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terça-feira, 16 de outubro de 2012

O que me assusta *




Meu maior sonho de presente do Dia das Crianças era ganhar um daqueles bebês de cabeça de plástico e corpo de pano que fazia muito sucesso na época.  O sonho não se concretizou e eu sobrevivi. Na semana passada encarei a lotação assustadora das lojas em busca do presente para minha afilhada Bárbara, de seis anos. De lá para cá, os paradigmas mudaram muito. Se antes as bonecas estimulavam nas meninas o instinto maternal, até mesmo como uma forma de elaboração de sentimentos e emoções, hoje as bonecas e outros brinquedos estimulam, principalmente, o próprio consumo. Encontrei nas prateleiras vários exemplos. Um deles era um game que, dentre suas opções, apresentava uma que dizia: “Barbie vai ao shopping”. Desde quando o ato de comprar pode ser confundido com brincadeira?

Na esteira dessa preocupação caiu em minhas mãos o documentário “Criança, a Alma do Negócio”, dirigido por Estela Renner. São 48 minutos de dados e depoimentos tanto de crianças, quanto de pais e especialistas que só referendaram o que eu senti no shopping: estão transformando nossas crianças em consumidores vorazes cada vez mais cedo. O fenômeno do ter está se tornando mais importante que a condição primária da infância que é, simplesmente, sair por ai brincando.

O documentário lembra que bastam apenas 30 segundos para uma marca influenciar os pequenos. E, quanto mais cedo a criança começa a consumir, mais rápido ela queima etapas, correndo um sério risco de passar pela infância sem vivê-la em plenitude. E o que é pior: os pais não estão conseguindo dizer não para esse consumo desenfreado. A psicanalista Ana Olmos explica que o filho ou filha só vão se desenvolver no contato com a realidade se ouvirem “não”. Para que possam lidar com a frustração e com os limites. Pessoas acostumadas a ter e fazer tudo o que querem na infância tendem a se transformar em narcisistas, que não reconhecem limites para satisfazerem seus caprichos e que vivem mais da aparência do que da verdadeira essência do ser.

Claro que nem os adultos nem as crianças poderão se tornar imunes à publicidade ou ao consumo. Isso já faz parte da nossa vida. Segundo o Doutor em Ciências da Comunicação da USP, Clovis de Barros Filho, também entrevistado no documentário, a publicidade promete mais do que a alegria da posse. Promete a alegria da inscrição e da existência na sociedade. A questão é que os adultos podem pensar sobre isso, podem se aperceber com marionetes nesse jogo do consumir, mas a criança não consegue. Ela só sente. E se ressente se não estiver inserida no grupo, se não tiver a boneca, a sandália, o celular, a maquiagem, e tantos outros itens que estão dizendo para ela que ela tem de ter. E isso é assustador.

* Texto originalmente escrito para minha coluna no Novo Jornal

2 comentários:

Lobo da Caatinga (Canis lupus caatinguensis ssp,) disse...

... Inscrição nesta podre granja de humanos, aliás, escravos. tudo com um propósito. Para além, muito além das simplórias reações "causa-e-efeito", "flutuações", como querem. Hora de acordar.

Mme. S. disse...

Isso mesmo Tuca. Obrigada por me visitar. Essa casa é sempre sua, viu?