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sábado, 17 de novembro de 2012

Adivinhações na ponta dos dedos





Durante a madrugada parei para observar uma lágrima solitária que foi se formando do canto do olho esquerdo, deslizou lavando todo o globo, espalhando o sal naquele salão já tantas vezes molhado pelo tempo, até tomar a forma original no outro canto do olho. Pesada, foi despencando no vão entre o nariz e o outro olho e de novo fez o mesmo balé. Cada vez mais pesada e lenta. Era a lágrima mais solitária e triste que já produzi. Por um momento cheguei a pensar que fosse alguma dessas patologias vulgares de verão, pela ardência, pela densidade. Mas não. Era só tristeza condensada mesmo. Agradeci por liberar aquela tristeza silenciosa. Aquela lágrima discreta. Não gosto de chorar na frente dos outros. Salvo quando há um profundo laço de amizade. E, portanto, quando não há nenhum resquício de julgamento ou desejo de solução. A ninguém cabe o fardo de enxugar lágrimas alheias. Esse jogo é duro demais, injusto demais para qualquer pessoa. Meus sentimentos cabem hoje na palma da mão. Ontem pareciam ocupar um vão infinitamente maior. Mas só por hoje quero trafegar pelas linhas fundas e íngremes da minha mão. E qualquer tipo de adivinhação, só se for sobre meu passado.

Eu adivinho o meu passado. Primeiro a iluminação, ele veio na lembrança de uma salada de generosas porções de cenoura, tomates, abacate, cebola, algumas amêndoas, azeite de oliva e pão. Depois, os olhos azuis e quase translúcidos do meu gato, iluminaram outros pensamentos, de outros bichanos que já passaram pela minha vida e tinham a mesma contemplação e a mesma melancolia blazé do atual. Quando dei por mim, estava perdida em adivinhações do que já me ocorrera um dia. O que a maioria das pessoas não consegue entender é que a iluminação do passado só se dá quando ele já fez a curva do rio. Hoje eu recebi uma música que não consigo abrir no computador. Mas embora não consiga escuta-la, sei que ela vem carregada de adivinhações do meu passado. Principalmente pela sua dedicatória: “Felicidades y amor”. E pude rever que nos gestos daquele homem têm coisas que parecem que saíram de dentro de mim. Como se em algum momento, alguém tivesse lhe entregue um manual de instruções. Às vezes chego a duvidar e quero acreditar apenas em coincidências. Mas vem um novo gesto e pronto. Está ali a minha história. O traçado do meu corpo. O esboço da minha alma. Ora uma leitura simples e frugal; ora um compêndio metafísico. Senti isso pouquíssimas vezes, sensações que sequer cabem na mão inteira. As pontas dos dedos já bastam. 


2 comentários:

Yasmine Lemos disse...

Vim agradecer suas visitas . Blogues também são fontes de inspiração ,ótimos textos os seus , tenho o cuidado quando me inspiro nos dos outros (quase nunca) de colocar o link da fonte e dizer de onde me inspirei,o plágio é pífio.Tenha cuidado também, .
Vivendo e aprendendo , sempre.

Mme. S. disse...

Oi Yasmine, obrigada pela visita. Tenho visitado pouquíssimo o meu blog, risos. Os que eu sigo, pior ainda. Os textos alheios, sobretudo os que vêm dos livros, me inspiram muito. Mas, não sou muito leitora de internet não. Raras exceções de textos jornalísticos. Um cheiro grande, saudações lítero-femininas, procê! S.