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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ressaca Laboral *




Essa semana teremos dois dias de ressaca na volta para o trabalho. O primeiro foi ontem, depois do final de semana. E o próximo será amanhã, depois do feriado de hoje: Dia Mundial do Trabalhador. A ressaca da qual falo não é aquela, necessariamente, vinculada ao porvir de uma boa manguaçada. É daquela que quase todo trabalhador sente depois dos dois dias habituais de folga no final de semana. Daquela preguiça descomunal de levantar da cama e do desânimo que já se instala no domingo, assim que nos lem-bramos que a segunda-feira é dia de voltar ao trabalho e, portanto, é o dia mais chato da semana. Na terça em diante, a gente se conforma e se acostuma. 

Eu disse quase, porque é bem provável que alguém possa levantar a mão e declarar que “adora trabalhar”, que “o trabalho dignifica o homem”, dentre outros argumentos que martelamos de vez em quando para justificar ou encontrar algum sentido no trabalho que vá além de pagar contas. Na boa, se trabalhar fosse tão bom assim, ninguém jogava – nem sonhava – em ganhar na loteria e fazer muitas coisas com a grana. De todos os sonhos que já ouvi por ai, nunca um deles foi: poxa, se eu ganhasse na loto eu ia trabalhar muito mais do que trabalho agora.

Às vezes eu penso que traba-lhar vai de encontro à natureza humana. Assim como, nos dias de hoje, não trabalhar é algo que também vai de encontro a essa mesma natureza contemporânea. Não dá para ser improdutivo nos dias de hoje. Até Paris Hilton, entre uma pose e outra para os cliques dos paparazzi, entre um exaustivo tuíte e outro sobre a última bolsa ba-lenciaga que comprou, posa de trabalhadora. Deve dar trabalho ser celebridade. Sobretudo quando não se é mais nada além disso.

Mas voltando à vida real, eu sei que já foi muito pior para o trabalhador no país. Houve uma época em que o salário mínimo passava longe de suprir as necessidades básicas mensais. Os departamentos sindicais dizem que o melhor ano para o trabalhador assalariado brasileiro foi em 1959, quando o mínimo daquele período equivaleria nos tempos de hoje a algo em torno de R$1.832,40. E tome mais ressaca se pensarmos que estamos bem longe de alcançarmos os patamares de 1959, com nosso mínimo de R$ 622 atuais. As pesquisas apontam que 40% desse valor resvalam na cesta básica. Não sou economista, mas sei que existe um aumento real da nossa moeda, que há um aumento no consumo, dentre outros indicativos otimistas. Mas sei também que muitos dos 48 milhões de assalariados brasileiros estão sempre empurrado para o pró-ximo mês alguma continha que não fechou; aquela pintura na casa; o conserto do portão; a bicicleta do caçula. O Dia do Trabalho foi inventado para se comemorar conquistas trabalhistas, como diminuição da jornada de trabalho, pisos salariais, e por ai vai. Enquanto não se vai muito além disso, a ressaca de amanhã está perdoada.

* Publicado no Novo Jornal - dia 1 de maio

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