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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Parar de pensar



Já faz alguns dias que não consigo mais assistir à novela das nove. Aliás, já faz algum tempo que venho pensando no quanto posso investir esse momento sofá & novela, em outras coisas mais edificantes na minha vida. Até houve um período em que eu me permitia entrar naquele mundo de faz de conta, só para descansar a mente inundada de tantos afazeres do cotidiano. Porque tenho a nítida sensação de que a novela me faz parar de pensar. E esse movimento por si só é aterrador. Não consigo achar normal que parar de pensar seja um exercício interessante. Assistir novela pode parecer bom para um monte de coisas, já que enquanto não conseguimos resolver nossos próprios problemas, tentamos dar um rumo na vida dos personagens.

Uma vez, tive a grata oportunidade de ouvir uma palestra do consagrado ator Paulo Autran, no Teatro Alberto Maranhão. Ele sentado no meio do palco. Ele e seu cigarro e sua voz grave e penetrante. E alguém resolveu perguntar por que ele não fazia mais novelas. Sua explicação ecoa até hoje dentro das minhas convicções: “Porque novela ‘emburrece’. É uma história que poderia ser contada em duas horas e é contada em oitos meses”.

E essa novela das nove está passando dos limites no quesito achar que o telespectador é um estúpido. Se você, paciente leitor, anotar um diálogo em determinado capítulo, vai perceber que este diálogo é exaustivamente repetido nos próximos e nos próximos e nos próximos. É uma história que não evolui dentro de uma lógica plausível.  Vou dar um e-xemplo: Nina sacou do banco e botou numa sacola Um milhão de Reais, antes de ser assaltada pelo comparsa do Max. Ela nunca ouviu falar de transferência bancária? Como é que alguém sai de um banco com essa quantia? Esse lance agora das fotos compro-metedoras que a Carminha conseguiu destruir. Até minha avó – se viva estivesse – teria guardado essas fotos numa caixa de e-mail ou num pen-drive. Caro autor dessa novela, subestimar nossa capacidade de pensar é uma coisa, não dar o devido apreço ao nosso precioso tempo ali, parados, esperando que al-guma coisa realmente plausível aconteça, é i-nadmissível.

Dias passados, o professor Albimar Furtado escreveu em sua coluna, que não aguenta mais ouvir falar tanto nessa novela. Junto-me a ele. Ao invés de dedicar meu traseiro ao aconchego do sofá na hora da novela, vou aproveitar esse tempo para dar conta de mais páginas das tantas leituras que me aguardam, cheias de histórias, ritmo, fantasia, instrução e poesia. Coisas que me fazem esquecer do quanto foi árduo o dia, mas me lem-bram que não conseguiria parar de pensar na vida real. Inclusive, de que ela pode ser muito bela.

Publicado originalmente no Novo Jornal, na terça-feira.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sou normal

Arte de Modigliani

Confesso que eu já não aguento mais sair à noite e ver tanta mulher vestida de shorts e scarpin. Tem agora também outra tendência seguida por todas as “It girls”: usar tênis de salto alto.  (Momento wikipédia: esse termo é usado para moças que pelo modo de vestir, se maquiar e de agir, criam tendências e outras passam a copia-las! Medo!). Sim, e acabou aquele tempo em que, quem usava tatuagem era maconheiro, marinheiro ou bandido. Mas, o que se destaca é a mais absoluta falta de imaginação para marcar o corpo. Abundam borboletas, estrelas, rosinhas e coraçõezinhos nos ombros, pulsos e atrás da nuca e orelha. Outra coias, aquele coque bem no alto da cabeça, não combina com todo mundo não, minha gente, pelamordedeus! Uniformização tem limites, né? O carnatal só acontece em dezembro, mas a “abadanização” se estende pelos outros onze meses do ano. Credo!

Tem horas que as “copiadoras” de plantão pensam que são integrantes da Cruz Vermelha. Existem milhares de “santas” blogueiras dispostas a ajudar as aflitas de pele oleosa e com espinhas, com receitinhas uniformes de felicidade e autoajuda sobre creminhos revolucionários para a cútis de quem já passou dos 30, ou para quem já entrou nos 40, mas quer continuar com a carinha dos anos 80. Chego a imaginar que o ácido retinóico já pode ser considerado a nova “dor de cabeça", dada como desculpa na hora de dormir, quando o maridão chega com aquela vontade de abrir o placar e o jogo tem que ser cancelado, porque a mulher está toda besuntada de creme.

Quando eu vejo assim todo mundo igual, sinto um prazer danado de ser normal. E diga-se, ser “normal” nesse caso é ser diferente e de preferência não sair por ai copiando receitinhas de beleza e moda (ai que tédio!). Se alguém me vir usando shorts com scarpin numa balada, pode chamar o Samu ou um pai de santo, porque é caso para a medicina ou para afastar encosto.

Alguém pode se perguntar o que eu tenho a ver com a vida de quem segue tendências de moda ou perde três horas da vida passando cremes e acredita que o maior problema das mulheres é apresentar poros abertos na face. Minha resposta: NADA. Pessoas adultas fazem o que bem entendem de suas vidas. Mas, por outro lado, assusta-me essa uniformização dos rostos e corpos. Entedia-me a insistência em alguns temas, tanta coisa boa para se inspirar, tanta mulher bacana por aí fazendo coisas que realmente importam e, sobretudo, voltadas para transformar a vida de milhares de outras pessoas, (vou dar um único exemplo: Tia Dag. Ela tira crianças da rua, em situação de risco (algumas ameaçadas de morte). É fundadora da Casa do Zezinho, no Capão Redondo, em Sampa. Começou o trabalho, levando as crianças para dentro da própria casa).  É ou não é um exemplo massa a se seguir? E eu não estou falando para abandonar o batom e começar a levar criança abandonada na rua para dentro de casa não. Eu estou falando de senso de cidadania, de responsabilidade e de solidariedade com os famintos, os pobres, os ignorantes. De procurar algo mais útil e decente para se fazer, do que ficar "vendendo" ilusões!

Esse apelo ao consumo, essa emulação a coisas tão fúteis e efêmeras, têm atingido cada vez mais jovens e até mesmo meninas, que ficam susceptíveis a construir valores tão rasteiros sobre o que é beleza, o belo e sobre o que é realmente se cuidar e cuidar dos outros. Sou normal e tenho o direito de não compreender, assim como também de não seguir certas necessidades e illusões que os escravos da padronização da imagem tentam nos impor. Pena, muita pena.

Publicado originalmente aqui um pouco menor, por conta do espaço...



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Quando um homem se cansa de sustentar metade do mundo






Sentado agora neste lugar que muitas vezes é extensivo ao próprio corpo e, ao mesmo tempo, é tão desconhecido quanto uma caverna, o rapaz comprime os tentáculos do dia para dentro dos pensamentos cansados. Se pudesse, faria tudo do mesmo jeito? Ou quem sabe, faria tudo à revelia da ciranda dos ponteiros?

Quase 21h. Ri de si mesmo por ainda se importar com as horas. O tempo já aponta seus defeitos no raio-X da tosse, nas têmporas e na urina ouro envelhecido. Também tem insônias. Velhos dormem pouco, ele lembra o que a avó lhe dizia. Será que velhos também esquecem seus inimigos? Se pergunta. E ri de si mesmo, não dando a mínima para conceitos morais sobre o que é bom ou ruim. Há tempos que não preserva mais preocupações em agradar X ou Y.

As formigas têm mais importância para ele que certas pessoas. Lembra de uns versos antigos de Leminsk que diziam algo assim: "Pessoas podiam sumir, evaporar". Sempre lembra desses versos. Sobretudo quando está assim, desse jeito. A natureza humana indo para o ralo. Pulsando somente a vontade e os instintos mais primitivos. Nada de devaneios ou sonhos debaixo das pálpebras. 

Lembrou de uma canção de ninar quase tão antiga quanto a sombra das árvores. Um canto que ninguém mais ouve e ele próprio duvida das próprias lembranças porque os olhos - quando em outras funções - podem lembrar, mas não são dignos de confiança quando se trata de sons. E continua lembrando de outras coisas enquanto sorve uma xícara de café meio quente meio frio ao mesmo tempo amargo. Do primeiro amanhecer que não precisou da ajuda dos pais para ver; dos livros de História; de Sara, aquela moça por quem se apaixonou e chegou a acreditar que fosse a primeira mulher a ser criada por Deus; e de várias outras mulheres que lambeu e alagou depois dela; lembrou também do pão de arroz feito pela sua mãe morta; e de outras pessoas que só viviam agora dentro das suas memórias. E chorou, espalhando o córrego de lágrimas para dentro de sua boca, porque tinha sede de mar.

T. lembrou também que faz anos que não faz nem cumpre mais promessas. Talvez porque elas tragam em si a outra metade do mundo que ele não está interessado em sustentar.

Dica de livro: Uma Viagem à Índia




Foto: Divulgação/Internet

Bloom é, essencialmente, um rapaz triste e que guarda dúvidas fechadas que acha que só encontrará as chaves se viajar. E assim, parte para a Índia, fazendo primeiro um toour pela Inglaterra e França, até chegar ao lugar onde acredita que encontrará as respostas. Esse é o personagem principal de Uma Viagem à Índia (Editora Caminho em Portugal e Editora Leya no Brasil), do escritor português Gonçalo M. Tavares, que conta com míseros 42 anos, se comparados ao catatau de livros que já escreveu na vida, com alguns dos quais arrebatou a crítica literária, como o Prêmio LER/Millenium BCP 2004, o Prêmio Portugal Telecom, Prêmio Internazionale Trieste (2008) e o Grande Prêmio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores, em 2007. Seu romance Jerusalém ganhou o Prêmio José Saramago 2005 e a pecha bastante elogiosa do próprio dizendo-lhe que "era um atrevido", referindo-se ao fato de que Gonçalo M. Tavares, mesmo com tão pouca idade, era um dos melhores escritores que ele já havia lido.

Mas voltemos ao livro em questão. Assim como se fala em hipertexto nos tempos de internet, tomei para mim a ideia de que Uma Viagem à Índia é um hiperpoema, dividido em 10 Cantos, distribuídos em mais de 450 páginas. Porém, o leitor não precisa se assustar porque a leitura flui igual a uma prosa e seus parágrafos. Vamos a uma pequena mostra: "Ofereceram a Bloom descanso, frutas, água./ E como explicando tudo a um imbecil/ estrangeiro, disseram, apontando para cada coisa a seu/ tempo: a água é líquida, a fruta sólida e esta cama/ que te oferecemos estará no estado em que estiverem/ os teu sonhos". Um Viagem à Índia faz uma alusão nada indireta à literatura máter ocidental de Os Lusíadas, do seu patrício Camões. Mas, como diriam - bem melhor que eu, inclusive - os críticos, é uma revisitação "original da mitologia cultural do Ocidente". Bloom conhece pessoas, se mete em confusões na Inglaterra, fala de sua vida para um cordial amigo francês; fala do amor de sua vida, Mary, que está morta; da morte do pai e das dúvidas que quer desvendar na Índia e das lembranças que quer esquecer. 

Vamos a uma "metadica" (a dica de leitura da dica de leitura): ler como se fosse prosa, ligar um verso a outro; se preciso for, uma estrofe à outra, que a viagem se dará sem grandes turbulências. Só não garanto que não arrebatará fortes emoções. Boa leitura. Em tempos de globalização enjoy!

PS.: escrevi originalmente essa dica de livro para a revista Living Four, editada pelo meu amigo querido e über jornalista, Cristiano Félix.







terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um drama familiar que culminou em greve de fome


Monet: o descolado que só quer se enturmar e relaxar

Monet chegou chegando, como dizem na gíria urbana descolada. Deu uma vistoria geral na casa, cheirou aqui, cheirou acolá, aprendeu rapidamente o lugar onde deveria fazer suas necessidades fisiológicas e aprovou a iguaria fabricada à base de salmão e arroz. Monet não mia, ronrona. Não reclama, sussurra alguma coisa quando parece incomodado. Não apresentou tensão alguma, ao contrário dos outros "donos da casa".

Monet - e eu também - só não esperava que o primogênito resolvesse fazer greve de fome. Isso mesmo, aquele que habita o espaço há mais tempo, há quase sete anos, e tem aproximadamente a metade do tamanho do caçula da casa, ficou extremamente perturbado e simplesmente parou de comer. Olhava-me questionador, cacarejava como uma galinha d´Angola. Podia ler no olhar dele desabafos como: "Como assim? Como é que você traz esse cabeçudo para dentro da 'minha' casa, sem me perguntar nada?". Tentei uma aproximação amigável. Tentei mostrar que tem comida suficiente para todo mundo e mais alguns abandonados da rua. Tentei em vão. Recebi muitas arranhadas, reclamações, muxoxos e ressentimentos.

Fellini: o primogênito e chantagista emocional

Fiquei pensando que o primogênito está certo, já que realmente eu não pedi permissão para a chegada de um terceiro elemento em casa. E que ele tem o direito de ficar com ciúmes e até mesmo fazer essa chantagem emocional de parar de comer e partir meu coração. No segundo dia, Monet sentiu a pressão e resolveu só dormir:  duas preocupações, e uma decisão: encaramos como uma colônia de férias. Monet voltou para a casa original e virá nos visitar sistematicamente até que Fellini e Dollores percebam que ele não oferece risco à integridade física deles e à "caça" que lhes é oferecida todos os dias.

Dollores: só não parou de comer porque é seu esporte favorito

Desde a morte do Otto sentia que havia uma vaga e acho que encontrei o sujeito para preecher essa vacância. Agora é torcer para que os outros "donos da casa" aceitem bem esse persinha sem-vergonha e relaxadão, chamado Monet. Eu já estou completamente apaixonada por ele, o que me leva a uma conclusão: sempre cabe mais um (gato) no coração de quem ama esses seres tão especiais, enigmáticos, cheios de personalidade e, sobretudo, sensíveis e à flor da pele.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Só parente pode

Só quem pode falar mal de familiar é alguém da própria família. Quando um sujeito de fora resolve dar uma de gaiato, a gente cai em cima. Com a nossa cidade é a mesma coisa. Sabemos que tem buracos, o lixo abandonado, passagens de ônibus pela hora da morte, aliada a um sistema de transporte péssimo, e nossas praias já entram no quesito vergonha alheia, quando visitadas por um turista. Mas, devagar com o andor.
Semana passada, o cineasta Eduardo Escorel resolveu falar mal de Natal. O texto foi publicado na Revista Piauí, e ele começa assim: “Quem voltar a Natal, sem ter ido à capital do Rio Grande do Norte por pelo menos 7 anos, ficará horrorizado”. Embasa esse preâmbulo, citando a Ponte Newton Navarro, chamando-a de “aberração” e, ao situa-la no espaço, comete o grave erro de chamar nosso rio de “Potenji”. 

A primeira vez em que Escorel veio a Natal foi no início dos anos 1970. Isso ele próprio me disse, porque estive com ele, durante sua rápida estada de menos de 24 horas na cidade, na ocasião em que foi exibido seu documentário “Chico Antônio – Herói com Caráter”, produzido em 1983 e que fez parte da Mostra de Cinema de Cultura Popular do Agosto da Alegria 2012. A lotação não chegava à metade da plateia do Teatro de Cultura Popular Chico Daniel. O que me leva a crer que em se tratando de Natal, isso é muito comum. Quando não se faz eventos ou programas que evidenciem ou deem a devida importância para determinado tema, o povo reclama. Mas, quando existe alguma coisa para se fazer na cidade – com entrada franca – em plena quarta-feira, o povo não comparece. E lá vou eu falando mal da cidade. Mas, tenho licença poética para isso, já que embora não tenha nascido aqui, cresci nessa cidade, e meu tempo de vida e de experiência em Natal tem quase a mesma idade da primeira visita que Escorel cá fez.
Não sei de que maneira ou inspiração Escorel coloca num mesmo caldeirão a modernização urbana, o aumento dos espigões em Ponta Negra, o turismo predatório e o “apego anacrônico local a (sic) tradições ligadas à cultura popular” e ainda conclui que o “massacre da especulação imobiliária, e decisões políticas arbitrárias tornaram um tanto patético o evento Agosto da Alegria”. E, a meu ver, se joga no abismo do palavrório do crioulo doido quando cogita que o folclorista Deífilo Gurgel concordaria com suas deduções.

As impressões atuais do cineasta são superficiais já que esteve por tão pouco tempo na cidade. E conversou muito pouco com as pessoas daqui e não conheceu os reais problemas de Natal. Vá lá que o povo daqui desconhece ou não valoriza os ícones da cultura popular. Mas daí a achar que a cidade deveria ter parado no tempo e manter o aspecto de “fazenda iluminada” já é demais. Nem se fosse um primo distante dava para engolir essa.

Publicado originalmente no Novo Jornal

Bom, na verdade, eu acho que as pessoas podem  falar o que bem quiserem e sobre qualquer coisa. Mas, às vezes, tem momentos que qualquer um de nós perde uma grande oportunidade de ficar calado, ou de se ocupar com coisa mais útil como uma boa faxina ou uma lavagem de roupa, não é mesmo? #ficaadica! Sim, estou sem tempo para arrumar uma foto. Aliás, estou acorrentada ao tempo!