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quinta-feira, 5 de julho de 2012

A função primordial de um banco de praça




Há quem pense, por conta de minha aparência, que eu há tempos desliguei o botão do sentir. Mas, na verdade, nessas reentrâncias, nessas frestras e lascas de tinta é onde moram meus sentimentos. Onde descanso minha alma calejada de ventos, brisas, sois, poeira e fumaça. Deixe-me explicar melhor: são nesses vazios onde me encontro inteiro e minhas infindas histórias. 

Teve uma vez que uma moça sentou aqui, muito mais em busca da sombra da árvore, que do assento. Senti-me como uma espécie de recarregador de baterias mas, tudo bem. Então, ela se sentou e parecia presa e dispersa a um turbilhão de pensamentos. Nem prestava atenção às folhas que se desatavam dos galhos ou do chilrear da andorinha que ralhava com o marido que tinha demorado para trazer as migalhas para o ninho e seus três filhos. Eu fiquei parado, por única opção e também por respeito. 

De minha parte esperava que a moça ao menos estivesse confortável. Mas ela revolveu a bolsa e sacou o celular, procurou um número conhecido, apertou no teclado verde e esperou, prendeu a respiração por uns três segundos, olhou para cima, olhou para baixo, dedilhou teclas imaginária até que disse: Alô!

Eu sei que ouvir a conversa dos outros é falta de educação então, tentei prestar atenção nos ônibus que passavam, observar os donos dos sapatos que trafegavam pelos meus domínios, até perceber que a conversa não passara dos dois minutos e eu senti seu corpo mais pesado sobre a madeira. Seu rosto estava tumultuado de dúvidas e uma lágrima ameaçava bagunçar os cílios e escorregar de trenó até o canto da boca. Ficamos em silêncio, permitindo o espetáculo da materialização da tristeza. Ela fungava baixinho e parecia mais aliviada e ainda mais bonita com aquela tristeza inata das santas e das putas. 



Senti necessidade de ter braços. Quando alguém chora, sempre é melhor oferecer um abraço que um lenço. Mas eu só tinha esses vazios e a presença física do descaso de ser somente um velho banco de praça, a quem sequer é permitido vagar pelas esquinas do centro. Se eu pudesse, diria a ela que dali a algumas horas, quando a noite caisse, a lua estaria tão bela e tão exuberante que aquelas lágrimas já teriam evaporado e ganhariam uma função nobre: a de salgar pequenos vapores de nuvens. Diria para ela também que o coração também pode ser matéria confusa e bagunçada e que as pessoas estão sempre procurando respostas, curas e salvações, mas as dúvidas, o sofrimento e as desilusões são as cores mais vibrantes do viver e aprender. São esses sentimentos e trilhos que dão briho aos verdadeiros acertos.

Ela se acalmou. E eu senti uma vontade imensa de ser um menino, um homem, um cara qualquer e convida-la para sentar num banco de praça e trocarmos uma ideia. Em vez disso, quando fiquei solitário de novo, sem os pesos alheios, a não ser o do próprio tempo sob minha matéria, passei a observar a filosofia socrática dos semáforos.

Um comentário:

Lobo da Caatinga (Canis lupus caatinguensis ssp,) disse...

... altamente divagante... "O Vazio Memorial de Um Velho Banco de Praça"... Muito criativo!!!!