Google+ Followers

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Mosaicos do Tempo *



Modigliani

Vinte e três horas e trinta e nove minutos de um dia qualquer. Tiro uma licença poética do tempo presente e volto ao tempo passado. As primeiras imagens que me surgem são da minha avó. Aos meus olhos ela sempre foi uma senhora baixinha e meio corcunda de cabelos muito pretos e lisos, que gostava de contar piadas para as moças da vizinhança e pintar as unhas. Guardava coisinhas em caixinhas, usava pó e rouge todo santo dia, cantava canções tão antigas quanto um velho carvalho e sei que me amava. Lembro também de uma vez que meu pai saiu de casa e, quase meia hora depois eu tinha a nítida sensação de que podia sentir sua respiração e ouvir o tom grave de sua voz bem ao meu redor. Tem pessoas que mesmo que distantes, nunca saem de perto da gente. Mas essa sentença é mais sólida para amigos.

Minha mãe pedia para eu ir pegar o leite. Naquele tempo em que se comprava leite em litros, que vinham direto da fazenda, direto do peito da vaca. Ela recomendava que voltasse logo porque o leite ainda tinha de ser fervido. Eu ía. Uma vez me distraí com as pedras no meio do caminho e o litro caiu e se espatifou no chão. Acho que foi a primeira vez que eu quis não existir. Que sonhei com uma máquina do tempo, com dedos mais firmes e pés mais rentes ao chão. Voltei para casa e ela me olhou com aquela cara alterada pelo desapontamento e eu chorei o leite derramado. Era na mesma época em que eu desenhava casinhas com chaminés, sóis redondos e amarelos com riscas de raios para todos os lados, gaivotas escalando nuvens no horizonte azul. Traços que aqueciam minhas tardes solitárias de asma, dor de ouvido e alergia. Teve uma vez que eu revelei ao médico que acariciava o gato da vizinha. Minha mãe me olhou de novo com aquela cara de desapontamento e, dessa vez, também de surpresa. Na saída, ao invés de uma reprimenda, ela me comprou danoninho e gibis. E eu voltei para casa achando que ficar doente e falar a verdade podia ser um negócio muito proveitoso.

Gripe passa. Problema é quando a doença começa pequena e mansa e nasce dentro da alma da gente. E a cura só pode brotar do mesmo lugar de onde veio: o cotidiano e o espelho. Esses dois entes por vezes impalpáveis e incompreensíveis. Antes, quando minha mãe perguntava onde é que dói, eu sabia responder direitinho. Depois, o tempo passa, a gente se acostuma a querer controlar o relógio e as coisas que estão dentro do mundo e fica com necessidades urgentes do tipo acender a lâmpada no pingo do meio dia, porque está tudo tão confuso e nada é suficiente. Vinte e três horas e quarenta minutos de um dia qualquer. Daqui a pouco vou ter um sonho de fácil interpretação. Assim espero.

 Artigo publicado hoje no Novo Jornal


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma confissão e um pedido




Foi quase como te tocar e ouvir o som da tua voz. Aquela voz que vem emaranhada de respiração, colada ao ouvido, dançando nos poros da face. Nunca te vi e, no entanto, sinto-me impregnada de ti. Escrevo diários desde o século passado e achava que isso era coisa ultrapassada. Às vezes me sinto ultrapassada. Mas, tudo ganhou um outro significado quando, naquela tarde quente, eu tive a chance de ler pequenos trechos dos teus diários, das tuas experiências com o mundo e exercícios de escrita. A letra bem desenhada, como era de se imaginar para alguém que tinha tanto domínio do traço. A alma desfiada em detalhes e delicadezas de pequenos momentos, que se transformam - agora - em "todos" separados do tempo e do espaço, depois de tantas décadas. Mais de meio século já se passou e você continua tão vivo naqueles caderninhos impregnados de pó e sabedoria.

Você não tem ideia do quanto aquilo tudo me emocionou. Do quanto me senti pequena diante de ti e das coisas que você criava e falava e vivia e escrevia e entregava para os outros. Se pudesse, é claro, teria pedido permissão. Como não posso, estou pedindo agora. Estou, em reverência à tua vida e, sobretudo, ao teu legado, pedindo licença para passar com a minha finitude, meus medos, meus anseios, minha imensa vontade de ser somente uma emissora de tanta profundidade que teus rastros deixaram terra afora. 

N. com licença, que eu quero passar.






quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Para não dizer que não falei de flores





Às vezes tenho uma vontade imensa de nada. Uma ausência que chega a assustar porque preenche todos os espaços. Somente o futuro se mantém incerto. Quiçá, eu deva agradecer por isso.

Voltei a cultivar flores. Já era tempo. Elas colorem o meu nada. Duas cossandras, uma begônia, um cravo, 11 horas, pimenta preta e uma outra que dá uma florzinha cor de lavanda e que eu esqueci o nome. Mudanças são sempre bem-vindas. Quando estou muito angustiada, vou lá e converso com elas. Seu silêncio traz umas certezas que às vezes eu esqueço de contabilizar nesse meu caleidoscópio de vento, sol, água, chão e sentimentos. Também há espaço para outras coisas, eu sei. Mas não quero. As ausências me bastam, que não tenho ocupação para mais nada. Tudo é passageiro e efêmero debaixo da terra.

Algumas têm de ser aguadas todos os dias. Outras, nem tanto. Deve ser assim com todo mundo. Há dias em que precisamos de muita água, luz e calor. Noutras, a solidão já é o suficiente. Respeito-as. Respeito-me.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Um amor que humaniza (artigo do Novo Jornal)




Já tinha ouvido falar do trabalho da artista plástica Hilana Ubarana, e dedicação em fazer a sua parte no que diz respeito ao resgate e proteção dos animais abandonados nas ruas. Mas, depois da entrevista na semana passada, na Coluna Cores & Nomes, da jornalista Margot Ferreira, a admiração e respeito por ela cresceram ainda mais, a ponto de retomar o tema nesta minha coluna. Faço parte desse time. Compartilho com meus leitores, que por ventura não tenham assistido à coluna, algumas “lições” realizadas por Hilana Ubarana que, além de já ter três cachorros e quatro gatos, todos com história de resgate e proteção, não se conteve, foi além, e resolveu ajudar ainda mais organizações e pessoas físicas que se compadecem com o abandono dos animais de rua. Artista plástica, ela faz telas, cuja renda é revertida para a causa. Com o dinheiro, outros protetores podem cuidar e alimentar os animais resgatados.

Conheço outras pessoas, assim como Hilana Ubarana, que também saíram da zona de conforto e voltaram o olhar para a problemática e, de alguma forma, fazem algo para mudar a situação. Os amigos Cristiane Galvão e Marcelo Morais, por exemplo, mantém o site Bichinhos Precisam de Lar, no qual trabalham a conscientização da importância de proteger, adotar e cuidar desses animais. Disponibilizam também informações sobre bichinhos que estão abandonados, doentes e precisam com urgência de lares provisórios, de cuidados e de lares permanentes. Portanto, para quem acha que não está preparado para cuidar de um animal de rua, a ajuda pode ser feita de outras maneiras.

Muito embora, acredito que o grande sonho dos protetores é que na mesma proporção em que se multiplicam animais abandonados, se multiplicassem também a consciência e a descoberta para muitos de que um animal que está passando fome, sede, frio e está suscetível às doenças, é potencialmente uma criatura que pode receber e dar amor. E para quem acredita que é mais importante se preocupar com a dor e o abandono de crianças e idosos, entre outras situações tristes e vergonhosas que comprometem a dignidade humana, gostaria de dizer que amar os animais não é um desperdício. Ter um animal em casa também é um exercício diário de amor e cuidado e isso nos humaniza e nos torna ainda mais sensíveis. Também não é um tipo de amor que substitui amor pelos pais, filhos e amigos. São coisas diferentes.

Portanto, faço um apelo: enquanto o Poder Público não faz a sua parte, acolhendo-os com responsabilidade, desenvolvendo campanhas de castração e de adoção, que se multiplique a consciência social de que adotar um animal de rua – seja gato ou cachorro – é um ato de amor que só acrescenta, não subtrai.


Esse aí na foto é o meu Oto. Ele fez parte do time de quatro patas aqui de casa até o dia 12 de dezembro de 2011, quando foi inevitável o fim, porque tinha câncer terminal. Ele conviveu conosco cerca de uns dois anos. Era uma das criaturinhas mais doces e dignas que eu tive em casa. Tirei-o da rua e, em troca, ele me deu muitas alegrias. Era meu "pintinho amarelinho". Saudades, sempre Oto.