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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A provocação que importa *


Uma verdadeira provocação

De nada valem frases de efeito e fórmulas enfadonhas sobre “como o mundo pode ser melhor se você seguir as minhas instruções arrogantes”, quando, na real, o mundo está precisando é de menos sujeitos e seus locutórios e mais de bons exemplos. Gosto mesmo é quando me deparo com ideias que realmente venham a se tornar realidade e quiçá elementos de transformação. Assistindo ao programa Provocações (TV Cultura), apresentado pelo diretor, Antônio Abujamra, me deparei com a grande provocação para meu texto de hoje: o líder de moradores de rua e presidente da ONG Bicicloteca, Robson Mendonça. Ele vive em São Paulo e tem uma história permeada por dores e perdas. Era agropecuarista no Rio Grande do Sul e, em 2000, foi para São Paulo, com intenção de reconstruir sonhos junto com a família. Chegou primeiro sozinho. Já na rodoviária sofreu um golpe de uma quadrilha que conseguiu levar-lhe todo o dinheiro que tinha guardado nos seus 50 anos de vida. Sem alternativa, passou a perambular pelas ruas e, sequer conseguia fazer uma ligação para sua mulher e o casal de filhos. Até que num dia cinzento de São Paulo, ao assistir a televisão pela vitrine de uma loja, viu que um trágico acidente de ônibus tinha matado uma família inteira que ia do Rio Grande do Sul para Juazeiro do Norte (CE). A linha telefônica ficara muda para sempre, porque era deles que o noticiário falava.

Ao invés de jogar-se nas drogas ou de se entregar à loucura dos destituídos de esperança, jogou-se na leitura, em bibliotecas públicas. O primeiro livro do qual se apegou foi “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. E resolveu fazer sua própria revolução pessoal e social: levar livro e literatura para os moradores de rua da metrópole. Nessa época já estava engajado no Movimento Estadual da População em Situação de Rua e imaginava poder carregar de um canto a outro, num carrinho de mão, os livros para aliviar a solidão e levar conhecimento aos outros na mesma situação. O empreendedor Lincoln Paiva abraçou a causa e, a partir disso, surgiu a Bicicloteca, que consiste num triciclo com baú, que abriga até 300 livros e circula pela cidade.

Quando essas informações foram veiculadas pela Folha de São Paulo, no final do ano passado, já tinham sido emprestados – e devidamente devolvidos em grande parte, embora não haja o rígido controle - 107 mil livros, a maioria para moradores de rua. Abujamra ficou nitidamente embevecido com aquele cidadão tão provocador. Eu também. E, se não vou sair por aí fazendo algo tão grandioso como Robson faz, ao menos vou continuar insistindo que a leitura pode ser transformadora. Mas, de preferência, bem longe das vazias frases de efeito.

texto publicado hoje, originalmente, no Novo Jornal.





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