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quinta-feira, 8 de março de 2012

Ao mestre, o tempo *



Dez anos é tempo suficiente para efeitos temporais no corpo e na alma da gente. Em dez anos o tempo esculpe marcas na face, armazena horas antigas num baú de recordações, provoca o despertar de fantasias inúteis, eleva a refrigério o que antes fora um feito de angústia, descarta culpas, ensina que o perdão é trilha inevitável para quem quer seguir adiante.

Há dez anos, eu tinha muito mais pressa do que ontem e hoje. Fazia muita questão pela transparência das figuras - como se às pessoas não fossem permitidas as sombras -, tinha menos ouvido para o silêncio e pouca paciência para escrever cartas. Agora, escrevo cartas longas que chegam sem selo do outro lado do mundo em questão de segundos. Nessas cartas, a revelação do meu dia não é mais importante que o simples ato de escrever para alguém que julgava perdida nos conflitos do passado. O tempo revolveu as folhas secas do outono e revelou novas mudas de esperança. A intersecção entre a maturidade e o desejo de mudança se recodificou em amizade.

E isso me fez descobrir que dez anos é um tempo pequeno para quem ainda não sentiu todos os aromas da vida, ou ora foi ator ou testemunha nessa guerra de sobreviver ao desconhecido futuro.

Se estivesse escrevendo esse texto há dez anos, teria como tema principal o desapontamento. Era muito mais fácil olhar para as desilusões, do que enxergar que viver é sempre muito complicado, sobretudo na convivência consigo mesmo e com os outros. Dez anos depois sei que é preciso indulgência com os próprios passos trôpegos na vida, para que se aprenda a amparar os passos alheios. É como se continuasse achando importante a pontualidade, porém, dando mais crédito aos encontros do que aos trinta minutos de atraso.

Mas escrevo esse texto agora. E sinto que daqui a dez anos ele poderá ser outro caminho, ter outras recordações e tantas outras histórias. E eu não serei mais a mesma, tampouco esse rio que me atravessa as veias.

Pode parecer piegas ou inoportuno a revelação que vou fazer agora: mas não há um só dia em que eu não me atenha a agradecer por algo que me aconteceu. Porque o trabalho fluiu bem, porque descobri um lugar onde o almoço é uma delícia e o preço é honesto, porque dei boas gargalhadas com minhas amigas, porque tive uma vontade imensa de chorar e, por isso, descarreguei a adrenalina represada por conta de tantos problemas de aparência insolúvel, porque choveu alguns minutos e aguou as plantas no jardim ou fez sol o dia inteiro, porque redescobri a palavra amizade, porque deu tudo certo, ou nem tanto e, sobretudo, porque ainda dá tempo de perceber que viver é gratidão.

* publicado no Novo Jornal, ontem.

3 comentários:

Thiago Gonzaga disse...

parabéns pelo seu blog, muito bom.
gostei bastante.

Thiago Gonzaga

Cacau disse...

Simplesmente L.I.N.D.O!!!Sem palavras...

Bjss sou sua fãaaaa \o/

ALÔ! ALÔ! disse...

Que os próximos anos não te apaguem as cores,não te destrua os contornos,não te afaste a essência nem te desvie o olhar,porque assim,mesmo outra serás a mesma,mesmo cheia manterás lugar para o vazio e por mais que teu corpo avise que a velhice chegou e o desânimo te ronde,tua alma se manterá eterna no exercício da descoberta.Abraços,Anna Kaum.