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terça-feira, 13 de março de 2012

O que nos salva! *




Jorge Luis Borges, um dos escritores mais consagrados em todo o mundo, se considerava antes de mais nada, essencialmente um leitor. E, certa vez, durante palestras feitas na Universidade de Harvard, nos anos 1960, teria dito: “O fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia”.

Creio que uma das coisas mais prazerosas para um leitor é poder compartilhar esse ato silencioso e quieto – que também é misto de vocação, sentimento e espanto – com outras pessoas. Semana passada, no dia 8 de março, participei do 1º Sarau Poético dentro da 11ª Semana Mulher e Poesia do curso de Letras da UnP, a convite da professora Conceição Flores, cuja dedicação ao que faz, já se pode considerar um ato poético. Tive a honra de compartilhar a mesa com as poetizas Lisbeth Lima e Anchella Monte e, pela segunda vez, fazendo parte daquelas discussões que evidenciam a produção poética feminina, me vi diante de um público receptivo e acolhedor.

Foi pensando neles, dias antes de entrar naquele auditório, que teci um possível caminho para compreender os efeitos da prosa e da poesia sobre nós leitores. Quando nos deparamos com uma prosa que nos arrebata, é como se estivéssemos dirigindo uma Ferrari, potente e confortável, nos conduzindo por horizontes onde a imaginação é o limite. Já no caso da poesia é preciso mais dedicação para alcançarmos aquilo que enriquece o livro e o autor: a compreensão alheia. No lugar da Ferrari, estamos diante de um veículo não motorizado. Um monociclo, por assim dizer, no qual quanto mais desvendamos aquelas linhas e versos, mais nos tornamos equilibristas sobre sua única roda e mais incrível e prazerosa vai se tornando a trajetória que percorremos. Porque o poeta não tem obrigação de explicar, descrever ou conduzir a compreensão. O caminho é livre, pertence ao leitor, mas exige esforço e dedicação.

Amanhã, Natal mais uma vez vai celebrar o Dia da Poesia. Poucas são as cidades que comemoram com tanta intensidade essa data. É certo que já teve tempos melhores. Lembro-me que teve uma época em que os ônibus traziam em suas janelas cartazes com poesias de autores locais. O coletivo urbano dando passagem para paisagens líricas. Em vários lugares, poetas tomavam seus lugares, cantavam suas preces e evocavam a palavra. Bons tempos.

Mas a poesia não pode parar e amanhã haverá uma programação oficial que homenageia o Othoniel Menezes, o querido Carlão vai lançar “Cidade dos Reis” e haverá show com Jorge Mautner e Nelson Jacobina.

Mas, voltando ao tema, anos atrás, na ocasião em que entrevistei a escritora portuguesa Maria Tereza Horta, ela me disse que a poesia não tinha outra obrigação além dela mesma. Porém, uma sociedade na qual existissem homens e mulheres capazes de produzir poesia, esse lugar ainda teria salvação.

* Texto publicado hoje no Novo Jornal

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