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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Viver sem estacionar a vida





Quando estamos na casa dos 20, pensamos que temos todo o tempo do mundo. Acho a juventude uma fase linda da vida. É quando ainda existe aquele brilho no olhar sobre o desconhecido, o novo, o que ainda não se sabe. Mas passa, graças a Deus! A maturidade é muito melhor. Só não precisamos, com a chegada dela, apagar o brilho do espanto que a vida traz. Esgotar o tempo, muito ou pouco que nos resta, em rótulos, modelos, classificações e definições pode transformar a vida num grande tédio. Vi uma matéria dia desses que mostrava que Dona Canô, a mãe de Caetano e Maria Bethânia, fez 105 anos. Dava para ver que não era uma mulher entediada. Tampouco se coloca à parte ou de uma outra época.

Dá uma angústia quando ouço alguém dizer, "no meu tempo" ou "na minha época", como se estivesse apartado ou apagado da realidade que o cerca. O tempo e a época são agora. Na vida só temos duas opções: morrer ou envelhecer. E, acredito que a grande maioria quer a segunda. Num país onde a juventude é "vendida" como uma virtude e o envelhecimento é defeito, sinto que as pessoas mais velhas, parecem pedir desculpas pelas rugas e os fios de cabelo branco que emolduram sua experiência. Sobretudo as mulheres, porque além de tudo, somos um país machista. Encontrei uma senhora um dia desses na livraria e ela me disse que havia gostado do meu texto "Sou normal", publicado há duas semanas aqui. A empatia com ela foi imediata. Apresentava-se muito bem cuidada e, mesmo assim, era uma senhora que parecia ela mesma e não um mostruário ambulante de botox, ácido retinóico e cremes clareadores, que tornam indefiníveis as características da idade. Hoje em dia eu não sei mais distinguir quem tem 15, 30 ou 40. O tempo vivido de cada um, especialmente de nós mulheres, está diluído na angústia e no afã de mascarar as marcas num rosto que não tem idade ou personalidade. Como se a composição do tempo na pele - invariavelmente – fosse afastar a visibilidade dos outros e o nosso amor próprio.

Se alguém me olhar e reparar somente nas rugas que estão surgindo no canto dos meus olhos - sobretudo quando dou um sorriso largo e meio torto - e achar que por causa disso sou alguém fora dos padrões, então essa pessoa não precisa ocupar meu precioso tempo. Não tenho o poder de parar a ação das horas, mas posso escolher o desejo de viver muito, de envelhecer e não ter que pedir desculpas por isso. Mesmo que pague o preço de não me tornar uma supervelhinha que pode tudo e tem pique de uma pessoa de 25, porque isso também é uma ilusão. No fim das contas, a vida é curta e não temos todo o tempo do mundo. Então, que tenhamos e vivamos o tempo que for possível.

Publicado hoje no Novo Jornal

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