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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vestido de Mulher (originalmente escrito para o Novo Jornal)




Já vi por aí alguns homens que ultrapassaram a barreira da camisa polo ou de botão e se arriscam num decote "V", sem com isso, colocar sua masculinidade em prova. Vi também homens que encaram com naturalidade e até mesmo bastante desenvoltura um velho recinto antes comandando só por nós mulheres: a cozinha. Já cheguei a trocar até mesmo algumas receitas com alguns deles e todas ficaram boas. Falando em trocar, os pais de hoje não são como os de antanho. Mais leves, se arriscam a sorrir, conversar, brincar, participar e até mesmo trocar as fraldas dos filhos. Se são de uma geração mais para meados do século passado, estão exercitando essas práticas agora com seus netos. Afinal, a máxima não basta ser pai, tem que participar, parece que foi absorvida de vez pelos cuecas.

Tem acontecido um outro fenômeno entre os homens: quando dói, quando o filme é emocionante, quando a separação é inevitável, quando morre alguém que se amava tanto, quando o filho vai fazer intercâmbio, quando o time vence o campeonato, quando o cateterismo não é opção e sim condição para seguir em frente, são vivências nas quais alguns homens já se permitem chorar. E, cá para nós, homem chorando é bonito. Dá vontade de chorar junto. Tão bonito quanto homem dormindo. Aquele jeito desprotegido, humano, desarmado, quase inocente.

Mesmo que de uma maneira alegórica, os homens têm se vestido cada vez mais de mulher. E não estou falando das fantasias de carnaval, quando eles soltam a franga e pegam emprestado o vestido de suas companheiras e saem cometendo histrionices, numa tentativa caricata de atingir nosso rico e complexo universo feminino.  Sem a desculpa do carnaval, o vestido é a própria pele. Aos poucos, alguns têm se apercebido de que sentimentos, medos, dúvidas, apreensões, emoções e alumbramentos não são matérias exclusivas de quem produz luteína. Homem também é gente.

E é ai onde reside um paradoxo para nós mulheres. Algumas ainda resistem a esse novo modelo de homem que chora e que não segue o script dos cowboys empoeirados, dos velhos filmes de Western. (Até Clint Eastwood já chorou por ai em alguns de seus filmes). Portanto, se o cara não cair logo matando e se não for tão óbvio nas investidas, não vá jogando rótulos de que ele é gay ou pior, que você é desinteressante. Dê uma segunda chance. Tome a iniciativa. Convide-o para um café, um cinema. Ofereça-o um pouco dos seus receios e das suas dúvidas, sem as cobranças usuais. Use seu melhor vestido: aquele mesmo que eles têm pedido emprestado da gente para encarar essa ciranda louca e maravilhosa que é a vida. E, se mesmo assim, ele não ligar de volta é porque não tinha de ser. Nem sempre são perfeitas as medidas das roupas.





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