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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

E pensar que já faz quase 20 anos




Não lembro bem quando, mas combinamos de passar a entrada de um ano para outro em Pipa, num tempo em que Pipa não tinha toda essa badalação que tem hoje, mas já ficava bem badalada no final do ano. Cada uma pegou uma carona "nada a ver" para chegar à praia. Foi difícil de chegar. Paramos em vários lugares, o pessoal do carro onde eu estava queria cantar músicas que estavam longe de ser do Legião Urbana ou dos Smiths. Pararam diversas vezes no meio do caminho e inventaram de jantar na beira da estrada. Chegamos mais ou menos umas 22h em Pipa, mais ou menos umas cinco horas depois de termos partido de Natal. Foi dureza.

Umas 23h45 e começou a bater um desespero em meio aquela multidão de gente porque eu não encontrava minha amiga. Mas, finalmente, quando já estava quase batendo aquela sensação de que eu ía passar o ano com um povo nada a ver, meio assim de lado pendendo para a direita, que eu a vi. Nossa, que felicidade! Os fogos ganharam o colorido que tinham de ganhar. Decidimos ir então para a única boate que havia em Pipa. Lá chegando, sentamos no bar e eu acho que fumei uns 50 mil cigarros e tomei algumas cervejas. E eu não costumava fumar, nem beber. De repente o mundo começou a girar, ficou escuro, ouvia uns sons desconectados com a realidade e lá bem longe sentia uma mãozinha me amparando. Até hoje eu acho que fui ao inferno, dei uma conversada básica com um diabinho, a gente não se entendeu e ele me mandou de volta. Despertei do porre cigarrístico meio zonza e ela estava lá. Não saiu correndo, não fez alarde, não entrou em pânico, não largou minha mão. Só disse assim: "amiga, você passou mal. Vamos ao banheiro?". E eu obedeci. Chegando lá e me deparando com o espelho entendi como é que fica a cara de alguém que acabou de visitar o inferno porrístico cigarrístico. Estava branca, os olhos mais arregalados que o normal, assustada e com a cara da vergonha pessoal e intransferível. Mas ela não se intimidou com aquele porre e aquele mico alheio. Decidimos não beber mais naquela noite, nem fumar. Tomamos uma coca-cola, uma exceção que até hoje não entendo, já que não gostamos até hoje de coca-cola. A resolução de não fumar foi quebrada 19 dias depois quando, caminhando à tarde pela Rio Branco, já que trabalhávamos naquelas redondezas, no segundo andar de uma daquelas lojas, onde se abrigava um dos melhores escritórios de engenharia e arquitetura da cidade. Naquela tarde, com a cara de pau de botar novamente um cigarro na boca, rimos muito lembrando daquela "aventura" que tinha aberto nosso ano.

Naquela noite de 1º de janeiro do século passado, nós ainda tivemos tempo para nos divertir muito. Mesmo sem álcool, mesmo sem cigarros, só com a cara lavada e a coragem de sermos inteiras e absolutamente felizes, com pouco dinheiro no bolso e uma disposição danada de achar graça e valor nas coisas mais simples. Eu conheci um gatinho naquela época que me chamava de "Lua" e até rolou uns beijinhos, que depois se tornou um namoro e umas boas estadas dentro de uma barraca de camping, lá mesmo em Pipa. 

Mas, o que ficou mais marcado daquela entrada de ano não foi a bosta do porre cigarrístico, nem os beijinhos molhados no gatinho de olhos amendoados que era doce feito doce de batata doce. Foi a sensação até hoje daquela mãozinha me segurando para eu não cair no bar da boate; a risada aliviada que nós demos no banheiro quando olhamos para minha cara assustada; aquela latinha de coca-cola dividida; os passos de reggae e de rock´n´roll, que nós jurávamos fazer bem certinho; a promessa de que nunca mais fumaríamos e os desejos de que o ano seria bom porque a gente estaria sempre junta, a gente cuidaria uma da outra, a gente poderia se divertir com pouca grana, a gente pegaria uma carona separadas, mas nos 14 minutos antes da meia noite a gente poderia se encontrar e viver tudo intensamente de novo e de novo e de novo. 


E pensar que já faz quase 20 anos que isso aconteceu. Agora ela já tem três princesinhas lindas e mora bem distante de mim e eu mandei agora há poucos dias um compacto para ela dessas minhas lembranças. Ela disse que se lembrava de tudo e que, depois que nos despedimos, porque eu tinha de voltar para casa, naquela carona nada a ver, e ela voltou para a outra casa onde a galera também era muito chata, não curtiu, voltou para praia, deitou, dormiu e acordou com uma parte do rosto queimando do sol. A gente deu muitas risadas. A gente sempre encontra motivos para sorrir, para se reinventar, para seguir em frente, mesmo às vezes perdendo a linha, as esperanças, cantando paródias de sambinhas e fazendo uma ode à vida, que é bonita, é bonita e é bonita. Estou com muitas saudades dela. Já faz dois anos que ela foi embora de novo para longe de mim. Ela passa dois anos e meio sem dar notícias e nunca responde aos meus e-mails. Mas, mesmo assim, quando a gente se encontra é sempre como se a gente tivesse se livrado de uma carona chata e se deparasse com o que realmente importa e faz sentido. E pensar que já faz quase 20 anos que a gente se conhece. E eu olho para trás, olho para os lados, olho para a frente e sempre vejo minha amiga, Zanze*.



* Essa é uma história real. Mas qualquer semelhança entre fatos e nomes não precisa ser mera coincidência. Eu acredito no poder da amizade, eu acredito no poder das boas vibrações, no companheirismo e num encurtamento de distância que só mesmo quem tem um grande amigo sabe do que estou falando. Portanto, estou citando a Zanze nesse texto, mas ele é extensivo a muitos outros amigo(as) querido(as) que eu ganhei pela vida e que constroem, comigo, a minha história.

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