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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um amigo pra conversar *



Seu Moura já é meu amigo, embora tenhamos nos encontrado apenas duas vezes e em circunstâncias relativamente efêmeras: na parada de ônibus. Ele vai fazer aniversário no próximo dia 25 e já me convidou para a festa. Ainda não confirmei presença, prometendo a ele que irei para a festa daqui a dois anos e, antes disso, iremos juntos assistir a um dos jogos da Copa 2014. Ele vai completar 83 anos. Logo, assim que lhe fiz a proposta de irmos juntos ao jogo do Mundial, ele deu um sorriso largo e feliz, impulsionando a vida para frente, a fim de cumprir o nosso acordo. 

Nossa conversa foi uma iniciativa dele. Confesso que em princípio pensei que um cumprimento lacônico de “bom dia” seria o suficiente. Mas, foi o bastante para ele irradiar uma imensa vontade de falar e de ser ouvido. Está viúvo há dez anos. A mulher “morreu daquela doença”. E tem filhos bem criados, “formados” e encaminhados na vida. E fala isso como se fosse um prêmio, dado após a maratona de criá-los naquilo que ele acreditava ser o caminho correto. Morou mais de 30 anos em Petrópolis e agora mora no novo bairro, junto de uma filha.

Tem uma conversa tão cativante que me fez pegar um ônibus que não me levaria ao meu destino e ainda desci quatro paradas adiante daquela que tinha planejado. Seu Moura foi batizado como José Barbosa Moura e lá em São Tomé, onde nasceu a “um quilômetro e duzentos metros” do Centro, ele é conhecido por “Zé Menino”, porque antes dele nasceram outros dois irmãos “Josés”, então ele era o mais moço. E o apelido permanece assim. E ri como se ainda fosse aquele menino travesso da infância. É verdade que tem uma conversa circular e as informações se repetem algumas vezes. Mas, basta o apuro do olhar e disposição para se pescar uma ou outra pérola da existência de quem viveu mais de oito décadas. A velhice também pode ser um tesouro. A pele é muito boa. Meu palpite: água. Toma tanto que tem dormido pouco à noite, porque se levanta muitas vezes para ir ao banheiro. Disse-me que “não sente uma dor na unha”, mas anda sentindo umas dores de cabeça e acredita que vai curá-la em Dona Maria, uma benzedeira que mora lá na Avenida 4.

A cidade está cheia de idosos. Eu poderia dizer simplesmente que está envelhecendo, mas acredito que a cidade está carregada de experiências e conhecimento de vida. Mas é triste perceber que todo esse conhecimento passa ignorado, quando não, desrespeitado pelos mais jovens. Os idosos andam muito calados. Presos num silêncio alheio que não dá espaço para que eles mostrem o quanto é bom viver tanto e muito. O melhor é que agora, mesmo chegando um pouco mais atrasada no trabalho, eu tenho um amigo para conversar nessa solidão urbana que as pessoas se impõem.



* Artigo publicado no Novo Jornal, dia 21 de agosto.

2 comentários:

cacau disse...

Sem palavras para vocês dois... Ops achei uma: LINDO!!!

Bjos She

Mme. S. disse...

Beijos, Cacauzita!