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quarta-feira, 21 de março de 2012

Minha avó atirou num cangaceiro *



Minha avó ficou viúva aos 37 anos. Na beira da saia sete filhos para criar. Ela contava muitas histórias, verídicas ou de “trancoso”, e não havia quem duvidasse da força de suas palavras vindas de lembranças de uma época difícil e, ao mesmo tempo, tão rica em experiências. Sem meu avô Hermes, se viu obrigada a morar na fazenda do sogro, Raimundo Azevedo Cruz, mais conhecido como “Padrim Padre”. Ficaria na incumbência de cuidar de uma bodega que havia na beira da estrada para atender as necessidades dos que por aquelas bandas passavam. Seu irmão, Edson, mais conhecido por “Som Azevedo”, achou por bem deixar por perto uma arma e lhe disse: “Tatá - era assim que todos a chamavam - vou deixar essa arma aqui dentro desse saco de feijão. Se algum gaiato chegar por aqui e abusar, é só você puxar o gatilho e meter fogo”. Minha avó, a princípio, achou aquela situação absurda e pensou que jamais seria capaz de manusear aquele trambolho.

Até que, certa tarde, apareceu pela bodega um homem de meia idade, já puxando por uma perna e se autoproclamando ex-cangaceiro do bando de Lampião. Zé Luiz era seu nome. Entre os pedidos de um quilo de milho, um de farinha, um pedaço de carne seca e outras necessidades, ia tecendo comentários ofensivos a respeito de uma certa família Azevedo, que ele sabia viver ali pelas redondezas. A cada vitupério contra sua estirpe, vovó trincava os dentes e pensava “É hoje que eu uso essa arma”. Enfiou a mão no saco de feijão, para atender-lhe o próximo pedido e colocou em prática as lições do meu tio. “A senhora tem fumo?”, perguntou o sujeito e pediu: “Pois corte um pedaço pra mim que vou fazer um cigarro aqui mesmo”.

Quando o perneta perguntou se ela tinha fogo, sentiu na testa um cano frio e o falso indulto: “Tenho fogo sim. E você está falando com Tatá Azevedo, filha mais velha de Nô Azevedo e se não quiser morrer agora, corra cabra safado!”. Ele correu é claro, deixando toda a feira e o pagamento já efetuado para trás. Nervosa, e sem saber direito o que estava fazendo, movida mais pela honradez do que pela valentia, tremendo feito vara verde, vovó só conseguiu acertar um tiro entre as orelhas de jumentinho de carga que estava ali próximo e que passou três dias sumido pelo mato, enquanto o increu fugia por debaixo da porteira para nunca mais voltar.

“Causos” familiares à parte, fico feliz que esse episódio na vida da minha avó tenha se transformado apenas numa história engraçada. E que ela não tenha carregado a morte de alguém nas costas, afora os problemas que teve de enfrentar ao longo da vida. Assusta-me profundamente a ideia de um cidadão fazer justiça com as próprias mãos. E me estarrece ainda mais quando, em pleno século XXI, percebo sentimentos fascistas de apoio a quem decide estar acima do bem e do mal.

* Texto publicado no Novo Jornal, ontem.

terça-feira, 13 de março de 2012

Saiu o livro O Ouro de Goiás, de Franklin Jorge




tive a honra de ser convidada por
Franklin Jorge para escrever a "orelha" do seu livro O Ouro de Goiás, que acabou um texto publicado na contracapa. Enfim, o que importa é que realmente tive o prazer de ler o livro e escrever sobre a escrita desse que é um dos maiores ícones da literatura norte-rio-grandense e que eu não amarro as botas! O livro saiu pela Editora Kelps, lá de Goiás mesmo. e eu não sei se será comercializado aqui. de toda maneira, tenho a permissão agora de publicar o texto que escrevi sobre o Ouro de Goiás. ei-lo:


Um mistério desvendado rapidamente perde o seu fascínio. Mas e quando o que se há para desvendar não faz parte da matéria dos mistérios? E sim, do cheiro da terra, da lua preguiçosa, dos passos de homens e mulheres que habitam um lugar e cujas histórias se fundem? "O Ouro de Goiás" é uma joia rara porque desvenda a beleza do cotidiano e fala da singeleza dos tesouros captados por olhos e ouvidos de um escritor que recolhe palavras como quem apanha fruta madura do pé, e oferece ao leitor para seu deleite.

Com a destreza de um artífice da palavra, Franklin Jorge desenha para o leitor figuras de pessoas como Carmo Bernardes, Antônio Poteiro, José Godoy Garcia, Bernardo Élis, Sebastião Burro Preto, Doutora Amália, Cora Coralina, Sandra Simon, Brasigóis Felício, dentre muitos outros. Ao mesmo passo em que compila uma verdadeira antologia de Goiás, e de sua gente lá nascida ou acolhida.


Há quem acredite que algumas espécies de peixe se esquecem do caminho percorrido antes mesmo de chegar do outro lado do aquário. Vivendo, portanto, num ineditismo nômade, sem ter do que lembrar nem reviver. Se fosse facultada à humanidade tal característica, necessitaríamos de homens como Franklin Jorge: um sagaz pescador de memórias, contos, causos e reminiscências; para que a vida nunca perca o perfume das (re)descobertas.

Sheyla de Azevedo
.

Sobre o autor:

Franklin Jorge é sobretudo um homem das letras. Nascido no Vale do Ceará-Mirim, nos anos 1950, e criado na Várzea do Açu (regiões do Rio Grande do Norte) ainda menino teve o destino revelado por uma cigana que lhe atribuiu o peso da responsabilidade e a leveza imaginativa de ser escritor. Autor de mais de 40 títulos inéditos, oferta agora um desses tesouros ainda guardados com a publicação de "O Ouro de Goiás". Próximo dos 60 anos, o jornalista e escritor tem se tornado cada vez mais, nas paragens por onde aporta, uma referência e um decano da arte de bem escrever. Seus textos reservam uma força e autenticidade que arrebatam de imediato o leitor para uma sensação de acolhimento.

O que nos salva! *




Jorge Luis Borges, um dos escritores mais consagrados em todo o mundo, se considerava antes de mais nada, essencialmente um leitor. E, certa vez, durante palestras feitas na Universidade de Harvard, nos anos 1960, teria dito: “O fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia”.

Creio que uma das coisas mais prazerosas para um leitor é poder compartilhar esse ato silencioso e quieto – que também é misto de vocação, sentimento e espanto – com outras pessoas. Semana passada, no dia 8 de março, participei do 1º Sarau Poético dentro da 11ª Semana Mulher e Poesia do curso de Letras da UnP, a convite da professora Conceição Flores, cuja dedicação ao que faz, já se pode considerar um ato poético. Tive a honra de compartilhar a mesa com as poetizas Lisbeth Lima e Anchella Monte e, pela segunda vez, fazendo parte daquelas discussões que evidenciam a produção poética feminina, me vi diante de um público receptivo e acolhedor.

Foi pensando neles, dias antes de entrar naquele auditório, que teci um possível caminho para compreender os efeitos da prosa e da poesia sobre nós leitores. Quando nos deparamos com uma prosa que nos arrebata, é como se estivéssemos dirigindo uma Ferrari, potente e confortável, nos conduzindo por horizontes onde a imaginação é o limite. Já no caso da poesia é preciso mais dedicação para alcançarmos aquilo que enriquece o livro e o autor: a compreensão alheia. No lugar da Ferrari, estamos diante de um veículo não motorizado. Um monociclo, por assim dizer, no qual quanto mais desvendamos aquelas linhas e versos, mais nos tornamos equilibristas sobre sua única roda e mais incrível e prazerosa vai se tornando a trajetória que percorremos. Porque o poeta não tem obrigação de explicar, descrever ou conduzir a compreensão. O caminho é livre, pertence ao leitor, mas exige esforço e dedicação.

Amanhã, Natal mais uma vez vai celebrar o Dia da Poesia. Poucas são as cidades que comemoram com tanta intensidade essa data. É certo que já teve tempos melhores. Lembro-me que teve uma época em que os ônibus traziam em suas janelas cartazes com poesias de autores locais. O coletivo urbano dando passagem para paisagens líricas. Em vários lugares, poetas tomavam seus lugares, cantavam suas preces e evocavam a palavra. Bons tempos.

Mas a poesia não pode parar e amanhã haverá uma programação oficial que homenageia o Othoniel Menezes, o querido Carlão vai lançar “Cidade dos Reis” e haverá show com Jorge Mautner e Nelson Jacobina.

Mas, voltando ao tema, anos atrás, na ocasião em que entrevistei a escritora portuguesa Maria Tereza Horta, ela me disse que a poesia não tinha outra obrigação além dela mesma. Porém, uma sociedade na qual existissem homens e mulheres capazes de produzir poesia, esse lugar ainda teria salvação.

* Texto publicado hoje no Novo Jornal

Fragmentos da natureza (humana?)



Ontem à noite apareceram duas tanajuras lá em casa. Uma alada, a outra tinha tirado férias das nuvens. Em ambas, a característica bundinha acentuada e uma profecia da minha mãe: "Tanajura? Três dias de sol ou três dias de chuva". Ou seja, mãe tem sempre que estar certa, em qualquer das alternativas.


Salvei uma lagartixa hoje pela manhã. Ela estava atravessada na boca do meu gato. Não sei o que o fez soltá-la, se meus protestos aclamados pelo direito à vida e à liberdade de todos os seres vivos ou o doce gosto da aurora. Momento em que ele é bastante bem-humorado. O fato é que seguimos viagem pelo pátio e ele só olhou para trás três vezes, o que é um recorde de desapego.


Sempre tive fascínio por farois, cheiro de chuva e arco-íris. Vi e senti dois desses elementos dia desses e, imediatamente, minha memória evocou o terceiro.


Um homem sem cor atravessa meus sonhos todas as noites. Decerto ele pensa que eu sou pintora.


Três passarinhos pousaram nos fios de alta-tensão para ouvir a sinfonia dos carros. Quando o semáforo abriu, eles permaneceram quietos e absortos. No fundo se riam do alçar voo tímido das fohas secas, como se elas fossem as asas do chão.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ao mestre, o tempo *



Dez anos é tempo suficiente para efeitos temporais no corpo e na alma da gente. Em dez anos o tempo esculpe marcas na face, armazena horas antigas num baú de recordações, provoca o despertar de fantasias inúteis, eleva a refrigério o que antes fora um feito de angústia, descarta culpas, ensina que o perdão é trilha inevitável para quem quer seguir adiante.

Há dez anos, eu tinha muito mais pressa do que ontem e hoje. Fazia muita questão pela transparência das figuras - como se às pessoas não fossem permitidas as sombras -, tinha menos ouvido para o silêncio e pouca paciência para escrever cartas. Agora, escrevo cartas longas que chegam sem selo do outro lado do mundo em questão de segundos. Nessas cartas, a revelação do meu dia não é mais importante que o simples ato de escrever para alguém que julgava perdida nos conflitos do passado. O tempo revolveu as folhas secas do outono e revelou novas mudas de esperança. A intersecção entre a maturidade e o desejo de mudança se recodificou em amizade.

E isso me fez descobrir que dez anos é um tempo pequeno para quem ainda não sentiu todos os aromas da vida, ou ora foi ator ou testemunha nessa guerra de sobreviver ao desconhecido futuro.

Se estivesse escrevendo esse texto há dez anos, teria como tema principal o desapontamento. Era muito mais fácil olhar para as desilusões, do que enxergar que viver é sempre muito complicado, sobretudo na convivência consigo mesmo e com os outros. Dez anos depois sei que é preciso indulgência com os próprios passos trôpegos na vida, para que se aprenda a amparar os passos alheios. É como se continuasse achando importante a pontualidade, porém, dando mais crédito aos encontros do que aos trinta minutos de atraso.

Mas escrevo esse texto agora. E sinto que daqui a dez anos ele poderá ser outro caminho, ter outras recordações e tantas outras histórias. E eu não serei mais a mesma, tampouco esse rio que me atravessa as veias.

Pode parecer piegas ou inoportuno a revelação que vou fazer agora: mas não há um só dia em que eu não me atenha a agradecer por algo que me aconteceu. Porque o trabalho fluiu bem, porque descobri um lugar onde o almoço é uma delícia e o preço é honesto, porque dei boas gargalhadas com minhas amigas, porque tive uma vontade imensa de chorar e, por isso, descarreguei a adrenalina represada por conta de tantos problemas de aparência insolúvel, porque choveu alguns minutos e aguou as plantas no jardim ou fez sol o dia inteiro, porque redescobri a palavra amizade, porque deu tudo certo, ou nem tanto e, sobretudo, porque ainda dá tempo de perceber que viver é gratidão.

* publicado no Novo Jornal, ontem.