Google+ Followers

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O sapo não lava o pé *




Tenho certas inclinações para continuar acreditando no amor. Mesmo que muitas histórias, algumas minhas, outras dos outros, tentem me convencer de que sou deveras ingênua e ridícula. Mas, acho que para viver num estado de amor, como já disse o poeta, é preciso ser mesmo ridículo; nutrir um certo teísmo, uma crença de que é mais fácil um camelo apaixonado passar no fundo de uma agulha, que um cético com seus gráficos e aferições sucumbir à queda livre que vai dar nas profundezas dos suspiros, do encontro e da intimidade.

Eu e minha ingenuidade já passamos, no amor, por algumas situações interessantes, edificantes, degradantes e massacrantes. O caro leitor me desculpe a tola aliteração, mas foi assim mesmo. Já sonhei acordada, já dividi sonhos, já fiz planos, já imaginei como seria a cor dos olhos dos nossos filhinhos – no primeiro encontro –; já fiquei esperando por um telefonema que nunca chegou; já contei os dias; já contei as horas e achei que os minutos eram uma medida de tempo que tinha parte com a crueldade. Já acreditei também em alma gêmea; já fui à cartomante; já procurei nas linhas das mãos dele alguma pista para saber se ali habitava um homem ou um rato. Já chorei durante filme de amor e já imaginei que vivia um grande filme de amor, e portanto, muitas vezes me despi da censura do mundo dos adultos e me acabei em lágrimas, por causa do amor, como se tivesse acabado de arrancar o tampo do dedão numa topada. Desse parágrafo não me envergonho, mas admito, muita coisa foi besta e vã. E muita coisa joguei para cima, para no final dar boas risadas. No amor, me desculpem os sisudos, mas sorrir é fundamental. Especialmente de si mesmo.

Já vivi o discurso apaixonado com ressonâncias por todos os lados e vivenciei o inexorável silêncio que prenuncia o fim. Esse véu que cobre todas as possibilidades de outrora, e aniquila até mesmo a briga. Esse coloquiozinho infame que só existe se alguém – ou melhor, os dois – quiserem falar sem muita disposição para ouvir, só para ter o prazer da última palavra. O ponto final, a pá de cal do entendimento.

Não sei se existe uma normatização regular no amor, mas acho que existem algumas regras básicas: a) fundamental não ter medo de ser ridículo aos olhos dos outros; b) não achar que o amor enfraquece; c) não ser meramente avulso; d) complemento do “c”, estar mais para o atacado do que para o varejo no mercado sentimental. E de resto, deixa rolar e não é preciso dar tanta bola para regras.
Sim, e o que é que tem a ver esse texto com o título? Nada. Ora, se eu admito minhas inclinações para ser assim tão ridícula e crédula no amor, por que teria receio de um título ridículo?

* texto publicado hoje no Novo Jornal

4 comentários:

Henrique Arruda disse...

Amei ter começado a terça-feira com esse texto :)

Bjo
:D

Mme. S. disse...

Henrique! Que coisa boa, sua visita! venha sempre!

Angelo Augusto Paula disse...

Adorei tudo! hehehe, Me vi. E termino com uma pergunta: quem nunca?
O mundo precisa de seres assim! Abração

Mme. S. disse...

Ângelo, que legal sua visita. O mundo precisa de seres assim, como tu e com teus escritos, que são maravilhosos, taí, concordo! risos.
Bjs, S.