Google+ Followers

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A cidade dos meus sonhos *


Moro numa cidade onde crianças de colo ocupam espaços nas cadeiras dentro dos ônibus e são colocadas de pé nesses assentos, o que me parece bastante inseguro, enquanto pessoas adultas se espremem nos corredores. Moro numa cidade onde praticamente todos os motoristas admitem que o trânsito é ruim e caótico, principalmente pela falta de educação ou de conhecimento das leis que regem o trânsito. E, nesta mesma cidade, carro é mais importante que pedestre. Carro ocupa a calçada, obrigando os pedestres a andar na pista, o que me parece um contrassenso.

Moro numa cidade onde as pessoas reclamam do lixo espalhado nas ruas. Mas, essas mesmas pessoas jogam sofás, restos de móveis e toda parafernália que julga não ter mais serventia dentro de suas casas, nas encostas e nos canteiros. E tem um pessoal também que se incomoda com o lixo esquecido pelas autoridades responsáveis, mas descarta seus pequenos entulhos pela janela dos carros.

Moro numa cidade onde se registraram mais de 400 pessoas à cata de uma vaga na Câmara dos Vereadores. De quem, em sua maioria, ouço propostas na propaganda eleitoral gratuita, que demonstram total desconhecimento das atribuições de um legislador municipal. Alguns chegam à pachorra de propor ações que dependem exclusivamente do Executivo. Já outros, pedem ao eleitor “ajuda” para chegar ao legislativo municipal, como se ocupar uma cadeira num dos berços da democracia, fosse única e exclusivamente um “meio de vida”, um emprego com regalias e benesses por quatro anos.

Moro numa cidade onde a maioria dos edis se “rendem” ao Executivo em troca de negociações que mantém vivo e pungente o clientelismo, arma fundamental para a manutenção das elites no poder. Essa lógica de “balcão” que mata ou deixa com graves sequelas ações de combate às desigualdades, pobreza e exclusão. Moro numa cidade onde os poucos vereadores que fazem oposição, ou se colocam de maneira crítica e independente, são confinados a atuações incipientes. E, assim, se perpetuam governos que governam para bem poucos.

Moro numa cidade onde muitas pessoas reclamam e sentem indignação, mas não partem dessa cantilena para o que os movimentos sociais chamam de organização, defesa dos direitos coletivos e, claro, pressão para mudanças urgentes nesses velhos modelos de gestão e fiscalização do Poder Público. E, se os moradores de Natal não se sentem à vontade para fazer pressão que ao menos elejam vereadores e vereadoras dispostos a isso. Moro numa cidade onde moram também os meus sonhos: de que um dia tudo isso vai mudar
.

Artigo publicado no Novo Jornal, hoje.

Um comentário:

Lobo da Caatinga (Canis lupus caatinguensis ssp,) disse...

... Moro num lugar onde abundam humanos, onde roncam trôpegos de tanto sonho e fuga... Moro num lugar onde o vício de por a alma para dormir supera o do "crack"... Moro num cemitério de múmias antigas que há milênios desconhecem suas mortes... bem,acho que somos vizinhos...