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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mãe é assim *



Ouço um baque seco no jardim e, logo em seguida, uma lamúria. Não dava para ver nada de onde estava, mas pressenti algum tipo de perigo e fui correndo ver o que era, do lado de fora de casa. A moça loira sempre sorridente e educada, que está sempre passeando com sua pequena Maria Olívia, pelo pátio de onde moramos, levou uma queda feia. E o pior, com a filha no braço. Com o rosto afogueado e muito nervosa, preocupada com a queda da filha que bateu a cabecinha no chão, ela não dava a menor importância para os cotovelos em carne viva e outras partes do corpo machucadas. A única coisa que queria era que a filha ficasse bem. Os olhos questionavam a estupidez de ter caído no batente, sem dar chances para coisas como o acaso e o significado da palavra acidente. Tenho certeza, de que se pudesse teria voltado no tempo, teria mudado o tempo e feito chover para não precisar sair de casa para o passeio matinal naquele dia. E, se mesmo assim, cair com a filha nos braços fosse inevitável, preferiria ter caído em nuvens e ser arranhada apenas pela brisa do mar. Mãe é assim.

A minha conta que, quando eu tinha aproximadamente a idade de Maria Olívia, uns sete meses, no meio da noite ela foi surpreendida por um sonho aterrador de que havia uma aranha caranguejeira perto do meu berço. Acordou sobressaltada e o primeiro impulso foi levantar e fazer uma diligência no meu quarto. Lembra até hoje com riqueza de detalhes. A aranha estava bem próxima de mim, escondida atrás de um vestidi-nho de xadrez rosa que estava pendurado numa cadeira, ao lado do berço. Mãe é assim.

Dona Valéria era casada com um homem que quando bebia ficava violento e deixava mar-cas espalhadas pelo corpo dela, capazes de ferir até den-tro da alma. Ela trabalhava dia e noite para manter a família e lutava como uma leoa para manter a harmonia da casa. Mas um dia, o marido foi no limite. E, para sobreviver, a única saída era acabar com aquela situação. Foi embora sem olhar para trás, como não conseguiu fazer a mulher de Lot. Mas, por medo de um dia a filha ter de ver aquilo se repetir, entregou-a a uma família equilibrada e que pudesse lhe dar outras lembranças da infância. Mãe é assim.

No circo da minha infância, a garotada toda empolgada com o macaco preso na jaula, o pequeno Manoel quis dividir a cocada com o primata. A mãe, cautelosa, não queria arrancar-lhe o direito de ser generoso, mas ofereceu-se para entregar a guloseima. Perdeu três dedos.

Mãe é assim, exige por inteiro a dor do filho; sonha com o perigo; abre mão para dar o que não tem; perde os dedos. Só não perde essa magia de ser um ser que vai além de si mesmo, para deixar o outro – que é pedaço seu - ser completo, inteiro e feliz. 

* Texto publicado hoje no Novo Jornal 




3 comentários:

Catharine Medeiros Lima disse...

Sheyla, você conseguiu redigir exatamente o sentimento, a força e a razão que move todas as mães.
Todas nós sempre queremos ver os nossos filhos "inteiros, completos e principalmente felizes".
Beijos e parabéns....
Mande um beijo tb para a sua mãe, que tão bem soube lhe fazer essa mulher maravilhosa.

Catharine Medeiros Lima disse...

Sheyla, você soube descrever exatamente todo o sentimento e razão de ser de uma Mãe...
Todos nós que somos mães temos como missão essa doação incondicional em prol dos filhos. Nada mais gratificante do que ver aquele ser que é pedaço seu, como você mesma colocou, completo, inteiro e principalmente feliz.
Beijos e parabéns....
Mande um beijo tb para a sua mãe que soube tão bem lhe conduzir para que se tornaste essa mulher completa.

Mme. S. disse...

Catharine, seu comentário enche meu coração. Vindo de você que é uma linda mãe, incondicional e dedicada, só posso ficar muito contente mesmo. Obrigada pelo comentário, venha sempre que quiser, abração, Sheyla.

PS.: se puder, mostra pra tia Nise, ela certamente faz parte desse time de "Mãe é assim".