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terça-feira, 14 de agosto de 2012

É preciso ter coragem *


O cartunista Laerte se veste de mulher, mas tem namorada. Isso mesmo. Numa entrevista que deu para o site da revista Trip, ele diz que começou a pensar em se vestir com roupas femininas a partir de 2004, e que um de seus personagens das tirinhas, o Hugo, deu o impulso, quando ele desenhou o cara se depilando, se maquiando e tal e depois saindo montado, numa roupa ultrafeminina. Ele conta que a ideia de se vestir com roupas femininas não estava vinculada a uma fantasia. “E vontade de frequentar a área cultural do outro gênero, o reservado das mulheres”, explica. Embora seja um cara, sem dúvida, inteligente, bem educado, culto e descolado, o caminho entre a vontade e a realização foi longo. Matutou a ideia por cinco anos. E revela que foi um “período de confusão, preocupação, busca, dúvida, processos”. E aí, em 2009, foi num estúdio especializado em “montar” travestis e crossdressers e se libertou da representação monótona da vestimenta masculina.

A partir desse comportamento parafilíaco, alguns podem chamar o que ele faz de travestismo ou de crossdresser – que é uma espécie de “vida secreta” de homens que se vestem de mulher. O próprio Laerte que tem dado muitas entrevistas desde que assumiu sua nova vestimenta, não me parece muito chegado a traços definitivos. Definir, muitas vezes, pode limitar o olhar. Eu confesso que acho tudo isso muito estranho. Não vou ser hipócrita de afirmar que a princípio vejo com naturalidade. Mas jamais pensaria que é inaceitável. E penso também que essa atitude dele é de muita coragem.

Assisti há poucos dias um documentário na TV que mostrava um casal de lésbicas, que tomavam hormônios masculinos, a ponto de desenvolver barba e aumento de peso. Já tinham dois filhos adotivos e um(a) deles(delas?) resolveu engravidar, porque, afinal tinha útero. O programa procurou mostrar aquela família como qualquer outra família, com direitos e deveres, sonhos e realizações. Por que não? É normal o que é diferente causar estranhamento. Agora, o que não é normal é a intolerância, o preconceito, a delimitação do que é certo ou errado, a partir de princípios absolutamente discriminatórios. O que é certo ou padrão para mim não tem de ser, necessariamente, certo ou errado para outrem. Eu penso que o que importa é ser feliz.

Com tantas representações definidoras de padrão: mulher deve ser doce, falar baixinho, vestir 38 e ter peitos que caibam na mão. Homem não chora, homem precisa entender de futebol, homem está acostumado a levar fora. Menina brinca com boneca, menino com bola. Com tantas regras e padrões, dá um medo danado de a gente assumir quem é e ultrapassar as máscaras da sociedade. E, para ser feliz, é preciso ter coragem.

Artigo publicado hoje no Novo Jornal

Um comentário:

Angelo Augusto Paula disse...

A nossa sociedade castra tudo, até pensamento, dirá a felicidade. Mas devemos lembrar que o medo deve ser um trampolim, nunca um sofá.