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sábado, 7 de abril de 2012

Evoé, a nudez do Zé! *


Foto minha dele!



Por esses dias, estive bem perto do homem que nasceu numa cidade chamada Araraquara, cujo significado é “morada do sol”. Límpido e porque não dizer, “solar”, José Celso Martinez Correa é daquelas pessoas que não passam despercebidas. Talvez seja pelos cabelos brancos, pela corpulência mezzo magra e alta, pelos gestos carac-terísticos de levantar os braços e gesticular muito enquanto fala; talvez por abrir e fechar os olhos, como se tivesse acabado de descobrir o mundo, ou uma nova faceta desse velho mundo. Ou, simplesmente, pelo que significa sua trajetória de quase 60 anos dedicados ao teatro, sendo ele um dos responsáveis pela criação de um grupo de teatro amador, quando ainda cursava Direito na USP, em São Paulo, e que depois veio a se tornar o atual Teatro Oficina Uzyna Uzona, oficialmente com 54 anos completos, contabilizando peças memoráveis no Brasil e no mundo.

Ele é sim uma dessas sumida-des que a gente não costuma ver na TV. E essa fama de ficar nu no palco é fichinha. Não significa, nem encerra todo o processo que o levou e ter essa atitude desprendida para alguns, desavergonhada e despropositada para outros. Como o Novo Jornal disse tão bem, semana passada, no título da matéria de Renato Lisboa “Quebrando um tabuzinho básico”, Zé Celso é um cara que quebra tudo! Deixa em cacos e estilhaços a hipocrisia, o medo, a vergonha, o conservadorismo. E está longe de ser gratuito. Pensa e fala o que quer. Faz o que quer e o que gosta. Come os padrões e caga as conven-ções. E para fazer isso é preciso ter um pouco de cora-gem e muita bala na agulha.

É certo que me deu um pouco de ansiedade em estar diante dele, a princípio. Pela atitude sempre disposta a ir além do convencional. Assim que che-gou ao Teatro Alberto Mara-nhão, onde figuraria como convidado ilustre dentro das comemorações dos 108 anos daquela casa e também do Dia Mundial do Teatro, ele foi interpelado por um dos repórteres e, ao ouvir o início de uma pergunta: “o que o senhor...”? Ele logo corrigiu de maneira enfática e irreve-rente: “senhor, não, senhora!”, numa clara referência à sua homossexualidade. Gay sim, e daí? Velho, ator, diretor tea-tral, exilado político na época da ditadura, quebrador de tabus sim, e daí? É como se indagasse. Sem qualquer sombra de desprezo ou arrogância ao que é diferente dele. Só sendo ele mesmo. E sendo feliz assim. E isso não é pouco.

A nudez de Zé Celso no palco do TAM, assim como a de algumas outras pessoas evocadas por ele dentro da enorme ciranda que se formou depois de sua “conversa” sobre política, Neymar, vinho, samba e, sobretudo amor ao teatro e à vida, foi a coisa mais natural e espontânea que eu vi em muito tempo. Ali naquela hora, tudo fazia um enorme sentido. E até agora continua fazendo.

texto publicado no Novo Jornal*

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