro canto do olho. Pesada, foi despencando no vão entre o nariz e o outro olho e de novo fez o mesmo balé. Cada vez mais pesada e lenta. Era a lágrima mais solitária e triste que já produzi. Por um momento cheguei a pensar que fosse alguma dessas patologias vulgares de verão, pela ardência, pela densidade. Mas não. Era só tristeza condensada mesmo. Agradeci por liberar aquela tristeza silenciosa. Aquela lágrima discreta. Não gosto de chorar na frente dos outros. Salvo quando há um profundo laço de amizade. E, portanto, quando não há nenhum resquício de julgamento ou desejo de solução. A ninguém cabe o fardo de enxugar lágrimas alheias. Esse jogo é duro demais, injusto demais para qualquer pessoa. Meus sentimentos cabem hoje na palma da mão. Ontem pareciam ocupar um vão infinitamente maior. Mas só por hoje quero trafegar pelas linhas fundas e íngremes da minha mão. E qualquer tipo de adivinhação, só se for sobre meu passado.

Eu adivinho o meu passado. Primeiro a iluminação, ele veio na lembrança de uma salada de generosas porções de cenoura, tomates, abacate, cebola, algumas amêndoas, azeite de oliva e pão. Depois, os olhos azuis e quase translúcidos do meu gato, iluminaram outros pensamentos, de outros bichanos que já passaram pela minha vida e tinham a mesma contemplação e a mesma melancolia blazé do atual. Quando dei por mim, estava perdida em adivinhações do que já me ocorrera um dia. O que a maioria das pessoas não consegue entender é que a iluminação do passado só se dá quando ele já fez a curva do rio. Hoje eu recebi uma música que não consigo abrir no computador. Mas embora não consiga escuta-la, sei que ela vem carregada de adivinhações do meu passado. Principalmente pela sua dedicatória: “Felicidades y amor”. E pude rever que nos gestos daquele homem têm coisas que parecem que saíram de dentro de mim. Como se em algum momento, alguém tivesse lhe entregue um manual de instruções. Às vezes chego a duvidar e quero acreditar apenas em coincidências. Mas vem um novo gesto e pronto. Está ali a minha história. O traçado do meu corpo. O esboço da minha alma. Ora uma leitura simples e frugal; ora um compêndio metafísico. Senti isso pouquíssimas vezes, sensações que sequer cabem na mão inteira. As pontas dos dedos já bastam. 


sábado, 10 de novembro de 2012

Torre de Piche





Meu gato passa horas sentado em algum lugar ermo, numa escolha criteriosa de silêncio e solidão.

O tempo todo, a todo tempo, pessoas também fazem isso. Só não sei se com a mesma determinação dos gatos.

No trabalho. Na rua. No trânsito. No supermercado. No ônibus. Somos uma multidão de irmãos órfãos.

Tenho cá minhas dúvidas sobre se a solidão é uma escolha ou uma condição. Mas nunca gostei de resolver equações. Portanto, abstenho-me.

No máximo me permito vezencuando perguntar se há alguém do outro lado que possa dividir sua solidão com a minha.

Mas, geralmente, minha língua em repouso balbucia um dialeto incompreensível para quem prefere as janelas abertas e as cortinas balançando ao vento.

Sempre tive mais fascínio pelas sombras, que medo da descoberta de que o medo é só algo que já está dentro e que não sabemos lidar muito bem.

Hoje, um estilete cego desfia as folhas do caderno onde guardo as lembranças do meu dia. Por isso assim, me fragmento.

Sou peixe no aquário. Presa na torre de piche.

Bom para os gatos.

Contemplação




Escuto o tempo. E descubro que dentro do silêncio cabem coisas que não ocupam espaços:

a)      o abraço dos cílios na orla dos teus olhos;

b) que a pausa pode ser mais intensa que o aplauso;

c) que a beleza quase sempre pode ser fotografada pela memória. (Quando a beleza borra o papel, não foi digna dos instantes);

d) o meu um fica tão largado que, às vezes, me espalho em mil;

e) quando vejo o mar, seco as lágrimas e penduro a esperança na linha do horizonte.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Porque sou a favor das cotas sociais



Estudei a vida inteira em escola pública. A única passagem por uma escola privada foi na época do cursinho pré-universitário, mesmo assim com o auxílio de uma bolsa de estudos. Muitas vezes, ali diante dos colegas vindos de escolas particulares, minha autoestima ficava abalada e imaginava que poderia não conseguir. Porque, sem dúvida, as chances eram desiguais. Vestibular é um processo que culmina numa situação individual e insubstituível: é você com você mesmo diante da prova. E a parada é dura, quando se tem um histórico escolar dominado por tantas falhas educacionais.

Quando entrei na faculdade não existia o sistema de cotas sociais, recentemente sancionado pela presidente Dilma Roussef. E já que o processo de formação educacional tem dois pesos e duas medidas em se tratando dos sistemas público e privado no Brasil, sou totalmente favorável à tentativa de aumentar as chances do ingresso à faculdade aqueles que em sua vida escolar não tiveram o direito à educação plenamente garantido. Sempre digo e repito que os direitos fundamentais no nosso país são privilégios, nos quais a grande maioria fica de fora. O que gera uma distorção, já que as escolas públicas de ensino superior são subvencionadas pelos suados impostos pagos pelos trabalhadores brasileiros. Sobretudo aqueles que não tiveram a menor chance de sentar numa cadeira de uma universidade. E, por mérito, têm o direito de verem seus filhos trilhando um caminho de ascensão social, através da formação superior.  Afinal, filho de pobre, negro e índio, não precisa sonhar apenas em se tornar jogador de futebol, modelo fotográfico ou dançarina de funk para vencer na vida. Os sonhos não precisam ser delimitados pelas regras sociais da elite dominante que, sejamos francos, não está muito preocupada com a melhoria da educação das classes menos favorecidas.

As cotas sociais não tiram o direito à universidade pública de qualidade para aqueles que tiveram o privilégio de ter uma melhor educação básica no setor privado. Eles continuarão em vantagem. As cotas sociais abrem espaço para aqueles que não tiveram uma boa educação básica e, lógico, permanecem há séculos em desvantagem. Há quem diga que essa medida é aquecer a tampa, ao invés do fundo da panela. Pode ser. Mas, com resultados visivelmente positivos. Até porque o argumento de que um aluno menos preparado que o outro pode comprometer o resultado final do ensino superior cai por terra quando se vê exemplos como o da UnB, uma das pioneiras na adesão do sistema de cotas. A desigualdade educacional precisa ser corrigida para que possamos falar em igualdade de direitos e em princípios constitucionais.


Publicado hoje no Novo Jornal

segunda-feira, 29 de outubro de 2012




Enquanto os novaiorquinos esperam sandy chegar, sinto como se um furacão já tivesse passado por aqui. Como sempre, depois da tempestade, paira a calmaria lúgubre. Os escombros são internos. Às vezes as ideias revolvem os móveis e os sentimentos arrebentam as janelas. Um furacão chamado dúvida abraça todos os pilares que pareciam sustentar o teto das certezas. O dia tem tantas horas, mas às vezes o que importam são só aqueles segundos que precedem a chuva. O sono não chega carregado pelo descanso. O sono é mais uma luta travada entre o corpo e a mente, como se ambos não se entendessem. As pálpebras pesam, os olhos ardem, mas o coração permanece surdo aos apelos racionais da penumbra. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Début


Modigliani

Era quase duas horas de uma tarde quente de inverno sufocante. O restaurantezinho self-service estava lotado. Pessoas famintas, garotos, casais, pratos mornos. Muita salada sem maionese, 250 gramas para matar a fome. Pouca grana no bolso. Ela sentou sozinha na mesa do cantinho e pensou no quanto as pessoas ficavam solitárias, sobretudo no meio da multidão. A salada estava repleta de cebolas, enormes pedaços nem um pouco sutis, ao contrário do que dizia sua mãe: “tem de ser quase raladas, bem fininhas”. O prato já estava no fim, quando de repente, ouviu uma voz:
- Você gosta de cebolas?
- Heim?
- É que elas estão jogadas...
- Há, sim. É que elas não são sutis.
- Sei...
Ele, duas horas e vinte e cinco, ali parado na frente daquela mulher levemente inclinada à mesa, mostrando uma alça de seda azul do sutiã, com um prato bastante econômico, cheio de pedaços de cebola. Ela, parecia tão alva, tão doce e vagabunda. Frio na barriga, tensão nos músculos. Um desejo desses que nasce do improvável e desconhecido acaso. Logo estavam falando sobre cervejas, carne vermelha, branca, macrobiótica, aveia, sushi, saquê, gnomos, limão, horóscopo chinês, vinhos, 3ª casa em Vênus. Acenderam um cigarro na varanda do restaurante. Pediram café, a conta.
- Ai, estou atrasada!
- Bobagem – disse ele, tocando num fio de cabelo, desgarrado e desmaiado nos ombros. – Tira folga hoje!
- Queria um espelho.
- No retrovisou do meu carro.
A avenida principal sumia devagar pelos olhos da mulhercalçajeanspapolegaldorestaurante, que sentada no banco do carona ouvia um som do Caetano e parecia leve e pensativa.
- E eu nem sei o teu nome.
- Nem eu o seu.
Silêncio.
O Condomínio era tão pequeno burguês quanto o bairro. Quatro lances de escada. Braço de leve na cintura. Coração aos pulos. Cheiro de incenso e restos de ovos com bacon lá dentro. Sala: almofadas, quadros a nanquim e passpartour. Livros de Oscar Wilde.
- Senta! Fica à vontade. Volto já!
Barulho de quem entra no chuveiro, escovando os dentes, descarga talvez. Ela queria tirar os sapatos. Olhou em volta, queria fumar um. Perguntou. Ele não tinha. Não sentia medo ou curiosidade, apenas um desejo estranho e selvagem por aquele homem de dedos longos. Nem percebeu quando ele se aproximou. Costas largas, toalha amarrada na cintura, pingos d´água em cascata pelos cabelos negros. Ele a abraçou por trás e molhou sua camiseta. Olhos fechados, corpos quentes. Calor no meio das pernas. A língua dele entra macia dentro da outra boca. Toalha, camiseta, calcinha, jeans voam num balé de liberdade. Invasão molhada. Quase seis horas da tarde.
- Isadora.
Isadora tinha uma boca funda e macia, ainda havia nela um gosto sutil de cebolas.


Esse texto bobinho e adolescente foi escrito há mais de 15 anos, em janeiro de 1997. Lembro que o mostrei a Elis e ela rabiscou todo, apontando onde poderia melhorar. Dia desses estava pensando que o havia perdido. Mas, hoje, mexendo em velhos baús de memórias, onde guardo antigas cartas de amor, cartões de felicitações, souvenirs, iguarias vindas do Oriente e vários outros pedaços de mim, eis que o encontro, numa folhinha amarelada e quase partida ao meio. Em tempos de tanta introspecção literária e mergulho em textos alheios, publico essa pequena e boba relíquia para meus meia-dúzia de fiéis leitores. Fiz pequenas alterações, sobretudo em algumas repetições desnecessárias. Sim, e o título original era o horroroso: "Cebolas Sutis"...




terça-feira, 23 de outubro de 2012

Armadilhas sociais




Antigamente, a gente pegava uma cédula de dois mirréis (licença poética) e tinha lá uma frase qualquer. Fosse uma prece, uma mensagem de amor, um palavrão. Alguém que estivera com essa nota antes deixara seu recado, sua marca. Enquanto viva fosse aquela nota, viva estaria aquela mensagem. A frase era a garrafa imaginária solta ao mar, à espera que alguém a encontrasse e a decifrasse. Vivemos numa época em que não se escreve mais nas notas de dinheiro. Já existem muitos outros meios para fazê-lo. Escreve-se muito e a todo tempo. Fala-se muito e quase tudo é tão gratuito. 

Nos bares, restaurantes, nos carros, dentro de casa, na cama, no banheiro, qualquer lugar pode ser cenário para a superexposição. No mundo das redes sociais e dos compartilhamentos de fotografias - aqueles recortes de tempo e espaço que já foram objetos guardados em álbuns de papel - a ordem é divulgar, expor, entregar o ouro da intimidade, como níquel sem valia. Há uma sede de celebridade instantânea. Se eu não apareço, vão esquecer de mim. É o que pensa a imensa maioria.

Contraditoriamente, há uma solidão macabra na superexposição. Os ocupados demais em dar atenção ao celular e suas armadilhas sociais, poderiam refletir: enquanto fotografo a xícara de café e a torta alemã que dentro de instantes vão se liquefazer nas células do meu organismo, eu deixo de olhar no olho do meu interlocutor; eu escuto, mas não ouço; eu me jogo na rede que se alimenta, sobretudo dessa solidão coletiva e perco a chance de simplesmente conversar de verdade com alguém, de sorrir de uma piada boba, de dar valor aos instantes reais e que são irrevogáveis. Eu liquefaço as relações reais, para dar atenção àquilo que está disponivelmente distante e improvável.

Às vezes me ocorre que a grande rede, esse fenômeno que “aproxima” o mundo, que encurta distâncias físicas e culturais, que se diz democratizar as vozes e dá espaço equânime para as ideias e opiniões é também uma armadilha, nos colocando como peixes, isolados de seu próprio cardume. Sinto saudades do tempo em que os amigos sentiam saudades e ligavam para minha casa. Hoje em dia, são raras as pessoas que têm o telefone da casa da gente. As pessoas vivem dizendo que sentem saudades umas das outras na grande rede. Concentram suas forças em digitar letras de carinho, mas não ultrapassam as palavras para o gesto. Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “vou te ligar para a gente fazer qualquer coisa, qualquer dia desses”. Até as promessas agora são improváveis e nada palpáveis, como são as cédulas de dinheiro.

Publicado originalmente hoje no Novo Jornal

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Carta para um amigo





Não sei quando foi exatamente que as lembranças se tornaram tão palpáveis quanto um olhar intenso e terno que fecha o mundo, além da cerca dos nossos cílios. Só sei que agora elas me fazem companhia todas as horas do dia. Mesmo que nem sempre esteja olhando para elas, sinto que estão lá. Basta acionar um pequeno fio de sentimento, que o novelo se apresenta inteiro. Tanta coisa aconteceu de lá para cá e, de repente, fazer ou não sentido sobre todos esses anos que já se passaram não está no roteiro. Algumas coisas não morrem completamente. Se transformam. Viram até mesmo do avesso e, mesmo assim, mantém as cores vivas e pungentes.

Nem que se passassem mil anos, daria para não ser diferente. Eu jamais conseguiria arrancar de mim os arrepios da seda da tua pele na minha pele, a voz lunar preenchendo minhas dúvidas, algumas vezes pueris, outras fingidas, só para não quebrar aquele vínculo esteta sobre as possibilidades do mundo. Mas eu preciso te dizer que o que mais me alimenta de ti são teus silêncios. Como é bom deitar sobre eles e sorver essa união de coisas que não têm nome. Tantos anos se passaram e eu ainda sou aprendiz dos teus silêncios. 


terça-feira, 16 de outubro de 2012

O que me assusta *




Meu maior sonho de presente do Dia das Crianças era ganhar um daqueles bebês de cabeça de plástico e corpo de pano que fazia muito sucesso na época.  O sonho não se concretizou e eu sobrevivi. Na semana passada encarei a lotação assustadora das lojas em busca do presente para minha afilhada Bárbara, de seis anos. De lá para cá, os paradigmas mudaram muito. Se antes as bonecas estimulavam nas meninas o instinto maternal, até mesmo como uma forma de elaboração de sentimentos e emoções, hoje as bonecas e outros brinquedos estimulam, principalmente, o próprio consumo. Encontrei nas prateleiras vários exemplos. Um deles era um game que, dentre suas opções, apresentava uma que dizia: “Barbie vai ao shopping”. Desde quando o ato de comprar pode ser confundido com brincadeira?

Na esteira dessa preocupação caiu em minhas mãos o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, dirigido por Estela Renner. São 48 minutos de dados e depoimentos tanto de crianças, quanto de pais e especialistas que só referendaram o que eu senti no shopping: estão transformando nossas crianças em consumidores vorazes cada vez mais cedo. O fenômeno do ter está se tornando mais importante que a condição primária da infância que é, simplesmente, sair por ai brincando.

O documentário lembra que bastam apenas 30 segundos para uma marca influenciar os pequenos. E, quanto mais cedo a criança começa a consumir, mais rápido ela queima etapas, correndo um sério risco de passar pela infância sem vivê-la em plenitude. E o que é pior: os pais não estão conseguindo dizer não para esse consumo desenfreado. A psicanalista Ana Olmos explica que o filho ou filha só vão se desenvolver no contato com a realidade se ouvirem “não”. Para que possam lidar com a frustração e com os limites. Pessoas acostumadas a ter e fazer tudo o que querem na infância tendem a se transformar em narcisistas, que não reconhecem limites para satisfazerem seus caprichos e que vivem mais da aparência do que da verdadeira essência do ser.

Claro que nem os adultos nem as crianças poderão se tornar imunes à publicidade ou ao consumo. Isso já faz parte da nossa vida. Segundo o Doutor em Ciências da Comunicação da USP, Clovis de Barros Filho, também entrevistado no documentário, a publicidade promete mais do que a alegria da posse. Promete a alegria da inscrição e da existência na sociedade. A questão é que os adultos podem pensar sobre isso, podem se aperceber com marionetes nesse jogo do consumir, mas a criança não consegue. Ela só sente. E se ressente se não estiver inserida no grupo, se não tiver a boneca, a sandália, o celular, a maquiagem, e tantos outros itens que estão dizendo para ela que ela tem de ter. E isso é assustador.

* Texto originalmente escrito para minha coluna no Novo Jornal

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Inês Pedrosa faz palestra em Natal sobre Fernando Pessoa, bora?




A escritora e jornalista portuguesa, Inês Pedrosa, atual diretora da Casa Fernando Pessoa em Portugal fará uma palestra sobre a obra de Fernando Pessoa, na próxima quarta-feira, a partir das 19h, no Auditório 2 da Universidade Potiguar (UnP) da Floriano Peixoto, em Petrópolis. A entrada é gratuita, mas é necessária inscrição aqui. A palestra de Inês Pedrosa na UnP é uma parceria entre o curso de Letras daquela instituição e o Consulado de Portugal de Natal, dentro das atividades do Ano de Portugual no Brasil.

Desde que assumiu a direção da Casa Fernando Pessoa no início de 2008, Pedrosa já conseguiu quintuplicar as visitas ao local e dar a merecida visibilidade ao poeta maior de Portugal, além de fazer circular pelo Brasil a exposição "Os lugares de Pessoa", dentre outras atividades educativas envolvendo poesia, música e artes plásticas. A escritora também criou uma série de cadernos de atividades sobre Fernando Pessoa para o ensino básico, que estão sendo trabalhados nas escolas de Lisboa.

Atualmente com 50 anos, Inês Margarida Pereira Pedrosa é jornalista e escritora, nascida em Coimbra. Passeia por vários gêneros como ficção, poesia e ensaios e seu primeiro texto publicado foi na revista Crónica Feminina, quando ainda tinha 14 anos. A estreia como jornalista profissional foi em 1983, na Redação do O Jornal (atual revista Visão). Na carreira jornalística acumula funções no Jornal das Letras, Artes e Ideias, o jornal O Independente, a revista LER e o semanário Expresso. Também já dirigiu a revista Marie Claire em Portugal, de 1993 a 1996. Atualmente mantém uma coluna semanal no jornal Expresso, de onde foram retiradas algumas crônicas para compor o livro Crónica Feminina no ano de 2005.

A estreia como escritora - caminho que parecia inevitável para a jornalista - foi em 1991, com o livro infantil "Mais Ninguém Tem", uma deliciosa incursão no mundo da literatura infantil. No ano seguinte, publica o seu primeiro romance, intitulado "A Instrução dos Amantes". Com o livro "Nas tuas mãos", ganhou o Prêmio Máxima de Literatura, em 1997. A obra tem como personagens principais uma avó, mãe e filha, cujas vidas se entrelaçam com a própria história de Portugal nas últimas três décadas do século 20.

Agora, o livro considerado sua obra-prima até agora no Brasil e, provavelmente mais lido também, lançado em 2002, chama-se "Fazes-me Falta". É um romance escrito em forma epistolar e dotado de uma prosa poética. São dois personagens centrais, uma mulher já morta e seu amor, um homem mais velho.

Considerada uma das mais prestigiadas escritoras hoje em Portugal, também é uma militante das causas políticas, tendo sido porta-voz oficial da candidatura do poeta Manuel Alegre à Presidência da República, em 2006. Seus livros têm sido bem recebidos pela crítica e traduzidos em vários países, como Espanha, Alemanha, Brasil e França, é casada com o poeta  crítico literário Fernando Pinto do Amaral, com quem tem uma filha. 

(Li dela "Fazes-me Falta"... é um livro absurdamente bem escrito, num formato genuíno e com profundas reflexões sobre a vida e sobre o amor. Sou profundamente admiradora dessa jornalista e escritora. Sim e o texto divulgação é meu também, tá?)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Viver sem estacionar a vida





Quando estamos na casa dos 20, pensamos que temos todo o tempo do mundo. Acho a juventude uma fase linda da vida. É quando ainda existe aquele brilho no olhar sobre o desconhecido, o novo, o que ainda não se sabe. Mas passa, graças a Deus! A maturidade é muito melhor. Só não precisamos, com a chegada dela, apagar o brilho do espanto que a vida traz. Esgotar o tempo, muito ou pouco que nos resta, em rótulos, modelos, classificações e definições pode transformar a vida num grande tédio. Vi uma matéria dia desses que mostrava que Dona Canô, a mãe de Caetano e Maria Bethânia, fez 105 anos. Dava para ver que não era uma mulher entediada. Tampouco se coloca à parte ou de uma outra época.

Dá uma angústia quando ouço alguém dizer, "no meu tempo" ou "na minha época", como se estivesse apartado ou apagado da realidade que o cerca. O tempo e a época são agora. Na vida só temos duas opções: morrer ou envelhecer. E, acredito que a grande maioria quer a segunda. Num país onde a juventude é "vendida" como uma virtude e o envelhecimento é defeito, sinto que as pessoas mais velhas, parecem pedir desculpas pelas rugas e os fios de cabelo branco que emolduram sua experiência. Sobretudo as mulheres, porque além de tudo, somos um país machista. Encontrei uma senhora um dia desses na livraria e ela me disse que havia gostado do meu texto "Sou normal", publicado há duas semanas aqui. A empatia com ela foi imediata. Apresentava-se muito bem cuidada e, mesmo assim, era uma senhora que parecia ela mesma e não um mostruário ambulante de botox, ácido retinóico e cremes clareadores, que tornam indefiníveis as características da idade. Hoje em dia eu não sei mais distinguir quem tem 15, 30 ou 40. O tempo vivido de cada um, especialmente de nós mulheres, está diluído na angústia e no afã de mascarar as marcas num rosto que não tem idade ou personalidade. Como se a composição do tempo na pele - invariavelmente – fosse afastar a visibilidade dos outros e o nosso amor próprio.

Se alguém me olhar e reparar somente nas rugas que estão surgindo no canto dos meus olhos - sobretudo quando dou um sorriso largo e meio torto - e achar que por causa disso sou alguém fora dos padrões, então essa pessoa não precisa ocupar meu precioso tempo. Não tenho o poder de parar a ação das horas, mas posso escolher o desejo de viver muito, de envelhecer e não ter que pedir desculpas por isso. Mesmo que pague o preço de não me tornar uma supervelhinha que pode tudo e tem pique de uma pessoa de 25, porque isso também é uma ilusão. No fim das contas, a vida é curta e não temos todo o tempo do mundo. Então, que tenhamos e vivamos o tempo que for possível.

Publicado hoje no Novo Jornal

Inverno




Sentia como se uma pedra estivesse sufocando a fluidez das coisas do mundo dentro dela, ou talvez as coisas catadas do mundo que se pregam nas paredes de sua alma. Às vezes tinha a sensação de que nascera de uma nuvem e, portanto, era filha de paisagens. Fotografias, multidões, estradas, arbustos, coiotes, velhas cartas, xícaras de café e muitas lembranças: todos seus parentes. A fluidez pode ser igual à espessura de um sonho, assim como também de uma âncora fincada nas profundezas do ser. Era assim que a moça se sentia na correnteza dos dias. Era assim que era e ela nada podia fazer. Até que um dia ela sonhou com esse terraço onde nascem as quimeras, os anjos e os labirintos. E sentiu como se tivesse chegado à casa da mãe. Esse círculo que circunda dos fios aos pés dos filhos e que serve como amálgama para a vida e a morte. E depois sentiu uma ligeira frieza que precede o calor das incertezas que, por sua vez, desenham os caminhos da redescoberta.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Qual o sentido de abraçar pessoas estranhas na rua?




Na entrada principal do Midway Mall me deparo com duas meninas segurando um cartaz com letras garrafais que diziam “ABRAÇOS GRÁTIS”. Paro diante delas e demonstro interesse fruto, principalmente, da curiosidade. “O abraço é em vocês mesmas?”, pergunto. Elas dizem que sim e, então, partimos para o abraço. Uma de cada vez. Durante o contato físico, meu coração disparou um pouquinho e fiquei meio tímida com os abraços, muito embora arrependimento ou vergonha não fossem sentimentos que passeassem pelo meu gesto de assentir àquela oferta.Depois fiquei sabendo que se tratava de um projeto da faculdade, do curso de Publicidade. E tive de responder a duas perguntas: se eu acho que o povo brasileiro é afetuoso; e o que eu senti. Respondi que sim, acho que o brasileiro de maneira geral demonstra seus afetos e que havia me sentido bem. Uma vez vi uma proposta semelhante a essa em São Paulo, na qual as pessoas ofereciam sorrisos gratuitos. Coisa triste meu Deus. Particularmente, ganho o dia quando dou um sorriso para estranhos na rua e sou retribuída. Se do outro lado, não tiver correspondência, sem traumas. Sigo meu caminho, sabendo que fiz aquilo que me fez bem.

Mas, abraço foi a primeira vez. Eu disse lá em cima que meu coração disparou, embora me sentisse completamente à vontade com minha decisão voluntária. Qual o sentido de abraçar pessoas estranhas no meio da rua? Fiquei pensando sobre isso. Fazer contato físico com alguém exige vontade e confiança. É difícil desenvolver isso de cara, com alguém que nunca se viu.  Então, por que o fiz? Porque foi mais fácil do que se eu tivesse deixado passar a chance de experimentar aquela sensação. Se tivesse passado direto por aquelas meninas, tão sorridentes e convidativas, eu teria perdido a chance de sentir que um abraço pode ser algo que se encerra em si mesmo, que já é pleno e independe de explicações ou finalidades. Se sou livre para sorrir, também sou livre para abraçar.

É cultural abraçarmos nossos entes queridos. Às vezes, abraçamos pelo simples fato de que são entes queridos de nossos entes queridos. Basta um amigo chegar com outro amigo e já estamos lá, abraçando. É o abraço cumprimento. Têm aqueles abraços assim meio de lado, como se quiséssemos evitar o contato frontal com a outra pessoa, por reverência, timidez ou falta de intimidade. Os homens têm um abraço engraçado uns com os outros, aquele dos tapinhas nas costas. Como se dissessem: “ei, to te abraçando, mas sou espada”.
Depois dessa experiência no shopping, vi que tem até movimento na internet sobre o Poder do Abraço. E, se você, caro leitor, estiver disposto a “deserotizar” o abraço, pode ficar certo de que é bastante libertador.

Publicado hoje no Novo Jornal.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Parar de pensar



Já faz alguns dias que não consigo mais assistir à novela das nove. Aliás, já faz algum tempo que venho pensando no quanto posso investir esse momento sofá & novela, em outras coisas mais edificantes na minha vida. Até houve um período em que eu me permitia entrar naquele mundo de faz de conta, só para descansar a mente inundada de tantos afazeres do cotidiano. Porque tenho a nítida sensação de que a novela me faz parar de pensar. E esse movimento por si só é aterrador. Não consigo achar normal que parar de pensar seja um exercício interessante. Assistir novela pode parecer bom para um monte de coisas, já que enquanto não conseguimos resolver nossos próprios problemas, tentamos dar um rumo na vida dos personagens.

Uma vez, tive a grata oportunidade de ouvir uma palestra do consagrado ator Paulo Autran, no Teatro Alberto Maranhão. Ele sentado no meio do palco. Ele e seu cigarro e sua voz grave e penetrante. E alguém resolveu perguntar por que ele não fazia mais novelas. Sua explicação ecoa até hoje dentro das minhas convicções: “Porque novela ‘emburrece’. É uma história que poderia ser contada em duas horas e é contada em oitos meses”.

E essa novela das nove está passando dos limites no quesito achar que o telespectador é um estúpido. Se você, paciente leitor, anotar um diálogo em determinado capítulo, vai perceber que este diálogo é exaustivamente repetido nos próximos e nos próximos e nos próximos. É uma história que não evolui dentro de uma lógica plausível.  Vou dar um e-xemplo: Nina sacou do banco e botou numa sacola Um milhão de Reais, antes de ser assaltada pelo comparsa do Max. Ela nunca ouviu falar de transferência bancária? Como é que alguém sai de um banco com essa quantia? Esse lance agora das fotos compro-metedoras que a Carminha conseguiu destruir. Até minha avó – se viva estivesse – teria guardado essas fotos numa caixa de e-mail ou num pen-drive. Caro autor dessa novela, subestimar nossa capacidade de pensar é uma coisa, não dar o devido apreço ao nosso precioso tempo ali, parados, esperando que al-guma coisa realmente plausível aconteça, é i-nadmissível.

Dias passados, o professor Albimar Furtado escreveu em sua coluna, que não aguenta mais ouvir falar tanto nessa novela. Junto-me a ele. Ao invés de dedicar meu traseiro ao aconchego do sofá na hora da novela, vou aproveitar esse tempo para dar conta de mais páginas das tantas leituras que me aguardam, cheias de histórias, ritmo, fantasia, instrução e poesia. Coisas que me fazem esquecer do quanto foi árduo o dia, mas me lem-bram que não conseguiria parar de pensar na vida real. Inclusive, de que ela pode ser muito bela.

Publicado originalmente no Novo Jornal, na terça-feira.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sou normal

Arte de Modigliani

Confesso que eu já não aguento mais sair à noite e ver tanta mulher vestida de shorts e scarpin. Tem agora também outra tendência seguida por todas as “It girls”: usar tênis de salto alto.  (Momento wikipédia: esse termo é usado para moças que pelo modo de vestir, se maquiar e de agir, criam tendências e outras passam a copia-las! Medo!). Sim, e acabou aquele tempo em que, quem usava tatuagem era maconheiro, marinheiro ou bandido. Mas, o que se destaca é a mais absoluta falta de imaginação para marcar o corpo. Abundam borboletas, estrelas, rosinhas e coraçõezinhos nos ombros, pulsos e atrás da nuca e orelha. Outra coias, aquele coque bem no alto da cabeça, não combina com todo mundo não, minha gente, pelamordedeus! Uniformização tem limites, né? O carnatal só acontece em dezembro, mas a “abadanização” se estende pelos outros onze meses do ano. Credo!

Tem horas que as “copiadoras” de plantão pensam que são integrantes da Cruz Vermelha. Existem milhares de “santas” blogueiras dispostas a ajudar as aflitas de pele oleosa e com espinhas, com receitinhas uniformes de felicidade e autoajuda sobre creminhos revolucionários para a cútis de quem já passou dos 30, ou para quem já entrou nos 40, mas quer continuar com a carinha dos anos 80. Chego a imaginar que o ácido retinóico já pode ser considerado a nova “dor de cabeça", dada como desculpa na hora de dormir, quando o maridão chega com aquela vontade de abrir o placar e o jogo tem que ser cancelado, porque a mulher está toda besuntada de creme.

Quando eu vejo assim todo mundo igual, sinto um prazer danado de ser normal. E diga-se, ser “normal” nesse caso é ser diferente e de preferência não sair por ai copiando receitinhas de beleza e moda (ai que tédio!). Se alguém me vir usando shorts com scarpin numa balada, pode chamar o Samu ou um pai de santo, porque é caso para a medicina ou para afastar encosto.

Alguém pode se perguntar o que eu tenho a ver com a vida de quem segue tendências de moda ou perde três horas da vida passando cremes e acredita que o maior problema das mulheres é apresentar poros abertos na face. Minha resposta: NADA. Pessoas adultas fazem o que bem entendem de suas vidas. Mas, por outro lado, assusta-me essa uniformização dos rostos e corpos. Entedia-me a insistência em alguns temas, tanta coisa boa para se inspirar, tanta mulher bacana por aí fazendo coisas que realmente importam e, sobretudo, voltadas para transformar a vida de milhares de outras pessoas, (vou dar um único exemplo: Tia Dag. Ela tira crianças da rua, em situação de risco (algumas ameaçadas de morte). É fundadora da Casa do Zezinho, no Capão Redondo, em Sampa. Começou o trabalho, levando as crianças para dentro da própria casa).  É ou não é um exemplo massa a se seguir? E eu não estou falando para abandonar o batom e começar a levar criança abandonada na rua para dentro de casa não. Eu estou falando de senso de cidadania, de responsabilidade e de solidariedade com os famintos, os pobres, os ignorantes. De procurar algo mais útil e decente para se fazer, do que ficar "vendendo" ilusões!

Esse apelo ao consumo, essa emulação a coisas tão fúteis e efêmeras, têm atingido cada vez mais jovens e até mesmo meninas, que ficam susceptíveis a construir valores tão rasteiros sobre o que é beleza, o belo e sobre o que é realmente se cuidar e cuidar dos outros. Sou normal e tenho o direito de não compreender, assim como também de não seguir certas necessidades e illusões que os escravos da padronização da imagem tentam nos impor. Pena, muita pena.

Publicado originalmente aqui um pouco menor, por conta do espaço...



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Quando um homem se cansa de sustentar metade do mundo






Sentado agora neste lugar que muitas vezes é extensivo ao próprio corpo e, ao mesmo tempo, é tão desconhecido quanto uma caverna, o rapaz comprime os tentáculos do dia para dentro dos pensamentos cansados. Se pudesse, faria tudo do mesmo jeito? Ou quem sabe, faria tudo à revelia da ciranda dos ponteiros?

Quase 21h. Ri de si mesmo por ainda se importar com as horas. O tempo já aponta seus defeitos no raio-X da tosse, nas têmporas e na urina ouro envelhecido. Também tem insônias. Velhos dormem pouco, ele lembra o que a avó lhe dizia. Será que velhos também esquecem seus inimigos? Se pergunta. E ri de si mesmo, não dando a mínima para conceitos morais sobre o que é bom ou ruim. Há tempos que não preserva mais preocupações em agradar X ou Y.

As formigas têm mais importância para ele que certas pessoas. Lembra de uns versos antigos de Leminsk que diziam algo assim: "Pessoas podiam sumir, evaporar". Sempre lembra desses versos. Sobretudo quando está assim, desse jeito. A natureza humana indo para o ralo. Pulsando somente a vontade e os instintos mais primitivos. Nada de devaneios ou sonhos debaixo das pálpebras. 

Lembrou de uma canção de ninar quase tão antiga quanto a sombra das árvores. Um canto que ninguém mais ouve e ele próprio duvida das próprias lembranças porque os olhos - quando em outras funções - podem lembrar, mas não são dignos de confiança quando se trata de sons. E continua lembrando de outras coisas enquanto sorve uma xícara de café meio quente meio frio ao mesmo tempo amargo. Do primeiro amanhecer que não precisou da ajuda dos pais para ver; dos livros de História; de Sara, aquela moça por quem se apaixonou e chegou a acreditar que fosse a primeira mulher a ser criada por Deus; e de várias outras mulheres que lambeu e alagou depois dela; lembrou também do pão de arroz feito pela sua mãe morta; e de outras pessoas que só viviam agora dentro das suas memórias. E chorou, espalhando o córrego de lágrimas para dentro de sua boca, porque tinha sede de mar.

T. lembrou também que faz anos que não faz nem cumpre mais promessas. Talvez porque elas tragam em si a outra metade do mundo que ele não está interessado em sustentar.

Dica de livro: Uma Viagem à Índia




Foto: Divulgação/Internet

Bloom é, essencialmente, um rapaz triste e que guarda dúvidas fechadas que acha que só encontrará as chaves se viajar. E assim, parte para a Índia, fazendo primeiro um toour pela Inglaterra e França, até chegar ao lugar onde acredita que encontrará as respostas. Esse é o personagem principal de Uma Viagem à Índia (Editora Caminho em Portugal e Editora Leya no Brasil), do escritor português Gonçalo M. Tavares, que conta com míseros 42 anos, se comparados ao catatau de livros que já escreveu na vida, com alguns dos quais arrebatou a crítica literária, como o Prêmio LER/Millenium BCP 2004, o Prêmio Portugal Telecom, Prêmio Internazionale Trieste (2008) e o Grande Prêmio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores, em 2007. Seu romance Jerusalém ganhou o Prêmio José Saramago 2005 e a pecha bastante elogiosa do próprio dizendo-lhe que "era um atrevido", referindo-se ao fato de que Gonçalo M. Tavares, mesmo com tão pouca idade, era um dos melhores escritores que ele já havia lido.

Mas voltemos ao livro em questão. Assim como se fala em hipertexto nos tempos de internet, tomei para mim a ideia de que Uma Viagem à Índia é um hiperpoema, dividido em 10 Cantos, distribuídos em mais de 450 páginas. Porém, o leitor não precisa se assustar porque a leitura flui igual a uma prosa e seus parágrafos. Vamos a uma pequena mostra: "Ofereceram a Bloom descanso, frutas, água./ E como explicando tudo a um imbecil/ estrangeiro, disseram, apontando para cada coisa a seu/ tempo: a água é líquida, a fruta sólida e esta cama/ que te oferecemos estará no estado em que estiverem/ os teu sonhos". Um Viagem à Índia faz uma alusão nada indireta à literatura máter ocidental de Os Lusíadas, do seu patrício Camões. Mas, como diriam - bem melhor que eu, inclusive - os críticos, é uma revisitação "original da mitologia cultural do Ocidente". Bloom conhece pessoas, se mete em confusões na Inglaterra, fala de sua vida para um cordial amigo francês; fala do amor de sua vida, Mary, que está morta; da morte do pai e das dúvidas que quer desvendar na Índia e das lembranças que quer esquecer. 

Vamos a uma "metadica" (a dica de leitura da dica de leitura): ler como se fosse prosa, ligar um verso a outro; se preciso for, uma estrofe à outra, que a viagem se dará sem grandes turbulências. Só não garanto que não arrebatará fortes emoções. Boa leitura. Em tempos de globalização enjoy!

PS.: escrevi originalmente essa dica de livro para a revista Living Four, editada pelo meu amigo querido e über jornalista, Cristiano Félix.







terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um drama familiar que culminou em greve de fome


Monet: o descolado que só quer se enturmar e relaxar

Monet chegou chegando, como dizem na gíria urbana descolada. Deu uma vistoria geral na casa, cheirou aqui, cheirou acolá, aprendeu rapidamente o lugar onde deveria fazer suas necessidades fisiológicas e aprovou a iguaria fabricada à base de salmão e arroz. Monet não mia, ronrona. Não reclama, sussurra alguma coisa quando parece incomodado. Não apresentou tensão alguma, ao contrário dos outros "donos da casa".

Monet - e eu também - só não esperava que o primogênito resolvesse fazer greve de fome. Isso mesmo, aquele que habita o espaço há mais tempo, há quase sete anos, e tem aproximadamente a metade do tamanho do caçula da casa, ficou extremamente perturbado e simplesmente parou de comer. Olhava-me questionador, cacarejava como uma galinha d´Angola. Podia ler no olhar dele desabafos como: "Como assim? Como é que você traz esse cabeçudo para dentro da 'minha' casa, sem me perguntar nada?". Tentei uma aproximação amigável. Tentei mostrar que tem comida suficiente para todo mundo e mais alguns abandonados da rua. Tentei em vão. Recebi muitas arranhadas, reclamações, muxoxos e ressentimentos.

Fellini: o primogênito e chantagista emocional

Fiquei pensando que o primogênito está certo, já que realmente eu não pedi permissão para a chegada de um terceiro elemento em casa. E que ele tem o direito de ficar com ciúmes e até mesmo fazer essa chantagem emocional de parar de comer e partir meu coração. No segundo dia, Monet sentiu a pressão e resolveu só dormir:  duas preocupações, e uma decisão: encaramos como uma colônia de férias. Monet voltou para a casa original e virá nos visitar sistematicamente até que Fellini e Dollores percebam que ele não oferece risco à integridade física deles e à "caça" que lhes é oferecida todos os dias.

Dollores: só não parou de comer porque é seu esporte favorito

Desde a morte do Otto sentia que havia uma vaga e acho que encontrei o sujeito para preecher essa vacância. Agora é torcer para que os outros "donos da casa" aceitem bem esse persinha sem-vergonha e relaxadão, chamado Monet. Eu já estou completamente apaixonada por ele, o que me leva a uma conclusão: sempre cabe mais um (gato) no coração de quem ama esses seres tão especiais, enigmáticos, cheios de personalidade e, sobretudo, sensíveis e à flor da pele.