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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Abstrações

Monet



Eu não sei bem o que está acontecendo comigo. Às vezes, me sinto como se fosse um balão em pleno ar, noutras horas tenho os poros como se fossem raízes fincadas ao chão. Tudo e todos podem me atingir como uma lança aguda e, ao mesmo tempo, me são indiferentes.

vou dar alguns exemplos prosaicos: o cheiro de jasmim me eleva. Tem uma árvore também que às vezes zomba com as memórias da infância e penso que é jasmim, mas se trata de nin. Uma planta que se chama "nin", ou algo assim (essa rima está me deixando nervosa), só pode ser uma  planta muito generosa. Ontem à noite, uma garotinha que brincava no pátio, carregando sua boneca, num carrinho de bonecas, me olhou e disse: "Oi de novo!". É que a gente já tinha se falado oi antes. E "Oi de novo" é algo que sela os tantos encontros que ainda teremos pelo pátio, sela o nosso olhar e a obrigação que temos com a simpatia que nasceu no nosso primeiro oi. Tenho ouvido uma única música o tempo inteiro! E, quando desligo o dispositivo sonoro, ela continua solfejando na minha cabeça. E não estou irritada ou cansada dessa música. Estamos nos fixando uma na outra. A música tem dessas coisas definitivas com a gente. Tem frases que nós falamos que imediatamente nos rementem a uma música, já perceberam? Eu vivo fazendo isso. "Como vai você"?, num simples encontro no meio da rua e já me vem a frase "Eu preciso saber da sua vida".

Também sinto vontade de sorrir. Daí, para não parecer uma boba sorrindo ao vento, eu penso em coisas engraçadas, em coisas bonitas, em piadas, em conversas anteriores com os amigos, e continuo a sorrir, tendo a exata justificativa para, afinal de contas, sorrir à toa, sorrir ao vento.

E tem horas que eu choro. Chorei porque estão falando muito no Luís Gonzaga e porque eu nasci ouvindo e cantando suas músicas. E lá de onde eu vim tinha uns forrós pé-de-serra que meus pais me levavam no São João, onde se ouvia a sanfona o zabumba e o triângulo, e porque eu penso em tudo isso e sinto saudades da poeira da minha infância e eu sinto saudades daquela sonoridade do chiado da chinela no salão de cimento queimado e sinto saudades daquilo tudo que há em mim.

Uma mulher com voz de velhinha falava hoje incessantemente sobre seu papagaio. Ela também tinha calopsitas. Várias. Tive vontade de me virar para ela e dizer, "mas passarinho não pode ficar preso em gaiola, minha senhora!". Mas, não tive coragem. E fiquei quieta, botei para funcionar dentro da cachola a música que estou ouvindo o tempo inteiro - agora mesmo, ela está aqui - e abstraí.

Um comentário:

Lobo da Caatinga (Canis lupus caatinguensis ssp,) disse...

Uma fuga louca de um som com penas e calopsitas, de onde o cérebro nos torna papagaios. Desce um passado que nunca existiu porque os verbos são sempre no presente quando vivos. Velhas prendem pássaros porque estão mortas. Quando uma música tenta tomar o pouco espaço que ainda tenho entre as orelhas, acampo numa pedra bem alta e, à noite, bem no meio da noite, atiro-nos lá de cima. Deixemos de prender músicas como a velha prende calopsitas. Quando nos atiro das altas montanhas onde acampo quando não me aguento, juro, saímos voando pelas moites em doces trevas...