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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Correr riscos *




Vi um dia desses na TV uma pós-modelo-apresentadora dizendo que as fotografias dessas profissionais são tão tratadas em programas de computador que elas se tornam praticamente perfeitas. Mas não só esses seres providos de talento para pousar e arrebatar desejos de consumo se utilizam de photoshop para realçar o que já é evidente. Os normais também padecem dessa necessidade de perfeição, mesmo sem sofisticados programas de computador. Basta ver os avatares espalhados pelas redes sociais. É tanta beleza que nem sempre é possível estabelecer uma conexão entre a imagem exibida e a pessoa real. Eu mesma sou prova disso: um pouco de batom vermelho e brincos - numa foto no facebook captada pelo olhar encantado da minha amiga Sônia Santos - me colocou milagrosamente bonita e foi um grande frisson. A im-pressão que eu tive é que eu "era melhor" na internet. E isso me incomodou um pouco porque, ao contrário dos modelos, prefiro ser melhor "ao vivo". Prefiro que minha "fotografia" estabeleça conexões com o olhar, a respiração e todos os sentidos do outro. E, se a pessoa puder olhar além de mim, da minha pele, dos meus cabelos e dos acessórios, melhor ainda.

Mas, se tanto os modelos foto-gráficos quanto as pessoas comuns sabem que o ideal de perfeição pode ser algo impossível e, portanto, frustrante, por que então permanecemos nessa busca inglória por algo que não nos identifica como realmente somos?

Os noticiários nos últimos dias têm dado atenção para o fato de que próteses de silicone para implante mamário da marca francesa PIP correm o risco de rompimento. O Estado de São Paulo, no dia 8 passado, levou ao conhecimento dos seus leito-res que quase 35 mil próteses desta marca foram importadas para o Brasil e que algo em torno de 120 mil cirurgias de implante de silicone são feitas por ano no nosso país. Esse é o procedimento mais procurado pelas mulheres, as quais em 91% dos casos se submetem à cirurgia só para fins estéticos, enquanto que as reparadoras arrebanham menos de 10% da procura. Não sou contrária à busca por uma imagem melhor. Os defensores e adeptos dos procedimentos estéticos para as mais diversas formas de "melhorar" a imagem corpórea, falam muito no aumento da auto-estima. Mesmo que passageira.

Acima da auto-estima - que também pode ser conseguida com auto-conhecimento, análise, tolerância a si e aos outros - vejo um apelo à estandardização dos corpos. Faz-se um estardalhaço sobre os perigos do silicone da marca PIP. Mas pouco ou nada se fala sobre a aceitação da mulher consigo mesma como nasceu, seja branca, negra, alta, magra, gorda, baixa. Correndo o grande e inevitável risco de ser huma-na.

* Texto publicado na terça-feira, 17/01/2012, na minha coluna no Novo Jornal.

2 comentários:

ALÔ! ALÔ! disse...

Alô MME.S.! Que texto bonito!Direto,objetivo e ao mesmo tempo doce. É,ficar mudando a aparencia,ajustando aqui,retocando alí,tem a ver com auto estima,com uma vontade meio doida de parar o tempo,de ter 20 anos para sempre e poder,sem medo,recomeçar.Encarar o espelho,nua e crua,depois de uma certa idade não é fácil,as vezes machuca um pouco,até porque,alma,ou fica verde para sempre ou apodrece sem "madurar",já o corpo...
Eu de cá vou levando,os seios pequenos,as rugas,o cabelo eu pinto tá?Abraços,Anna Kaum.

Mme. S. disse...

Adorei seu comentário! Obrigada pela visita, Anna Kaum. Pois é, não tenho nada contra quem se cuida e se arruma. Só não curto muito a pressão, sabe? E às vezes rola um lance muito fútil que empobrece a gente. Ainda não comecei a pintar o cabelo, mas sei que fatalmente esse dia vai chegar. Mas já estou me jogando no protetor solar, risos.
Abração, S.