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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Armadilhas sociais




Antigamente, a gente pegava uma cédula de dois mirréis (licença poética) e tinha lá uma frase qualquer. Fosse uma prece, uma mensagem de amor, um palavrão. Alguém que estivera com essa nota antes deixara seu recado, sua marca. Enquanto viva fosse aquela nota, viva estaria aquela mensagem. A frase era a garrafa imaginária solta ao mar, à espera que alguém a encontrasse e a decifrasse. Vivemos numa época em que não se escreve mais nas notas de dinheiro. Já existem muitos outros meios para fazê-lo. Escreve-se muito e a todo tempo. Fala-se muito e quase tudo é tão gratuito. 

Nos bares, restaurantes, nos carros, dentro de casa, na cama, no banheiro, qualquer lugar pode ser cenário para a superexposição. No mundo das redes sociais e dos compartilhamentos de fotografias - aqueles recortes de tempo e espaço que já foram objetos guardados em álbuns de papel - a ordem é divulgar, expor, entregar o ouro da intimidade, como níquel sem valia. Há uma sede de celebridade instantânea. Se eu não apareço, vão esquecer de mim. É o que pensa a imensa maioria.

Contraditoriamente, há uma solidão macabra na superexposição. Os ocupados demais em dar atenção ao celular e suas armadilhas sociais, poderiam refletir: enquanto fotografo a xícara de café e a torta alemã que dentro de instantes vão se liquefazer nas células do meu organismo, eu deixo de olhar no olho do meu interlocutor; eu escuto, mas não ouço; eu me jogo na rede que se alimenta, sobretudo dessa solidão coletiva e perco a chance de simplesmente conversar de verdade com alguém, de sorrir de uma piada boba, de dar valor aos instantes reais e que são irrevogáveis. Eu liquefaço as relações reais, para dar atenção àquilo que está disponivelmente distante e improvável.

Às vezes me ocorre que a grande rede, esse fenômeno que “aproxima” o mundo, que encurta distâncias físicas e culturais, que se diz democratizar as vozes e dá espaço equânime para as ideias e opiniões é também uma armadilha, nos colocando como peixes, isolados de seu próprio cardume. Sinto saudades do tempo em que os amigos sentiam saudades e ligavam para minha casa. Hoje em dia, são raras as pessoas que têm o telefone da casa da gente. As pessoas vivem dizendo que sentem saudades umas das outras na grande rede. Concentram suas forças em digitar letras de carinho, mas não ultrapassam as palavras para o gesto. Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “vou te ligar para a gente fazer qualquer coisa, qualquer dia desses”. Até as promessas agora são improváveis e nada palpáveis, como são as cédulas de dinheiro.

Publicado originalmente hoje no Novo Jornal

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