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terça-feira, 12 de junho de 2012

Eu quero ser meio Leila Diniz - Parte 2

Leila Diniz por Antônio Guerreiro



Semana passada, iniciei esse artigo que fala sobre a atriz Leila Diniz e o legado libertário que ela deixou para todas nós mulheres brasileiras e quiçá do mundo. Daqui a dois dias completará 40 anos de sua morte, ocorrida em 14 de junho de 1972, num acidente aéreo. Senti que eram poucas as linhas para esgotar o tema numa vez só e, portanto, retorno. Tem muito mais coisas para falar dela e de sua vida emblemática para a quebra de paradigmas e a conquista de direitos femininos.

O jeito despojado e corajoso de viver, pontuado por muitos palavrões deram-lhe fama de puta, subversiva. A ditadura quis lhe prender. Não aconteceu porque ficou escondida numa granja do amigo Flávio Cavalcanti, em Petrópolis. Em 1969 Leila Diniz deu uma entrevista ao Pasquim. Foram tantos palavrões, mais de 70 ao todo, que os caras puseram no lugar deles, asteriscos nas frases. Foi a partir desse episódio que se instaurou a censura prévia à imprensa, no conhecido "Decreto Leila Diniz". Foi nessa entrevista que, publicamente, Leila defendeu a hipótese antes só legada aos homens: "Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo". Numa clara demonstração de coerência entre o discurso e a prática.

Para quem a conhecia, basta ler as biografias e ver documentários a respeito, era dona de uma vivacidade e autenticidade que a destacavam entre as estrelas. Leila Diniz era meio doida e a que chocava o mundo com sua propalada liberdade sexual. Tem uma história emblemática sobre isso. Já com grande fama, Leila Diniz estava em cartaz com uma peça e, certa noite, no camarim, recebeu muitos buquês de rosas amarelas, que era as de sua cor preferida. Quem tinha enviado era um rico fazendeiro nordestino, crente a abafando que ela era uma espécie de prostituta de luxo. No final do espetáculo ele foi até o camarim conversar com ela e perguntou quanto ela cobrava para sair aquela noite com ele. Ela tentou desconversar, explicando que não podia sair, pois estava com uma filha pequena em casa para cuidar e ele, irritado com a rejeição, inquiriu de pronto: "Mas você não dá para todo mundo?". E ela respondeu: "É, eu dou para todo mundo. Mas não dou para qualquer um".

Eu sei que o elevador social, quando o assunto é ascensão profissional, ainda está quebrado para muitas mulheres. Que é difícil conjugar trabalho, liberdade financeira e a criação de filhos; que a casa suja e desarrumada nunca é uma responsabilidade do casal, e sim um desleixo da dona da casa.  Sei também que ainda se perpetua a representação misógina inerente à profissão da prostituta, que no nosso país, ainda não tem reconhecimentos legais trabalhistas e, com isso, ficam fadadas a uma vida ainda mais difícil na velhice, sem direito à aposentadoria, dentre outros benefícios. Sei também que se Leila Diniz ainda vivesse, certamente, ainda estaria por ai a defender o direito de todas nós de sermos respeitadas, inteiras, ou simplesmente felizes.

Texto publicado no Novo Jornal, hoje, dia 12 de junho.

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