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sexta-feira, 29 de março de 2013

Do lado do espelho




Nós mulheres vivemos enclausuradas em padrões impossíveis de serem postos em prática. O ideal de corpo perfeito nunca é alcançado e, em geral, causa muito frustração e até vergonha. Mesmo as fiéis seguidoras das academias de ginástica, as que têm tempo para pedalar, nadar, fazer spinning, pilates, musculação ou qualquer outra sorte de exercícios físicos não se sentem completamente confortáveis com seus corpos trabalhados. Há sempre uma marquinha aqui, um culote ali, uma estria acolá que incomodam e se transformam em matéria-prima de queixa e desolação.

O corpo feminino é constantemente bombardeado por exigências que, não raro, nos desumaniza, nos atira ao abismo do inalcançável. É muito comum entre as amigas um elogio ao corpo ser facilmente afastado por uma desculpa ou apontamento para um “defeito” desapercebido pelo olhar alheio. Você elogia a cintura e a amiga logo vem lembrando que as pernas são finas. Você fala bem do cabelo e ela lembra que não tem bunda. Você fica triste por ela e começa a lembrar dos seus próprios defeitos e a conversa fica chata e desoladora.

O nu então é um tabu. O fotógrafo Matt Blum desenvolve ao lado de sua mulher, Katy Kessler, um projeto pelo mundo chamado The Nu Project. A ideia é fotografar mulheres comuns, completamente nuas, sem produção, maquiagem e sem contar com programas de editoração que escondam suas verdadeiras marcas e formas.  Ele passou pelo Brasil e clicou algumas de nós em cidades como São Paulo, Rio, Salvador e Recife. A ideia de clicar mulheres normais passa pelo objetivo de promover uma espécie de libertação e de felicidade com o que elas são de fato. No site que leva o mesmo nome do projeto, dá para sentir a satisfação das clicadas. É algo realmente libertador.

Claro que não é necessário virar capa de uma revista ou pixels em um site para se sentir livre dos padrões e feliz pelo que a vida e o tempo desenharam na carcaça de nossas almas.  Não quero dar ênfase para nenhum tipo de exposição, embora à que me refiro não seja gratuita ou transforme o corpo feminino num produto para estimular o desejo sexual masculino. Mas, penso que todos os dias, nós mulheres deveríamos nos autofotografar. E não estou falando daquelas fotos enfadonhas do instagram. Falo de um outro tipo de “clique”: aquele que nos coloca diante do espelho e da realidade com leveza e sem correções. Um momento para que possamos deixar o olho nu das exigências e dos ideais de beleza que só nos põe para baixo e nos padroniza como se fôssemos um rebanho de ovelhas enfileiradas para o matadouro. Uma fotografia interna. Um olhar acolhedor para si mesma, que aceite elogios de dentro para fora. Ser imperfeito não é uma afronta a nada nem a ninguém. O contrário é que sim. 


Artigo publicado no Novo Jornal em 5 de março

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