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terça-feira, 22 de maio de 2012

Sobre memória, seca e tristeza



Morei o pedaço da minha vida onde a infância é curtida no interior. É de lá de Bom Jesus que guardo as lembranças mais fulgentes das estrelas que disputam o solo do céu, dos banhos de lagoa, de rio e açude; das bonecas de pano costuradas pela vizinha, Ilza “lavadeira”, que tinham longos cabelos azuis de pernas de calças jeans desfiadas. Da minha infância também guardo os memoráveis banhos de chuva debaixo das bicas das casas, num tempo em que as cisternas abriam a boca num sorriso largo pela dádiva enviada dos céus.

Em tempos de chuva, dava para sentir a alegria iluminando o sorriso desgastado dos agricultores, que corriam para fazer seus roçados, sem necessariamente depender das vazantes. Em casa, a euforia não se dava apenas pelas jarras cheias. A chuva se traduziria dali a alguns dias em mesa farta com feijão verde, canjica, pamonha e milho cozido. O primeiro era comido fazendo o que chamávamos de “macacos” envolvido em farinha de mandioca e embebido no molho da galinha torrada e criada no quintal.

A reunião em casa em torno do preparo das iguarias de milho, na época do São João era um verdadeiro feito. O ritual começava desde a escolha das melhores palhas que envolviam a espiga. Já que depois vestiriam a pamonha. Eu, particularmente, achava trabalhoso por demais quebrar o milho, esmagá-lo no ralador feito de folhas de flandres, peneira-lo na arupema para extrair seu leite amarelo, depois mistura-lo ao leite de coco e de gado e, finalmente, derrama-lo no berço esplêndido da palha verde – já devidamente costurada, ou como era de costume da minha avó, apenas dobrada de maneira que sustentasse em suas vestes o líquido que, em longa permanência no caldeirão de água fervente, se transformaria no biscoito fino do milho: a pamonha. E para nosso paladar ela tinha de ser doce. A canjica era um pouco mais fácil e cabia a mim, depois que estava pronta e devidamente esparramada nos pratos para receber os tufos de pó de canela, a árdua tarefa de raspar o tacho com uma colher, para facilitar a limpeza depois. Nunca experimentei uma pamonha ou canjica – de padaria – que tivesse aquele gosto: que era um misto de esforço conjunto, tradição, agradecimento e celebração à chuva e aos santos juninos.  

Nesses tempos em que a seca estorrica a terra e a razão de viver dos lavradores, penso com pesar na miséria que já bate à porta de milhares de pessoas no interior do Estado. Já nem aguento mais ler ou assistir algum noticiário que trate do tema, sem me abater um sofrimento telúrico que me rasga as lembranças e a alma. E então, me apercebo que uma imensa parte de mim que mora nessas lembranças resseca, sente fome e se entristece e com a seca.

Texto publicado no Novo Jornal hoje.

6 comentários:

Anônimo disse...

Vc é phoda!!!!!!!!!!

ANNA disse...

Lendo voce,quase me vi de volta à um tempo em se misturam a minha infância e a de minha mãe.Lembrança é terreno sagrado,espaço intocável onde a alma cansada se banha de esperança,protegida da sêca maldita da ganância e do escárnio de quem pode dar,mas recolhe as mãos.
Da sêca da terra deus se apieda e cuida,da sêca do homem que escolhe o não,nem reza,nem chuva temina.
Abraços,Anna Kaum.

Mme. S. disse...

Anna, suas palavras sempre tão acolhedoras e generosas comigo. Falar sobre esse assunto para mim, e para você, pelo que vejo, são temas que tocam a alma e a memória né? Abração viu? Volte sempre...

Mme. S. disse...

Agora era só o que me faltava: desde semana passada que não estou conseguindo postar nada no blogspot. o template da página de novas postagens simplesmente não aparece! Socorro Google!!!!

Mme. S. disse...

Uly, o seu comentário é este ai de cima? Estava nos spams...

Dilma, não achei o seu de jeito nenhum.

Mesmo assim, obrigada pela visita. A casa me pertence tanto quanto a vocês.

bjs, S.

Carito disse...

Texto emocionante, Sheylinha! Me sensibilizei, me transportei... Beijos!