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terça-feira, 15 de maio de 2012

Mudar a Vida (texto publicado hoje no Novo Jornal)




Fazer uma fezinha na loteria mais próxima, sonhando com os milhões acumulados, mudar de estado, país, ou simplesmente de logradouro. Quantas vezes nós, eu e você caro leitor, pensamos em mudar de vida? Dar uma guinada. Deixar objetos, cores, lugares, obrigações e nomes para trás e seguir adiante em busca de um novo horizonte, longe do espelho atual. O slogan do açúcar derivado da sucralose diz que “a vida pode ser doce”, o outro comercial de cosméticos diz que “a vida pode ser bonita”. Enquanto isso, experimentamos o gosto duro das indecisões e do silencioso acaso. Muitas vezes, estrangeiros na terra do “tudo é possível, basta sonhar”.

Indecisões podem ser bastante destrutivas. Até o amor não suporta e é capaz de ir embora por conta de uma indecisão. Mil vezes o abismo das implicações reais e adultas que os degraus das ilusões. O fato é que a vida de um homem é decerto mais inverossímil que o fogo. Este fenômeno que nos arrebata desde os tempos primevos e, quando se manifesta até mesmo num pequeno palito de fósforo, nos causa a impressão do quão somos frágeis e não entendemos certas coisas e seus mistérios e suas belezas.

Se é verdade que prédios, pontes, grandes obras de arte, castelos monumentais assim como estrondosos sucessos de cantores de música sertaneja, de livros de autoajuda e bundas rebolantes pousadas em revistas masculinas têm raiz num sonho que um dia se sonhou, então é verdade também que sonhar nem sempre pode ser a redenção. Às vezes é preciso refletir antes e depois de sonhar. Para não cair na esparrela televisiva de que basta sonhar e um dia alguém vai ler a sua cartinha e cairá do céu a casa própria, a cirurgia plástica, o guarda-roupa renovado, o curso de computação. Sonhar também tem seu preço.

Tem horas que só dá para vislumbrar a parede intransponível para o outro universo. O mar como obstáculo para o paraíso distante. Esse lugar onde nossa vida poderia ser muito mais saudável. Onde poderíamos nos livrar da maledicência alheia, das contas, das obrigações, de acordar cedo, dos fofoqueiros de plantão, dos déspotas, dos devedores, dos que precisam usar o pescoço dos outros como trampolim, dos gabolas e dos puxassacos. Mas, se esse paraíso distante não passa mesmo de uma quimera, então talvez o caminho para mudar de vida seja longo e dure uma vida inteira.

A boa notícia é que dá para mudar a vida que se tem. Bastam quantidades sistemáticas de coisas que não se vendem em potes de cremes ou nas concessionárias: pensamento positivo, praticar o perdão aos outros e a si mesmo, fazer as paz consigo mesmo, sobretudo, sobre o imutável tempo que já passou e tentar ser generoso e agradecido pelo que já se tem.


2 comentários:

ANNA disse...

É..,nem sempre é fácil levantar de manhã,respirar fundo,se olhar no espelho e se reinventar a despeito do que te ronda,mas,a outra opção é "chorar na cama que é lugar quente" como dizia minha avó e aí,não tem como sair do lugar.
Chorar é importante mas enjoa,rir,mesmo do que,as vezes, não tem graça,deixa mais gostoso,mesmo o que não tem gosto.
Abraços,Anna Kaum.

Carito disse...

Lembrei do filme "O Leopardo" de Visconti, baseado no livro homônimo de Tomasi di Lampedusa, e a célebre frase: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude." Acho que já escrevi isso por aqui... Beijos, querida amiga! É sempre uma ótima leitura essas suas paragens literárias/existenciais...