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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Quando um homem se cansa de sustentar metade do mundo






Sentado agora neste lugar que muitas vezes é extensivo ao próprio corpo e, ao mesmo tempo, é tão desconhecido quanto uma caverna, o rapaz comprime os tentáculos do dia para dentro dos pensamentos cansados. Se pudesse, faria tudo do mesmo jeito? Ou quem sabe, faria tudo à revelia da ciranda dos ponteiros?

Quase 21h. Ri de si mesmo por ainda se importar com as horas. O tempo já aponta seus defeitos no raio-X da tosse, nas têmporas e na urina ouro envelhecido. Também tem insônias. Velhos dormem pouco, ele lembra o que a avó lhe dizia. Será que velhos também esquecem seus inimigos? Se pergunta. E ri de si mesmo, não dando a mínima para conceitos morais sobre o que é bom ou ruim. Há tempos que não preserva mais preocupações em agradar X ou Y.

As formigas têm mais importância para ele que certas pessoas. Lembra de uns versos antigos de Leminsk que diziam algo assim: "Pessoas podiam sumir, evaporar". Sempre lembra desses versos. Sobretudo quando está assim, desse jeito. A natureza humana indo para o ralo. Pulsando somente a vontade e os instintos mais primitivos. Nada de devaneios ou sonhos debaixo das pálpebras. 

Lembrou de uma canção de ninar quase tão antiga quanto a sombra das árvores. Um canto que ninguém mais ouve e ele próprio duvida das próprias lembranças porque os olhos - quando em outras funções - podem lembrar, mas não são dignos de confiança quando se trata de sons. E continua lembrando de outras coisas enquanto sorve uma xícara de café meio quente meio frio ao mesmo tempo amargo. Do primeiro amanhecer que não precisou da ajuda dos pais para ver; dos livros de História; de Sara, aquela moça por quem se apaixonou e chegou a acreditar que fosse a primeira mulher a ser criada por Deus; e de várias outras mulheres que lambeu e alagou depois dela; lembrou também do pão de arroz feito pela sua mãe morta; e de outras pessoas que só viviam agora dentro das suas memórias. E chorou, espalhando o córrego de lágrimas para dentro de sua boca, porque tinha sede de mar.

T. lembrou também que faz anos que não faz nem cumpre mais promessas. Talvez porque elas tragam em si a outra metade do mundo que ele não está interessado em sustentar.

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