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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Début


Modigliani

Era quase duas horas de uma tarde quente de inverno sufocante. O restaurantezinho self-service estava lotado. Pessoas famintas, garotos, casais, pratos mornos. Muita salada sem maionese, 250 gramas para matar a fome. Pouca grana no bolso. Ela sentou sozinha na mesa do cantinho e pensou no quanto as pessoas ficavam solitárias, sobretudo no meio da multidão. A salada estava repleta de cebolas, enormes pedaços nem um pouco sutis, ao contrário do que dizia sua mãe: “tem de ser quase raladas, bem fininhas”. O prato já estava no fim, quando de repente, ouviu uma voz:
- Você gosta de cebolas?
- Heim?
- É que elas estão jogadas...
- Há, sim. É que elas não são sutis.
- Sei...
Ele, duas horas e vinte e cinco, ali parado na frente daquela mulher levemente inclinada à mesa, mostrando uma alça de seda azul do sutiã, com um prato bastante econômico, cheio de pedaços de cebola. Ela, parecia tão alva, tão doce e vagabunda. Frio na barriga, tensão nos músculos. Um desejo desses que nasce do improvável e desconhecido acaso. Logo estavam falando sobre cervejas, carne vermelha, branca, macrobiótica, aveia, sushi, saquê, gnomos, limão, horóscopo chinês, vinhos, 3ª casa em Vênus. Acenderam um cigarro na varanda do restaurante. Pediram café, a conta.
- Ai, estou atrasada!
- Bobagem – disse ele, tocando num fio de cabelo, desgarrado e desmaiado nos ombros. – Tira folga hoje!
- Queria um espelho.
- No retrovisou do meu carro.
A avenida principal sumia devagar pelos olhos da mulhercalçajeanspapolegaldorestaurante, que sentada no banco do carona ouvia um som do Caetano e parecia leve e pensativa.
- E eu nem sei o teu nome.
- Nem eu o seu.
Silêncio.
O Condomínio era tão pequeno burguês quanto o bairro. Quatro lances de escada. Braço de leve na cintura. Coração aos pulos. Cheiro de incenso e restos de ovos com bacon lá dentro. Sala: almofadas, quadros a nanquim e passpartour. Livros de Oscar Wilde.
- Senta! Fica à vontade. Volto já!
Barulho de quem entra no chuveiro, escovando os dentes, descarga talvez. Ela queria tirar os sapatos. Olhou em volta, queria fumar um. Perguntou. Ele não tinha. Não sentia medo ou curiosidade, apenas um desejo estranho e selvagem por aquele homem de dedos longos. Nem percebeu quando ele se aproximou. Costas largas, toalha amarrada na cintura, pingos d´água em cascata pelos cabelos negros. Ele a abraçou por trás e molhou sua camiseta. Olhos fechados, corpos quentes. Calor no meio das pernas. A língua dele entra macia dentro da outra boca. Toalha, camiseta, calcinha, jeans voam num balé de liberdade. Invasão molhada. Quase seis horas da tarde.
- Isadora.
Isadora tinha uma boca funda e macia, ainda havia nela um gosto sutil de cebolas.


Esse texto bobinho e adolescente foi escrito há mais de 15 anos, em janeiro de 1997. Lembro que o mostrei a Elis e ela rabiscou todo, apontando onde poderia melhorar. Dia desses estava pensando que o havia perdido. Mas, hoje, mexendo em velhos baús de memórias, onde guardo antigas cartas de amor, cartões de felicitações, souvenirs, iguarias vindas do Oriente e vários outros pedaços de mim, eis que o encontro, numa folhinha amarelada e quase partida ao meio. Em tempos de tanta introspecção literária e mergulho em textos alheios, publico essa pequena e boba relíquia para meus meia-dúzia de fiéis leitores. Fiz pequenas alterações, sobretudo em algumas repetições desnecessárias. Sim, e o título original era o horroroso: "Cebolas Sutis"...




2 comentários:

Débora Oliveira disse...

Se as alterações feitas só retiraram as cebolas repetidas,está ótimo. O prato principal ficou muito bom na receita original. A vida é cheia de coisas inesperadas como no conto que vc escreveu.
Beijos

Mme. S. disse...

Débora, eu achava que tinha perdido esse textinho. Ele sempre me foi muito significativo porque foi um dos primeiros que tive coragem de mostrar a alguém. Adorei seu comentário. Mi casa é su casa! Bjs, S.