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sábado, 26 de maio de 2012

Severina vai a Veneza



Severina nasceu Severina. Mas poderia ser Marina, Maria, Joaquina, Escolástica, Cristina. Nasceu porque seus pais uns meses antes conheceram-se num parque de diversões. Passearam na Roda-Gigante chupando din-din de batata-doce e de coco-queimado e com os lábios e dedos adormecidos pelo gelo e pelo sentimento que começava a desabrochar, apertaram-se um contra o outro, por medo de despencar lá de cima. Naquela mesma noite, Manoel Jerônimo – era esse o nome do pai da moça – já enamorado até as tampas por Florisbela, aperreou a paciência do locutor do mega-fone e ofertou uma linda “página musical para alguém que está com calça amarela, blusa vermelha e laço de fita verde nos cabelos castanhos, de outro alguém que muito lhe quer bem”. Não deu outra, nasceu Severina. Não antes de uns uis e ais por detrás da calçada da Sacristia. Lugar onde os casais menos abastados costumavam trocar juras de amor eterno, antes que a morte os separasse.

Já começando a amadurecer o talo, nos tempos em que os hormônios começaram a precisar ser combatidos, debaixo das axilas, com suco de limão sem açúcar, mãe decidiu mandar menina para casa de família. Ninguém sabia mas, Severina, às escondidas, passou a perder o sono e pular num pé só de alegria, pensando na cidade grande. Tão grande que seria capaz de engoli-la se não prestasse atenção ou soltasse a mão da dona fulana de tal que foi busca-la em casa, lá nos tanques de pedra e chão de terra batida. Para a cidade grande.

Quando se tornou moça formada, corpo atraía olhares do seu moço barrigudo dono da casa e inveja da dona coisa. Não deu outra, saiu de lá. Cansada de lavar banheiro, casa, pratos, cachorro, roupa. Comer sobejo. Espantar gripe, catapora, adenoide (pai diria, “doença de rico”) com poeira, mais trabalho e estudo (só se fosse à noite). Foi morar num pensionato. A cidade passou a ter nome: Natal. Algumas semanas depois de andar em coletivos apertados (naquela época não havia ainda bestas apertadas) a cidade já não era tão grande assim; nem perdia mais o sono. Caía durinha no colchão emprestado, nas poucas horas que lhe restavam depois de apertados dias de trabalho, estudo e trabalho, assim mesmo em sanduíche.

Depois do fim da primavera-verão de amor com Nestor, moço trabalhador de vigia na Casa de Saúde, Severina conheceu o longo e tenebroso inverno que prosseguem as paixões desiludidas. Até então não conhecia o que era desilusão porque não sabia o que era ilusão. Antes, só conhecia aquele assalto que começa no olhar ora tímido ora dissimulado, ardente e predador dos enamorados. Com o moço, ela entendeu o significado do Par de Picasso. Mas não entendia muito bem dessas coisas de cubismo. Entendia mesmo era de beijos e abraços.

Foi depois de um inverno abafado de chuva com sol que ela encasquetou de ir embora para Veneza. Coisa de quem está vareando – diria sua avó Eustáquia se ainda viva estivesse. Nesse momento da história tudo fica meio incerto. Nebuloso, como a adolescência de Nosso Senhor Jesus Cristo. Alguns contaram que Severina decidiu ir embora para encontrar um grande amor, outros arriscam dizer que ela queria conhecer novas paisagens; ou quem sabe, simplesmente, ela quisesse se tornar apenas uma viajante. Mas, o que ela queria mesmo era ser feliz e pronto. Pois, ao contrário da maioria, que por vezes parece desistir do intento de ser mais feliz e contenta-se com aquilo que mais se parece com um arremedo do esboço que acreditou um dia ser capaz de desenhar, Severina não. Nunca foi de se conformar.

Há quem diga que ela chegou a Veneza numa tarde cor de laranja e poucas espumas no céu. Parecidas com aquelas que vemos em Natal, em dias comuns de tardes comuns. Severina gostava de ver tarde descendo e ela descendo junto na ladeira da Gustavo Cordeiro de Farias, na Ribeira. E ter aquela sensação de ar e tempo e órgãos suspensos numa corda bamba por alguns segundos. A viagem fora até mais curta do que pensara. Bastou a ladeira, mais algumas légua adiante e, ela já pode ver o Mar Adriático. Escuro, um pouco fétido para passar desapercebido e a Ponte dos Suspiros que mais parecia uam caveira de dinossauro, logo mais adiante.

Do outro lado do Arquipélago, dunas e algumas casas de telhado vermelho (dunas?, Tudo bem, não era muito boa em geografia mesmo). Subiu no barco. Nas gôndolas cabiam mais pessoas do que pudera imaginar. Não se importou muito com iss e resolveu apreciar o passeio. E se pôs a lembrar dos pares célebres que povoavam a história e o imaginário das pessoas e escritores: Helena e Ulysses; Tristão e Isolda; Desdêmona e Otelo; Marília e seu Dirceu; Margaria de Pato Donald; Frida e Diego; Camille e Rodin; o mundo era mesmo cheio de imaginação, cheio de amores. E riu consigo mesma e displicentemente para o gondoleiro. E tomada por um desejo quase febril de não mais voltar de sua viagem – em meio à embriaguez no estomago tomado pelo querosene – atirou-se à última esperança que guardava dentro de sua alma pequenina, escondida num corpo mirrado e cheio de manchas de pereba daquelas catapora mal sarada. Severina jogou-se ao mar. Em poucos segundos, o suficiente para ninguém notar sua ausência, a moça foi engolida naquela escuridão – retiro de poucos peixes marinhos. E no mergulho vencedor, Severina quase teve certeza de ser tomada pela mão de Iemanjá, aquela mesma mulher de concreto da Praia do Meio, a quem numa dessas noites de fim de ano, sidra e fogos artificiais, fizera um pedido para ser mais feliz. Decerto era mulher de palavra. Não esqueceu. Fora cumprir em Veneza.

Esse texto foi publicado na Revista Preá # 1, em 2003.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre memória, seca e tristeza



Morei o pedaço da minha vida onde a infância é curtida no interior. É de lá de Bom Jesus que guardo as lembranças mais fulgentes das estrelas que disputam o solo do céu, dos banhos de lagoa, de rio e açude; das bonecas de pano costuradas pela vizinha, Ilza “lavadeira”, que tinham longos cabelos azuis de pernas de calças jeans desfiadas. Da minha infância também guardo os memoráveis banhos de chuva debaixo das bicas das casas, num tempo em que as cisternas abriam a boca num sorriso largo pela dádiva enviada dos céus.

Em tempos de chuva, dava para sentir a alegria iluminando o sorriso desgastado dos agricultores, que corriam para fazer seus roçados, sem necessariamente depender das vazantes. Em casa, a euforia não se dava apenas pelas jarras cheias. A chuva se traduziria dali a alguns dias em mesa farta com feijão verde, canjica, pamonha e milho cozido. O primeiro era comido fazendo o que chamávamos de “macacos” envolvido em farinha de mandioca e embebido no molho da galinha torrada e criada no quintal.

A reunião em casa em torno do preparo das iguarias de milho, na época do São João era um verdadeiro feito. O ritual começava desde a escolha das melhores palhas que envolviam a espiga. Já que depois vestiriam a pamonha. Eu, particularmente, achava trabalhoso por demais quebrar o milho, esmagá-lo no ralador feito de folhas de flandres, peneira-lo na arupema para extrair seu leite amarelo, depois mistura-lo ao leite de coco e de gado e, finalmente, derrama-lo no berço esplêndido da palha verde – já devidamente costurada, ou como era de costume da minha avó, apenas dobrada de maneira que sustentasse em suas vestes o líquido que, em longa permanência no caldeirão de água fervente, se transformaria no biscoito fino do milho: a pamonha. E para nosso paladar ela tinha de ser doce. A canjica era um pouco mais fácil e cabia a mim, depois que estava pronta e devidamente esparramada nos pratos para receber os tufos de pó de canela, a árdua tarefa de raspar o tacho com uma colher, para facilitar a limpeza depois. Nunca experimentei uma pamonha ou canjica – de padaria – que tivesse aquele gosto: que era um misto de esforço conjunto, tradição, agradecimento e celebração à chuva e aos santos juninos.  

Nesses tempos em que a seca estorrica a terra e a razão de viver dos lavradores, penso com pesar na miséria que já bate à porta de milhares de pessoas no interior do Estado. Já nem aguento mais ler ou assistir algum noticiário que trate do tema, sem me abater um sofrimento telúrico que me rasga as lembranças e a alma. E então, me apercebo que uma imensa parte de mim que mora nessas lembranças resseca, sente fome e se entristece e com a seca.

Texto publicado no Novo Jornal hoje.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Republicando (um poema)


Leitura obrigatória


A fome me abraça quase terna
Ignora o divórcio de minhas mãos em sua cintura

Eu, discreta, porém, resoluta
Oculto me mim mesma o barulho que irrompe
Da boca do estômago

Abro a carta sem pressa
E sinto o gosto do vento, vindo da janela
Falta pouco, falta bem pouco
Para que minha língua toque o doce do teu silêncio

terça-feira, 15 de maio de 2012

Mudar a Vida (texto publicado hoje no Novo Jornal)




Fazer uma fezinha na loteria mais próxima, sonhando com os milhões acumulados, mudar de estado, país, ou simplesmente de logradouro. Quantas vezes nós, eu e você caro leitor, pensamos em mudar de vida? Dar uma guinada. Deixar objetos, cores, lugares, obrigações e nomes para trás e seguir adiante em busca de um novo horizonte, longe do espelho atual. O slogan do açúcar derivado da sucralose diz que “a vida pode ser doce”, o outro comercial de cosméticos diz que “a vida pode ser bonita”. Enquanto isso, experimentamos o gosto duro das indecisões e do silencioso acaso. Muitas vezes, estrangeiros na terra do “tudo é possível, basta sonhar”.

Indecisões podem ser bastante destrutivas. Até o amor não suporta e é capaz de ir embora por conta de uma indecisão. Mil vezes o abismo das implicações reais e adultas que os degraus das ilusões. O fato é que a vida de um homem é decerto mais inverossímil que o fogo. Este fenômeno que nos arrebata desde os tempos primevos e, quando se manifesta até mesmo num pequeno palito de fósforo, nos causa a impressão do quão somos frágeis e não entendemos certas coisas e seus mistérios e suas belezas.

Se é verdade que prédios, pontes, grandes obras de arte, castelos monumentais assim como estrondosos sucessos de cantores de música sertaneja, de livros de autoajuda e bundas rebolantes pousadas em revistas masculinas têm raiz num sonho que um dia se sonhou, então é verdade também que sonhar nem sempre pode ser a redenção. Às vezes é preciso refletir antes e depois de sonhar. Para não cair na esparrela televisiva de que basta sonhar e um dia alguém vai ler a sua cartinha e cairá do céu a casa própria, a cirurgia plástica, o guarda-roupa renovado, o curso de computação. Sonhar também tem seu preço.

Tem horas que só dá para vislumbrar a parede intransponível para o outro universo. O mar como obstáculo para o paraíso distante. Esse lugar onde nossa vida poderia ser muito mais saudável. Onde poderíamos nos livrar da maledicência alheia, das contas, das obrigações, de acordar cedo, dos fofoqueiros de plantão, dos déspotas, dos devedores, dos que precisam usar o pescoço dos outros como trampolim, dos gabolas e dos puxassacos. Mas, se esse paraíso distante não passa mesmo de uma quimera, então talvez o caminho para mudar de vida seja longo e dure uma vida inteira.

A boa notícia é que dá para mudar a vida que se tem. Bastam quantidades sistemáticas de coisas que não se vendem em potes de cremes ou nas concessionárias: pensamento positivo, praticar o perdão aos outros e a si mesmo, fazer as paz consigo mesmo, sobretudo, sobre o imutável tempo que já passou e tentar ser generoso e agradecido pelo que já se tem.


Uma (in)definição



Ficou conhecida como a "moça dos gatos".
Mas, bem que poderia ser:
a moça do café, do cigarro, do atraso do busão, 
a moça da ojeriza à mentira,
à covardia e à ingratidão.


A moça dos passos
em direção à porta
do arcoíris, dos sonhos e dos poemas de Ada Lima e Antônio Cícero (seguindo uma ordem alfabética infinita de sugestões)


A moça que não é lá bem afeita a definições, palavras formais ou cheque predatado
E tem certa (como os verdadeiros gatos) intolerose à lactância


Thiago Pethit - Não Se Vá (Official Music Video)



Êeee! Mais uma do thiago pethit!

Não tem lua - videoclip



A música ganhando uma versão menos trash até que ficou bonitinha. Mas, o desenho animado é show!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Não saia de mim sem você




As palavras às vezes nos saem como algo que brota de um deserto de silêncios. Quieta, penso uma coisa. Ao abrir a boca, a boca é dona de um acaso verbal que surpreende. Não ao outro, a mim principalmente.

"Não saia de mim sem você" é uma estrada onde eu não saberia distinguir o desenho dos passos entre minha alma e a boca. Eu queria dizer outra coisa prosaica e frugal: "Não saia sem mim". Deveria ter sido só isso. É. Mas disse outras coisas que não seria capaz de explicar com palavras. É. Foi só isso.

O Rosto de Deus *




Je te connais et t´admire em silence. (Arthur Rimbaud).

Na aula de catecismo todos tínhamos por volta de oito anos, e a professora não conseguia explicar como o menino Deus havia nascido de uma virgem "concebida sem pecado". E imaginar que naquela época pensávamos que pecado era colar na prova de matemática ou ser malcriados com os pais. Sequer, é bem verdade, sabíamos ao certo o significado da palavra concebida, muito menos concepção ou até mesmo contracepção. Ela bem que tentou algumas explicações sem muito conseguir nos convencer até que, como quem tem uma revelação, segredou-nos: “Maria pariu Jesus pela boca. Mas não saiam dizendo isso por aí”. Ficamos tão estupefatos que passamos para a lição catequética seguinte. Era melhor deixar aquele assunto para lá, antes que a professora que se chamava Dona Neusa, tivesse mais alguma revelação metafísica sobre Eva e a serpente.

Depois disso, teve a fase em que os pré-adolescentes queriam montar um coral na Igreja. Ensaiamos, arrumamos um nome para o coral, fizemos camiseta, nossos pais ficaram orgulhosos, mas o grupo de vozes harmônicas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus não passou das cinco apresentações. O padre não acreditava no nosso futuro promissor como coralistas do Vaticano. Nessa época eu vivia pensando em como deveria ser o rosto de Deus. Seria ele um ancião enigmático que nos olhava por entre as nuvens? Seria ele parecido com aquele personagem do Chico Anysio? O que falava profecias no final do programa? Ou seria igual ao personagem Tim Tones? O pastor da teologia da prosperidade, precursor e inspirador de tantos outros procuradores de Deus que atualmente comandam programas televangélicos. Se bem que, o rosto de Deus até nem tanto, mas, certamente, o primo Rodolfo, com aqueles olhos azuis, deveria ter um DNA com a divindade suprema. Talvez, quem sabe, eu sonhasse com o rosto de Deus, para voltar a me esquecer na manhã seguinte e manter viva aquela intensa vontade de perscrutar as dúvidas e aquela imensidão de dias e horas sem relógio. Nunca gostei de relógios. Naquela época não conhecia ainda a existência dos anacoretas e seus possíveis diálogos com Deus no deserto. E também não acreditava que os outros pudessem fitar o “rosto perdido” da fé, da desrealidade e do incognoscível.

E segui minha vida. Desistindo daquela teodiceia delirante, com raízes no judaísmo e cristianismo, deitei o olhar sob os rostos da vida e das páginas. Era uma fase de ler os beatniks e recitar “O Uivo” de Allen Ginsberg nas praças, tomando vinho barato com amigos cabeludos. Era o rompimento com um divino sem rosto. Sem me assentar no sofá dos ditames burgueses, não sentia necessidade de embarcar em viagens dramáticas com algum tipo de droga e conhecer o rosto disforme do entorpecimento. Isso aconteceu bem depois. Era um momento no qual queria que o amor me encontrasse. E também descobri a poesia. Lúdica, acolhedora, mágica, palpável.

Muito tempo depois, me reconciliei com o imponderável, sem deixar de lado os conflitos. Essa dicotomia entre ciência e fé. Lucas e Nietzche. Sant´Anna e Frida Kahlo. Max e São Francisco de Assis. E, sem necessariamente seguir agora uma ordem cronológica fiz uma tatuagem que escondo nas sombras da intimidade e que minha mãe, toda vez que a redescobre, jura que se trata de uma âncora. Até que poderia ser. Não tenho mais idade para duvidar ou desdenhar das interpretações maternas. Algumas mães têm alguma coisa de divino e seus aromas.
Não busco mais o rosto de Deus. Dessangro-me desse sacrifício ou dessa habilidade. Seu silêncio me basta.

* Texto escrito especialmente para a revista Living For, número 5, que já está circulando por ai. Editada pelo meu mais que querido amigo Cristiano Félix, que também é muito "Feliz"... Obrigada Crico, pelo carinho e confiança. Foi uma honra colaborar. E na próxima Living uma revista super muderrrna feita especialmente para I-Pads e Tablets em generales, vou dar uma dica de livro. Yuhuuuu!


Ressaca Laboral *




Essa semana teremos dois dias de ressaca na volta para o trabalho. O primeiro foi ontem, depois do final de semana. E o próximo será amanhã, depois do feriado de hoje: Dia Mundial do Trabalhador. A ressaca da qual falo não é aquela, necessariamente, vinculada ao porvir de uma boa manguaçada. É daquela que quase todo trabalhador sente depois dos dois dias habituais de folga no final de semana. Daquela preguiça descomunal de levantar da cama e do desânimo que já se instala no domingo, assim que nos lem-bramos que a segunda-feira é dia de voltar ao trabalho e, portanto, é o dia mais chato da semana. Na terça em diante, a gente se conforma e se acostuma. 

Eu disse quase, porque é bem provável que alguém possa levantar a mão e declarar que “adora trabalhar”, que “o trabalho dignifica o homem”, dentre outros argumentos que martelamos de vez em quando para justificar ou encontrar algum sentido no trabalho que vá além de pagar contas. Na boa, se trabalhar fosse tão bom assim, ninguém jogava – nem sonhava – em ganhar na loteria e fazer muitas coisas com a grana. De todos os sonhos que já ouvi por ai, nunca um deles foi: poxa, se eu ganhasse na loto eu ia trabalhar muito mais do que trabalho agora.

Às vezes eu penso que traba-lhar vai de encontro à natureza humana. Assim como, nos dias de hoje, não trabalhar é algo que também vai de encontro a essa mesma natureza contemporânea. Não dá para ser improdutivo nos dias de hoje. Até Paris Hilton, entre uma pose e outra para os cliques dos paparazzi, entre um exaustivo tuíte e outro sobre a última bolsa ba-lenciaga que comprou, posa de trabalhadora. Deve dar trabalho ser celebridade. Sobretudo quando não se é mais nada além disso.

Mas voltando à vida real, eu sei que já foi muito pior para o trabalhador no país. Houve uma época em que o salário mínimo passava longe de suprir as necessidades básicas mensais. Os departamentos sindicais dizem que o melhor ano para o trabalhador assalariado brasileiro foi em 1959, quando o mínimo daquele período equivaleria nos tempos de hoje a algo em torno de R$1.832,40. E tome mais ressaca se pensarmos que estamos bem longe de alcançarmos os patamares de 1959, com nosso mínimo de R$ 622 atuais. As pesquisas apontam que 40% desse valor resvalam na cesta básica. Não sou economista, mas sei que existe um aumento real da nossa moeda, que há um aumento no consumo, dentre outros indicativos otimistas. Mas sei também que muitos dos 48 milhões de assalariados brasileiros estão sempre empurrado para o pró-ximo mês alguma continha que não fechou; aquela pintura na casa; o conserto do portão; a bicicleta do caçula. O Dia do Trabalho foi inventado para se comemorar conquistas trabalhistas, como diminuição da jornada de trabalho, pisos salariais, e por ai vai. Enquanto não se vai muito além disso, a ressaca de amanhã está perdoada.

* Publicado no Novo Jornal - dia 1 de maio