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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Como nasce uma frase perdida


Eu poderia falar que hoje no entremeio do almoço e da outra parte do dia, surgiu-me como uma estrela cadente, uma frase que bem que poderia ser aquela com a qual vou inaugurar aquele romance que dorme entre minhas pálpebras e que me sobressalta o cotidiano com uma vontade que não tem olho, boca ou estômago: só ombros, pés e sombra. Mas, o fato é que eu me esqueci de anotar. E agora, ela adormece como todas as outras, em algum lugar que não é espaço e em algum tempo selvagem e absolutamente indomável. 


Por enquanto só a ilustração...



Meu amigo Cristiano Félix pediu um textinho há um tempo para a Living 4 e eu "nádegas de nádegas". Só pedindo desculpas pela demora e coisa e tal, e desculpa vai, desculpa vem, eis que surgiu uma ideia (plim!). Da ideia, o texto e do texto, ele pediu para o ilustrador André Soares fazer uma imagem bacana. E ficou bacana mesmo. É tanto que eu não resisti e estou postando-a aqui no Bicho. Depois que sair na revista, eu posto aqui o texto.


domingo, 15 de abril de 2012



Por trás dessa tarde nublada:
Uma xícara de café com biscoitos,
um  passeio rápido pelo jardim,
uma sonolência do porvir
segunda-feira que vai chegar
um pedaço de pizza
depois um bolo de chocolate
tudo assim, simples e cheio de uma coisa que 
enche o dia de uma luz
que nasce por dentro.

O homem da botija *




Cresci ouvindo histórias de botijas enterradas, guardando preciosos tesouros, reservados a poucos incautos ou corajosos que tentassem, porventura, passar a mão no pertencimento dos outros. As histórias que me chegavam na infância, geralmente, davam conta de que aquelas relíquias que tornariam riquíssimos quem as achasse, pertenciam a piratas, homens avaros e maus, ou qualquer sorte de fantasma possessivo. Morei numa casa, certa vez, lá nos brejos da Paraíba, que uma coleguinha jurava saber onde tinha uma botija. Tateávamos uma das grossas paredes do casarão antigo e, de fato, um pedaço dela parecia oco: que era onde a mulher solitária e rica, dona daquela casa, escondera naquela caverna de alvenaria seu tesouro de pedras preciosas, antes de morrer. Era tão avara e solitária que a vizinhança só se deu conta de sua morte vários dias depois. A verdade é que não nos atrevíamos a ir além daquela sutil descoberta. E o tesouro jamais saiu de sua toca fascinante e aterradora.

O tempo passou e me tornei, de certa maneira, uma caçadora de outros tipos de botijas: os livros. No início desse ano, tive a sorte e a honra de me deparar com um desses tesouros escritos. Ainda não estava impresso oficialmente e o autor, o escritor e jornalista Franklin Jorge, incumbira-me o delicado exercício de ler os escritos de “O Ouro de Goiás”, afim de escrever-lhe uma orelha. A princípio não me pareceu tarefa das mais simples. E até agora não me parece. Mesmo depois do livro impresso pela Editora Kelps, com o apoio do Instituto Cultural José Mendonça Teles. Mas lá fui eu desvendar aquela botija, cujo senhorio tem o dom das palavras, já tão bem conhecidas nesse jornal, pelos seus textos dominicais. Franklin Jorge dispensa comentários. Sua escrita é fina flor de um jardim que conta com pouquíssimos beijaflores de sua estirpe literária.

Em “O Ouro de Goiás” seus textos mesclam gêneros distin-tos – como a reportagem e o ensaio - numa harmonia rara de se encontrar por essas bandas de acá, tornando-o um verdadeiro e raro artífice da palavra. A cada capítulo, cada página, descortinam-se um, dois, ou três personagens – e ai inclua-se o próprio narrador – que são verdadeiras joias apresentadas ao leitor, sem contar as peculiaridades de uma cidade para mim tão longínqua e agora tão próxima, depois dessas leitu-ras.

No simples texto que o entre-guei, falei sobre a beleza cotidiana captada por olhos e ouvidos de um escritor que recolhe palavras, gestos e pedras no caminho como quem apanha fruta madura do pé, e oferece ao leitor para seu deleite. Repito pois, nesse meu quadrado imperfeito , pedaços de minhas impressões sobre esse tesouro, dos tantos que Franklin Jorge nos permite encontrar. Sem, obviamente, o peso e a responsabilidade de fazer um arremedo de crítica literária, porque disso careço de nascença o talento.

Texto publicado no Novo Jornal *
PS.: pode parecer nada a ver a foto, mas tem tudo a ver. Marlon Brando, assim como eu e Franklin, AMAMOS gatos!

sábado, 7 de abril de 2012

Evoé, a nudez do Zé! *


Foto minha dele!



Por esses dias, estive bem perto do homem que nasceu numa cidade chamada Araraquara, cujo significado é “morada do sol”. Límpido e porque não dizer, “solar”, José Celso Martinez Correa é daquelas pessoas que não passam despercebidas. Talvez seja pelos cabelos brancos, pela corpulência mezzo magra e alta, pelos gestos carac-terísticos de levantar os braços e gesticular muito enquanto fala; talvez por abrir e fechar os olhos, como se tivesse acabado de descobrir o mundo, ou uma nova faceta desse velho mundo. Ou, simplesmente, pelo que significa sua trajetória de quase 60 anos dedicados ao teatro, sendo ele um dos responsáveis pela criação de um grupo de teatro amador, quando ainda cursava Direito na USP, em São Paulo, e que depois veio a se tornar o atual Teatro Oficina Uzyna Uzona, oficialmente com 54 anos completos, contabilizando peças memoráveis no Brasil e no mundo.

Ele é sim uma dessas sumida-des que a gente não costuma ver na TV. E essa fama de ficar nu no palco é fichinha. Não significa, nem encerra todo o processo que o levou e ter essa atitude desprendida para alguns, desavergonhada e despropositada para outros. Como o Novo Jornal disse tão bem, semana passada, no título da matéria de Renato Lisboa “Quebrando um tabuzinho básico”, Zé Celso é um cara que quebra tudo! Deixa em cacos e estilhaços a hipocrisia, o medo, a vergonha, o conservadorismo. E está longe de ser gratuito. Pensa e fala o que quer. Faz o que quer e o que gosta. Come os padrões e caga as conven-ções. E para fazer isso é preciso ter um pouco de cora-gem e muita bala na agulha.

É certo que me deu um pouco de ansiedade em estar diante dele, a princípio. Pela atitude sempre disposta a ir além do convencional. Assim que che-gou ao Teatro Alberto Mara-nhão, onde figuraria como convidado ilustre dentro das comemorações dos 108 anos daquela casa e também do Dia Mundial do Teatro, ele foi interpelado por um dos repórteres e, ao ouvir o início de uma pergunta: “o que o senhor...”? Ele logo corrigiu de maneira enfática e irreve-rente: “senhor, não, senhora!”, numa clara referência à sua homossexualidade. Gay sim, e daí? Velho, ator, diretor tea-tral, exilado político na época da ditadura, quebrador de tabus sim, e daí? É como se indagasse. Sem qualquer sombra de desprezo ou arrogância ao que é diferente dele. Só sendo ele mesmo. E sendo feliz assim. E isso não é pouco.

A nudez de Zé Celso no palco do TAM, assim como a de algumas outras pessoas evocadas por ele dentro da enorme ciranda que se formou depois de sua “conversa” sobre política, Neymar, vinho, samba e, sobretudo amor ao teatro e à vida, foi a coisa mais natural e espontânea que eu vi em muito tempo. Ali naquela hora, tudo fazia um enorme sentido. E até agora continua fazendo.

texto publicado no Novo Jornal*