Google+ Followers

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Eu quero ser meio Leila Diniz - parte 1




Juliana quer casar e ter filhos. No momento está empolgadíssima com os preparativos da festa de casamento que, como a imensa maioria das noivas, quer que seja perfeito. Andréa não quer casar, tampouco ter filhos. Aos 32 anos está se preparando para o doutorado na Espanha. Sofia foi apresentada a Iara numa festa de uma amiga. Tinha acabado de sair de um relacionamento conturbado e não imaginava que pudesse se apaixonar novamente. Agora planejam a reforma do apartamento. O maior dilema delas, no momento, é decidir pela cor das paredes do banheiro. Linda descobriu que não ama mais Beto. Já conversou com as duas filhas a respeito e acha que a melhor coisa a fazer é terminar com o casamento de vinte anos, antes que ele acabe com as perspectivas dela de levar uma vida com tranquilidade, respeito e harmonia. Camila acha que deveria existir uma espécie de delivery para homens. Numa sexta à noite, sozinha em casa, bateu aquela fome (não de pizza), ligaria para o gatinho e pronto, situação resolvida.

Todos esses nomes femininos acima são frutos da minha imaginação. Mas as situações são reais no cotidiano das mulheres brasileiras. E são possíveis, em boa parte, por conta da atriz Leila Diniz, que não tinha medo de ser autêntica, de falar dos seus desejos, de querer ser feliz e livre e que não se impôs pelo feminismo textual e sim por ações que, ao passo que chocavam e escandalizavam os ditames vigentes nos anos 1960, deram visibilidade a desejos e direitos inerentes à mulher. Até então castrados e proibidos.

Ela nasceu em Niterói em 1945. Fez magistério e dava aulas para o jardim de infância. Aos dezessete anos conheceu o cineasta Domingos de Oliveira, com quem se casou e de professorinha passou a atriz. Muito talentosa fez diversas peças teatrais, cinema e telenovelas na rede Globo. Em 1972, aos 27 anos, já casada com o cineasta moçambicano Ruy Guerra, morre em um acidente aéreo, na ilha de Nova Délhi, quando voltava de uma viagem da Austrália, onde fora receber um prêmio de cinema.

Leila Diniz teve uma curta vida pública. Mas capaz de romper paradigmas, cujos frutos degustamos até hoje. Muita gente conhece a famosa fotografia de Leila Diniz, em Ipanema, exibindo um barrigão de sete meses. A imagem que parece prosaica agora reflete a quebra de um costume. Nenhuma mulher grávida tinha coragem de exibir sua barriga. Usavam batas para esconder a prova apoteótica de que haviam fornicado.

Leila não tinha medo do pecado, porque não era santa e nem queria ser. Leila só queria ser feliz, como eu, Juliana, Andréa, Linda, Iara, Cássia e tantas outras. E que “o amor fosse simples e honesto”, como disse certa vez.

Texto publicado no Novo Jornal, no dia 5 de junho de 2012

2 comentários:

ANNA disse...

NA RETINA A BARRIGA



Quando menina,depois de adulta também, era sempre refém de um olhar sem cabresto que vagava sem rumo por onde os cheiros e gostos lhe chamassem e pousava aos supetões em estranhas formas. Não me lembro da foto nem do espanto que causou, mas, me lembro do sorriso e dos gestos e da voz que dizia o que queria e não tinha medo de ser quem era e querer o que sentia. Gostava daquilo, queria ser aquilo, era divertido ver a estranheza e não entender porque era tão estranho o que era tão simples. Passou feito comenta de ventos fortes que arreganhou portas e destruiu certezas. Não sei o que teria acontecido se tivesse ficado, se teria se apagado, ou desistido, ou entristecido, ou não, mas, enquanto ficou ensinou, como professora que era, que na vida também o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta, que curvas são bonitas por debaixo das mãos, mas confundem os pés,que o olho foi feito para olhar,o braço para abraçar e o amor para viver e viver e viver,....

Este é um texto que escrevi,fazem umas duas semanas,quando remexia na minha caixa de infâncias.
Abraços,Anna Kaum.

Mme. S. disse...

Anna Kaum, seu comentário/fragmento é infinitamente mais bonito do que tudo o que eu pudesse escrever sobre Leila.
abs.: Sheyla.