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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando a gente sabe

Reprodução de Klint


A gente sabe que gosta de alguém quando dá vontade de chorar porque a outra pessoa está triste. Quando a nascente da tristeza não está dentro da gente, mas dá para sentir os córregos da dor passando pelas nossas veias, apertando o peito e a alma; alagando a paciência. Quando temos pressa de descobrir a cura pelas palavras e pelo abraço. É benquerer quando somos capazes de dar um braço ou uma perna para passar a gripe, a febre ou a dor do corpo do outro. A gente sabe quando gosta quando quer dividir o sofrimento e a fragilidade. Quando se incomoda com o tempo vagaroso que não traz a vacina, o remédio e o sorriso de volta.

A gente sabe que gosta de alguém quando viramos antropólogas interessadíssimas nas histórias e nas marcas de infância dele. De saber que aquela cicatriz no cotovelo foi fruto de um prego meio enferrujado que passou de raspão. E se preocupa porque ele poderia ter pego tétano. Mesmo fazendo tanto tempo. E mesmo não podendo mais fazer nada por aquele tempo que não foi seu. A gente sabe que gosta quando percebe claramente que além da escova de dentes no armário do banheiro, já está reservada, no mínimo, uma gaveta nos pensamentos diários, quando ele não está por perto.

E nessa gaveta dá para guardar coisas invisíveis a olho nu como o cheiro que ele tem no cantinho por tráz da orelha; o som da voz mais terna e grave quando está falando sobre coisas como o cachorro que ele teve quando tinha 14 anos e que morreu atropelado, porque já estava ficando meio surdo e desatento; ou então, os segredos, que deixam de ser cabeludos e se transformam em confissões imberbes.

A gente sabe que gosta de alguém quando já não precisa de tantas palavras para expressar o dia. E o silêncio se torna um bom ouvinte, parceiro das horas, companheiro sem cobranças ou notas frias. Quando não há necessidade de pichar muros, poluir as ruas com faixas ou fazer outros tipos de escândalos, para cantar o amor que precisa ser evidente e ir mais além do que interessa apenas às duas pessoas, e mais ninguém. O amor renuncia provas, sobretudo aquelas acompanhadas de holofotes.

A gente sabe que gosta de alguém quando deixa de lado tabus e a educação que aprendemos com os nossos pais, e cria uma linguagem corporal própria, na qual é permitido fazer coisas que não se costuma fazer na mesa de jantar de um restaurante ou na frente do resto do mundo.

A gente sabe quando gosta, quando se acostuma a lidar e a ouvir os vários tons que o outro é capaz de emitir. Sem que isso se transforme numa ofensa. Enfim, a gente sabe. E se isso não for o bastante, então não é amor.

Publicado ontem no Novo Jornal.

Um comentário:

Cacau disse...

É assim mesmo... LINDO, LINDO, LINDO!!

BJS