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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sou normal

Arte de Modigliani

Confesso que eu já não aguento mais sair à noite e ver tanta mulher vestida de shorts e scarpin. Tem agora também outra tendência seguida por todas as “It girls”: usar tênis de salto alto.  (Momento wikipédia: esse termo é usado para moças que pelo modo de vestir, se maquiar e de agir, criam tendências e outras passam a copia-las! Medo!). Sim, e acabou aquele tempo em que, quem usava tatuagem era maconheiro, marinheiro ou bandido. Mas, o que se destaca é a mais absoluta falta de imaginação para marcar o corpo. Abundam borboletas, estrelas, rosinhas e coraçõezinhos nos ombros, pulsos e atrás da nuca e orelha. Outra coias, aquele coque bem no alto da cabeça, não combina com todo mundo não, minha gente, pelamordedeus! Uniformização tem limites, né? O carnatal só acontece em dezembro, mas a “abadanização” se estende pelos outros onze meses do ano. Credo!

Tem horas que as “copiadoras” de plantão pensam que são integrantes da Cruz Vermelha. Existem milhares de “santas” blogueiras dispostas a ajudar as aflitas de pele oleosa e com espinhas, com receitinhas uniformes de felicidade e autoajuda sobre creminhos revolucionários para a cútis de quem já passou dos 30, ou para quem já entrou nos 40, mas quer continuar com a carinha dos anos 80. Chego a imaginar que o ácido retinóico já pode ser considerado a nova “dor de cabeça", dada como desculpa na hora de dormir, quando o maridão chega com aquela vontade de abrir o placar e o jogo tem que ser cancelado, porque a mulher está toda besuntada de creme.

Quando eu vejo assim todo mundo igual, sinto um prazer danado de ser normal. E diga-se, ser “normal” nesse caso é ser diferente e de preferência não sair por ai copiando receitinhas de beleza e moda (ai que tédio!). Se alguém me vir usando shorts com scarpin numa balada, pode chamar o Samu ou um pai de santo, porque é caso para a medicina ou para afastar encosto.

Alguém pode se perguntar o que eu tenho a ver com a vida de quem segue tendências de moda ou perde três horas da vida passando cremes e acredita que o maior problema das mulheres é apresentar poros abertos na face. Minha resposta: NADA. Pessoas adultas fazem o que bem entendem de suas vidas. Mas, por outro lado, assusta-me essa uniformização dos rostos e corpos. Entedia-me a insistência em alguns temas, tanta coisa boa para se inspirar, tanta mulher bacana por aí fazendo coisas que realmente importam e, sobretudo, voltadas para transformar a vida de milhares de outras pessoas, (vou dar um único exemplo: Tia Dag. Ela tira crianças da rua, em situação de risco (algumas ameaçadas de morte). É fundadora da Casa do Zezinho, no Capão Redondo, em Sampa. Começou o trabalho, levando as crianças para dentro da própria casa).  É ou não é um exemplo massa a se seguir? E eu não estou falando para abandonar o batom e começar a levar criança abandonada na rua para dentro de casa não. Eu estou falando de senso de cidadania, de responsabilidade e de solidariedade com os famintos, os pobres, os ignorantes. De procurar algo mais útil e decente para se fazer, do que ficar "vendendo" ilusões!

Esse apelo ao consumo, essa emulação a coisas tão fúteis e efêmeras, têm atingido cada vez mais jovens e até mesmo meninas, que ficam susceptíveis a construir valores tão rasteiros sobre o que é beleza, o belo e sobre o que é realmente se cuidar e cuidar dos outros. Sou normal e tenho o direito de não compreender, assim como também de não seguir certas necessidades e illusões que os escravos da padronização da imagem tentam nos impor. Pena, muita pena.

Publicado originalmente aqui um pouco menor, por conta do espaço...



2 comentários:

Angelo Augusto Paula disse...

O que você escreveu, me lembra um poema de Safo:

"O que é belo
é belo aos olhos e basta
Mas o que é bom
É subitamente belo"

É dessa beleza que devemos preencher nossos dias. Adoro seu espaço.

Abraços.

Mme. S. disse...

Então empatou: porque eu acho incrível o que você escreve. Chega a dar uma invejinha boa. Abraço, Angelo, a casa é sua!