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quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Rosto de Deus *




Je te connais et t´admire em silence. (Arthur Rimbaud).

Na aula de catecismo todos tínhamos por volta de oito anos, e a professora não conseguia explicar como o menino Deus havia nascido de uma virgem "concebida sem pecado". E imaginar que naquela época pensávamos que pecado era colar na prova de matemática ou ser malcriados com os pais. Sequer, é bem verdade, sabíamos ao certo o significado da palavra concebida, muito menos concepção ou até mesmo contracepção. Ela bem que tentou algumas explicações sem muito conseguir nos convencer até que, como quem tem uma revelação, segredou-nos: “Maria pariu Jesus pela boca. Mas não saiam dizendo isso por aí”. Ficamos tão estupefatos que passamos para a lição catequética seguinte. Era melhor deixar aquele assunto para lá, antes que a professora que se chamava Dona Neusa, tivesse mais alguma revelação metafísica sobre Eva e a serpente.

Depois disso, teve a fase em que os pré-adolescentes queriam montar um coral na Igreja. Ensaiamos, arrumamos um nome para o coral, fizemos camiseta, nossos pais ficaram orgulhosos, mas o grupo de vozes harmônicas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus não passou das cinco apresentações. O padre não acreditava no nosso futuro promissor como coralistas do Vaticano. Nessa época eu vivia pensando em como deveria ser o rosto de Deus. Seria ele um ancião enigmático que nos olhava por entre as nuvens? Seria ele parecido com aquele personagem do Chico Anysio? O que falava profecias no final do programa? Ou seria igual ao personagem Tim Tones? O pastor da teologia da prosperidade, precursor e inspirador de tantos outros procuradores de Deus que atualmente comandam programas televangélicos. Se bem que, o rosto de Deus até nem tanto, mas, certamente, o primo Rodolfo, com aqueles olhos azuis, deveria ter um DNA com a divindade suprema. Talvez, quem sabe, eu sonhasse com o rosto de Deus, para voltar a me esquecer na manhã seguinte e manter viva aquela intensa vontade de perscrutar as dúvidas e aquela imensidão de dias e horas sem relógio. Nunca gostei de relógios. Naquela época não conhecia ainda a existência dos anacoretas e seus possíveis diálogos com Deus no deserto. E também não acreditava que os outros pudessem fitar o “rosto perdido” da fé, da desrealidade e do incognoscível.

E segui minha vida. Desistindo daquela teodiceia delirante, com raízes no judaísmo e cristianismo, deitei o olhar sob os rostos da vida e das páginas. Era uma fase de ler os beatniks e recitar “O Uivo” de Allen Ginsberg nas praças, tomando vinho barato com amigos cabeludos. Era o rompimento com um divino sem rosto. Sem me assentar no sofá dos ditames burgueses, não sentia necessidade de embarcar em viagens dramáticas com algum tipo de droga e conhecer o rosto disforme do entorpecimento. Isso aconteceu bem depois. Era um momento no qual queria que o amor me encontrasse. E também descobri a poesia. Lúdica, acolhedora, mágica, palpável.

Muito tempo depois, me reconciliei com o imponderável, sem deixar de lado os conflitos. Essa dicotomia entre ciência e fé. Lucas e Nietzche. Sant´Anna e Frida Kahlo. Max e São Francisco de Assis. E, sem necessariamente seguir agora uma ordem cronológica fiz uma tatuagem que escondo nas sombras da intimidade e que minha mãe, toda vez que a redescobre, jura que se trata de uma âncora. Até que poderia ser. Não tenho mais idade para duvidar ou desdenhar das interpretações maternas. Algumas mães têm alguma coisa de divino e seus aromas.
Não busco mais o rosto de Deus. Dessangro-me desse sacrifício ou dessa habilidade. Seu silêncio me basta.

* Texto escrito especialmente para a revista Living For, número 5, que já está circulando por ai. Editada pelo meu mais que querido amigo Cristiano Félix, que também é muito "Feliz"... Obrigada Crico, pelo carinho e confiança. Foi uma honra colaborar. E na próxima Living uma revista super muderrrna feita especialmente para I-Pads e Tablets em generales, vou dar uma dica de livro. Yuhuuuu!


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