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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fragmentos de uma certa inclinação para inutilidades

Edward Hopper

Os cães têm aptidão para a amizade. Os gatos para uma espécie de lealdade velada e discreta. A vida às vezes pode ser muito
simples. Noutras, trágica. Como deve ser para uma formiga em dias de chuva. Os gatos e os cães passam ao largo desse raciocínio mas, companheiros domésticos dos humanos, são capazes de sentir muito mais do que se pode medir pela razão. A vida tem ponteiros, fumaça, calor, buracos. Mas tem também primavera, xícaras, música e uma certa inclinação para inutilidades que me fascinam: poesia é a mais intrigante delas. Não diria que é um feito apropriado para combater uma guerra porém, não há paz que não prescinda de alguma matéria poética em suas entrelinhas. Nem que seja num quadro de Klint, de Hopper, de Thomé Filgueira ou nas sapatilhas de uma bailarina. Se pudesse confessar aos meus cinco leitores algo inconfessável diria que moram nessas palavras soltas e de aparência sigilosa esquecimentos que ainda tecem as minhas lembranças. A um coração é inerente pulsar. Mas o que é que a gente faz quando a alma tira a pele? E o momento de maior clareza é quando as pálpebras estão cerradas e não se movem no ritmo dos pensamentos. Olho para fora e vejo homens e mulheres. Mas não vejo solução.

4 comentários:

ALÔ! ALÔ! disse...

É tudo somente interrogação,na vida não há uma única resposta,nada de solução,somente cacos e pedaços,curvas e abaixos e uma força enorme,que indelével,nos empurra para ela.Nuns dias dores agarradas,noutros amores e risadas.
Abraços,Anna Kaum.

Vossa Indecência NM disse...

Genial o título. Gatos escolhem as almas humanas que os alimentam, muito mais seletivos e espiritualmente práticos. Andava pelo jardim de ontem à noite com todo o peso existencial a ser desvelado entre um cigarro e Amanda (minha tricolor) acompanhava-me solene, um ar de seriedade e leveza que nunca percebi em humanos. Ela estava compartilhando comigo, talvez seu peso existencial, mas entre roçares. sim, isso é amor.

A Mesma Indecência Vossa disse...

" moram nessas palavras soltas e de aparência sigilosa esquecimentos que ainda tecem as minhas lembranças. A um coração é inerente pulsar. Mas o que é que a gente faz quando a alma tira a pele?"... Nada que velhas botas não resvalem, todos os caminhos levam ao frigorífico... enojam-me os demônios por apreciarem a carne humana, esta neblina de alma indigesta... Claro que sem solução.

Mme. S. disse...

Anna Kaum, você está se transformando na minha comentadora oficial (risos).

Vossa Indecência, vossa relação com os gatos me é muito familiar e compreendo muito quando você encontra em Amanda a ressonância dos que compreendem. Ela é, certamente, uma companheira imprescindível nessa jornada ao deserto ou ao acaso.