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quarta-feira, 27 de março de 2013

A mulher que sabia ouvir





- Eu tô ouvino Lucivaldo. Eu tô ouvino!

Falava aos brados a mulher ao telefone. Não se passavam dois segundos e ela repetia:

- Lucivaldo, eu tô o.u.v.i.n.o! Fala! Pode falar!

A linha caía. Ela se irritava. Ligava de novo porque tinha aquele plano de ligações gratuitas da mesma operadora.

- Lucivaldo? A linha caiu. Eu tô chegano em casa, Lucivaldo. To na besta, Lucivaldo. Pára Lucivanaldo! - Gritava com o menino, mais ou menos dois anos que insistia em não parar quieto, indiferente aos solavancos da besta.

Ela segurava o menino pelo braço. Parecia uma boa mãe. Os dentes da frente careados. Vinte e três anos, barriga quebrada, cabelos lavados com lux luxo, sandálias japonesas. Um cara cansada. Diferente da voz estridente e insistente para que o marido falasse algo que ele, sinceramente, não conseguia falar. 

- Eu já disse que eu tô ouvino, Lucivaldo. É só dizer!, insistia e desatava a insistir incessantemente. 

E, Lucivaldo do outro lado da linha não conseguia falar nada e também não sabia que Lucivanaldo nessa altura do campeonato estava querendo puxar meu cabelo e enfiar o dedo na fivela da minha bolsa. E ela, também não sabia porque ela só queria ouvir. Brinquei com os dedinhos do menininho de cabelos encaracolados e ele tinha lindos olhos castanhos. Com aquele brilho do encantamento pelo mundo. Criança: reloginho de descobertas. Todo minuto o mundo se abre cheio de cores, sons, pessoas diferentes, a música do Patati Patatá, uma palavra nova e quase impossível.

Desceu num bairro comercial, bem perto da feira. Foi quando percebi que além de Lucivanaldo nos braços, ela carregava um saco de estopa nas costas que devia pesar uns 30 quilos. 

Entendi tudo. Ela sustentava tanto peso que os ouvidos precisavam voar.

2 comentários:

Dauri Batisti disse...

Gosto de contos, de histórias, gostei dessa.

Mme. S. disse...

Obrigada Dauri Batisti. Venha sempre que quiser.